Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

doce amianto

Salve o delírio diante da dor e o desejo diante da destruição. Salve o que for fantasia, artificial, postiço e extravagante, salve toda quimera que possa remediar a solidão de uma cama vazia. Nesse estranho mundo de sobrevida em tarja preta, melhor é mesmo acreditar que a maquiagem e as fadas te salvarão da dormência e da demência. Entre o 8 e o 80, fiquemos pois com o 88. Sendo assim, Doce Amianto é um filme que não pede desculpas pela alucinação. Na verdade, faz dela uma linguagem manifesto corporificada numa personagem que carrega já em seu nome a (imaginada) negação de sua realidade, também reafirmada em poema de Walt Whitman no prefácio do longa.

Amianto, a fibra mineral conhecida por características como indestrutibilidade e por ser prejudicial à saúde do ser humano, é “doce”, no sentido de meiga, afetuosa e, sim, extremamente frágil, quebradiça.

O filme de Guto Parente, já conhecido por seus curtas de um onírico apuro estético, e do poeta Uirá dos Reis, usa de todo esse trans-bordamento para falar de trans-afetividade. Pois se a identidade de gênero passa pela performance, como diria Judith Butler, o feminino e o masculino serão postos aqui num palco em que só se dialoga a partir de uma dramaticidade propositalmente falsa e hiperbólica, como se a aparência do gênero tentasse fugir saltitante de uma heteronormatividade altamente rígida. Lo tuyo es puro teatro.

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