Doméstica, de Gabriel Mascaro

domestica

O título indica que as protagonistas desse documentário são todas empregadas domésticas. Ledo engano. Se há neste filme algum tipo de protagonismo, ele só pode caber mesmo nessa estranha e desconfortável intimidade que temos* com quem observa essas pessoas. É o olhar, e não quem se olha, que surge em superclose e sai da tela, derramando em nosso colo e consciência um café há séculos requentado por uma sociedade apegada às suas lembranças escravocratas.

E é no recorte desse olhar que o diretor Gabriel Mascaro cria seu trabalho mais pungente, cinematograficamente ousado e maduro. Ao entregar câmeras para adolescentes de várias partes do país, pedindo que eles filmem suas empregadas domésticas (o que em um dos casos vem a ser um empregado doméstico), Mascaro teve em suas mãos um material que pesquisas acadêmicas nos campos da sociologia e antropologia deveriam tomar como diamante e, quem sabe, exemplo de metodologia daqui pra frente.

Colocando esses jovens como diretores de cena, eliminando assim as implicações de estranhamento entre o diretor e seu objeto, Doméstica tem acesso livre à caverna dos debates esquecidos. Esse lugar que conhecemos no tato, mas sobre o qual nunca jogamos luz.

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Primo de Segundo Grau, de Alan Berliner

Primo de Segundo Grau

Quando Edwin Honig percebe o céu, o filme nos mostra o fundo do mar. Existe uma estrada úmida, de barro batido, entre o sentido da paisagem etérea que o personagem vê e a ideia de submersão que a montagem nos dá logo em seguida. Nesse percurso o diretor Alan Berliner tenta resignificar palavras. Pois essas palavras que passaram a vida servindo aos poemas de Edwin vão, ao longo do filme, perdendo seus pontos de cognição. Restam a elas apenas a melodia de fonemas que se encontram, tal como quando o céu encosta no oceano.

Criando música com as conexões que o objeto e sujeito do filme já não mais consegue fazer graças ao Alzheimer, Berliner fez um documentário com todas as coisas mais importantes da vida e, por isso mesmo, todas as mais negligenciadas. Primo de Segundo Grau não é apenas um filme sobre a perda da memória. Na verdade, é sobre tudo menos isso.
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