Que horas ela volta?, de Anna Muylaert

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Que horas ela volta?, pergunta o menino para a empregada da casa. O verbo tem o peso de muitas dúvidas, não apenas a explícita indefinição do tempo (a hora do regresso), mas a disfarçada incerteza sobre se ela, de fato, volta, e se, uma vez voltando, estará, de fato, presente. Na cena de abertura do filme, uma pergunta sobre voltar talvez seja a primeira pista de uma narrativa sobre partir. Partir pra outra história de se contar as histórias. Partir conceitos cristalizados, paredes invisíveis e indivisíveis, partir ao meio o tapete que cobre a sujeira. Partir da mulher a fala, e mais, partir da mulher preta e pobre essa voz. A diretora Anna Muylaert mira no avesso das palavras para dizer que precisamos partir/quebrar/rasgar/abandonar para, de fato, conseguir voltar e reencontrar o lugar e as pessoas que nunca deveriam ter sido deixados para trás.

Os anos se passam e o menino do começo do filme que faz a pergunta para Val (Regina Casé) se transforma em um adolescente. Assim como se torna uma adolescente a menina com quem Val falava ao telefone, sua filha que esperava também ver sua mãe voltar para casa. Logo se entende que o filme parte de um lugar (bastante) comum na vida privada do brasileiro: a empregada que deixa de cuidar dos seus filhos para criar os filhos dos patrões. Fácil seria fazer um filme sobre a Val vítima desse sistema, coitada, ou a Val sendo redimida por algum letrado homembranco/mulherbranca que iria lhe tirar os grilhões da escravidão psicológica. Mas Anna Muylaert, que poderia ela mesma vestir a manta da mulherbranca letrada generosamente estendendo sua mão salvadora, decide ouvir o que sua personagem tem a dizer. E ouvir em terra de surdos é fazer arte.

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