Doméstica, de Gabriel Mascaro

domestica

O título indica que as protagonistas desse documentário são todas empregadas domésticas. Ledo engano. Se há neste filme algum tipo de protagonismo, ele só pode caber mesmo nessa estranha e desconfortável intimidade que temos* com quem observa essas pessoas. É o olhar, e não quem se olha, que surge em superclose e sai da tela, derramando em nosso colo e consciência um café há séculos requentado por uma sociedade apegada às suas lembranças escravocratas.

E é no recorte desse olhar que o diretor Gabriel Mascaro cria seu trabalho mais pungente, cinematograficamente ousado e maduro. Ao entregar câmeras para adolescentes de várias partes do país, pedindo que eles filmem suas empregadas domésticas (o que em um dos casos vem a ser um empregado doméstico), Mascaro teve em suas mãos um material que pesquisas acadêmicas nos campos da sociologia e antropologia deveriam tomar como diamante e, quem sabe, exemplo de metodologia daqui pra frente.

Colocando esses jovens como diretores de cena, eliminando assim as implicações de estranhamento entre o diretor e seu objeto, Doméstica tem acesso livre à caverna dos debates esquecidos. Esse lugar que conhecemos no tato, mas sobre o qual nunca jogamos luz.

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