A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

grande beleza

Muito se fala que o recente cinema grego e seus perturbados personagens não deixam de ser reflexos convexos da crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. E sendo a Grécia o grande baluarte de nossa civilização ocidental, o debate em torno do colapso financeiro, que não deixa de ser o colapso humano, se torna quase uma terapia coletiva sobre a qual precisamos nos debruçar. Mas eis que ali pertinho, a braçadas de Mediterrâneo, sem o espólio fatalista de Sócrates ou Platão, porém com o bizarro senso de humor herdado de imperadores incendiários e devassos, o berço da primeira hiperlativa hegemonia da humanidade nos traz um filme que fecha 2013 com a epítome de todas as crises que o Velho Continente esguicha hoje de seus bancos, comércio ou sala de jantar. E faz isso com uma comédia.

Quem assina por essa memorabilia dos tempos contemporâneos é o diretor Paolo Sorrentino, apresentando aqui o mais italiano de todos os seus filmes, incluindo aí o italianíssimo Il Divo. Italiano no sentido de usar a alienação e o delírio de seus personagens como fundamento crítico da humanidade tal como um dia fizeram, em diferentes medidas e registros, Fellini, Pasolini e Antonioni. La Dolce Vita, em particular, estará presente em várias referências. No papel do grande piadista, o espetacular Toni Servillo (o mesmo de Il Divo), como um escritor a viver das glórias de sucessos passados e a contemplar com alto grau de cinismo a geração do descarte: das imagens e das ideias anexas a essas imagens.

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O som que ficou ao redor no cinema nacional em 2013

Educacao

Carinhosamente tomo emprestado o título do filme mais importante do ano – importante por tantos motivos que nomeá-los aqui seria escrever sobre outra história – para fazer uma retrospectiva do que vi no cinema nacional em 2013 e relacionar afetivamente essa experiência aos sons que ficaram comigo de todos eles.

Primeira observação: em retrospecto, vejo 2013 como um ano particularmente explosivo para o cinema nacional. O petardo foi plantado lá no começo de janeiro com a estreia do próprio Som ao Redor e seu inesperado sucesso comercial para um filme lançado fora do modelo Globo Filmes. O barulho advindo dele está ecoando até agora pelas poucas salas a exibir esse cinema de que vou falar.

Segunda observação: alguns dos longas de que trato aqui ainda não estrearam em circuito comercial, mas se neste texto estão é porque me causaram um impacto tão positivo que não poderia deixar de contar como uma experiência vivida durante 2013. São eles: Amor, Plástico e Barulho; Avanti Popolo; Depois da Chuva e Riocorrente. Todos previstos para um igualmente explosivo 2014. Assim se espera.

Terceira observação: O que se segue é um texto de ordem 100% passional. Não esperem análises.

Quarta e última observação: as comédias da Globo Filmes #nãomerepresentam.

Tendo tudo isso dito, lembremos que:

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Além da Fronteira, de Michael Mayer

Alem da Fronteira

A questão Palestina/Israel, como todas as questões de territórios vizinhos e inimigos, vem rendendo ao cinema um sem número de narrativas românticas com base naquela premissa da tese (o amor), antítese (a proibição ao amor) e síntese (a resposta, muitas vezes violenta, à proibição) de Romeu e Julieta. Além da Fronteira não foge ao modelo. A estreia do diretor Michael Mayer em um longa segue esse arquétipo do amor proibido e traz uma leitura que começa afetuosa entre dois personagens inseridos no contexto da pouco afetiva relação entre palestinos e israelenses no campo dos acordos políticos.

Começa, mas não termina. Pois que no terceiro ato do filme, eis que esses acordos políticos do amor cedem cansados a um thriller em que pipocam juízos de valor sobre o “ser” palestino, cujo núcleo familiar soa primitivo e intolerante, e o “ser” israelense, dos pais requintados e liberais. E aí vem o pacote de cenas de perseguição, ligações obscuras e uma série de improváveis malabarismos narrativos para conseguir levar o filme a um desfecho qualquer.

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Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

doce amianto

Salve o delírio diante da dor e o desejo diante da destruição. Salve o que for fantasia, artificial, postiço e extravagante, salve toda quimera que possa remediar a solidão de uma cama vazia. Nesse estranho mundo de sobrevida em tarja preta, melhor é mesmo acreditar que a maquiagem e as fadas te salvarão da dormência e da demência. Entre o 8 e o 80, fiquemos pois com o 88. Sendo assim, Doce Amianto é um filme que não pede desculpas pela alucinação. Na verdade, faz dela uma linguagem manifesto corporificada numa personagem que carrega já em seu nome a (imaginada) negação de sua realidade, também reafirmada em poema de Walt Whitman no prefácio do longa.

Amianto, a fibra mineral conhecida por características como indestrutibilidade e por ser prejudicial à saúde do ser humano, é “doce”, no sentido de meiga, afetuosa e, sim, extremamente frágil, quebradiça.

O filme de Guto Parente, já conhecido por seus curtas de um onírico apuro estético, e do poeta Uirá dos Reis, usa de todo esse trans-bordamento para falar de trans-afetividade. Pois se a identidade de gênero passa pela performance, como diria Judith Butler, o feminino e o masculino serão postos aqui num palco em que só se dialoga a partir de uma dramaticidade propositalmente falsa e hiperbólica, como se a aparência do gênero tentasse fugir saltitante de uma heteronormatividade altamente rígida. Lo tuyo es puro teatro.

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Azul É a Cor mais Quente, de Abdellatif Kechiche

Adele.c

Azul É a Cor Mais Quente é uma história de amor como qualquer outra. Mas assim como qualquer história de amor, é uma história como poucas. Para filmá-la, Abdellatif Kechiche estabelece um só critério como motor narrativo: o desejo. Existem várias outras medidas para contar a trajetória de um casal, mas claro está que o diretor, tendo ele mesmo esse olhar lúbrico diante de suas atrizes, está ali para tratar primordialmente do desejo, tesão, da pulsão dos corpos que colidem e se atraem.

Para tocar nisso, Kechiche usa de suas longas lentes e alcança os closes mais fechados possíveis nos rostos de seus personagens, dando significados extras a qualquer movimento dos olhos e das bocas insistentemente focadas. A ausência ou o transbordamento do tesão será visto em planos que namoram esses detalhes.

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Jogos Vorazes – Em Chamas, de Francis Lawrence

hunger games

A heroína dessa história, símbolo maior da revolução que nasce contra o sistema, tem salientes bochechas e dois namorados. Ela está de bem com seu semblante renascentista e eles estão de boa em dividir os beijos da moça. Pra quem vinha de uma série adolescente machista e antiquada como a saga Crepúsculo e seus vampiros vegetarianos, a franquia Jogos Vorazes chega a ser um respiro de alívio. Talvez agora meninas do mundo inteiro possam entender que, muito melhor que arrumar um casamento pra eternidade (500 anos depois, Bella continuaria lavando a cueca de Edward) é ser musa de uma revolução social sem se preocupar com dietas e, de quebra, usufruindo da glória de ser uma Dona Flor em tenra idade.

Somente por isso esse filme já ganha pontos na minha milhagem. E sim, estou julgando a obra antes pelo efeito que ela pode ter em seu público alvo de adolescentes do que pelo que realmente ela apresenta enquanto entretenimento e alguma faísca de reflexão pós movimentos occupy isso e occupy aquilo. Quanto ao filme em si, vamos aos fatos.

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Blue Jasmine, de Woody Allen

Blue Jasmine

Os personagens já conhecemos. Suas paranoias, inadequações, frustrações e, principalmente, aquela particular negação de todos os problemas que não sejam os seus. De volta à casa, os Estados Unidos (neste caso numa dobradinha Nova York/São Francisco), Woody Allen retoma também as piadas com as idiossincrasias dos que vivem de pontes aéreas internacionais, jantares milionários e álcool, muito álcool que é para o sorriso se manter sempre disposto. No resgate daquela extrato social que ele tão bem filmou em Match Point, Allen faz um roteiro quase que no automático, as ironias se repetem. O resultado poderia facilmente cair no mais do mesmo. Mas eis que entra em cena Cate Blanchett. E sua Blue Jasmine fará deste filme uma das obras mais irresistíveis da prolífica carreira de Woody Allen.

Porque se por aqui tá cada vez mais down a high society dos “reis dos camarotes”, na leitura que Cate Blanchett faz dessa falência moral da alta sociedade, a chacota adquire tom de arte. E o filme muito acertadamente se cerca dela para contar sua história. Blanchett cria essa mulher que anda de salto alto sobre a corda bamba na qual sua vida se transformou desde que seu marido, e mantenedor de todos os seus luxos, foi preso pela polícia graças a um gigante esquema de sonegação de impostos. O desequilíbrio é inevitável, mas o talento da atriz está em fazer a gente acreditar que o perigo está no controle, e não na queda.

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Entrevista: Irandhir Santos (Tatuagem)

Irandhir

Para citar um antagonismo de seu personagem no filme de Hilton Lacerda, ele é a práxis e a epifania no mesmo lugar. Um ator metódico no exercício de seu ofício e melódico na manifestação dele. Em cena, Irandhir Santos é música para os olhos. No cinema, seu nome começou a circular depois de seu Maninho em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. No mesmo ano, assustou o país (desses sustos bons, susto de deslumbramento) com sua versão de Quaderna na minissérie global A Pedra do Reino. É protagonista em O Som ao Redor, filme escolhido pelo Brasil para ser pré-indicado ao Oscar, e agora volta aos cinemas com o Clecinho de Tatuagem, personagem que é, ele próprio, um ator. Já havia conversando com o diretor Hilton Lacerda sobre Clécio, e agora é a vez do próprio Irandhir contar a sua versão da história.

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O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

O Lobo Atras da Porta

:: Filme na programação da Mostra SP ::

O clímax do filme acontece logo no começo dele. Mas não sabemos disso. Trata-se de uma cena que aparenta ser uma como outra qualquer. Revisitada no fim da história, agora com a câmera olhando para o outro lado do ambiente, entendemos como o primeiro longa-metragem de Fernando Coimbra é hábil em conter a tensão que, inevitavelmente, irá explodir em algum momento. Num incrível trabalho de montagem que parece ter sido milimetricamente calculado por outro incrível trabalho de roteiro, O Lobo Atrás da Porta sabe inspirar e expirar na hora certa, seu controle de tempo é admirável. E Coimbra faz com isso um filme de gênero, um que não tem tanta tradição no cinema nacional, o suspense policial.

Inspirado numa história real, ainda que o diretor admita ter tomado várias decisões narrativas que fogem ao fato original, o filme parte de uma mãe, vivida por Fabíula Nascimento, que vai buscar sua filha na creche e quando lá chega descobre que a menina foi embora com uma “vizinha”. O caso do desaparecimento da criança logo vai para a delegacia e de lá, a partir dos interrogatórios, vamos aos poucos entendendo quem é quem na trama e o que aconteceu até ali. Existem dois pontos de vistas em flashbacks distintos. Um é narrado sob a perspectiva do pai da menina, Milhem Cortaz, e outro terá como depoente a amante dele, mais uma interpretação de tirar o fôlego de Leandra Leal.

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Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro

Amor Plastico Barulho

:: Filme na programação da Mostra SP ::

A chamada “cultura brega” que rebola com barriguinha de fora pelas periferias do Brasil tem sido um campo bastante estimulante para que a indústria do consumo se aproprie de seus signos mais elementares e os resignifique em produtos prontos para uma classe média alta ávida em consumir referências externas (e de baixo) com o devido filtro do folclórico. Temos festas, ensaios fotográficos em revistas caras e recentemente até uma novela global a se usar desses artifícios.

Pois agora pegue esse coador de onde o brega escorria sem nata no copo de quem o consumia limpo, e jogue ele no lixo. Porque Amor, Plástico e Barulho não olha o brega de cima, de lado ou na diagonal. Olha de frente. E o resultado disso é um filme de personagens que nunca vimos antes, particularmente com mulheres que nunca vimos antes, não pelo menos do lugar de onde elas e seus corpos falam. Jaqueline e Shelly, respectivamente Maeve Jinkings e Nash Laila, nos contam das delícias e desastres de quem acredita que coração só é capaz de rimar com paixão e tesão.

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