O som que ficou ao redor no cinema nacional em 2013

Educacao

Carinhosamente tomo emprestado o título do filme mais importante do ano – importante por tantos motivos que nomeá-los aqui seria escrever sobre outra história – para fazer uma retrospectiva do que vi no cinema nacional em 2013 e relacionar afetivamente essa experiência aos sons que ficaram comigo de todos eles.

Primeira observação: em retrospecto, vejo 2013 como um ano particularmente explosivo para o cinema nacional. O petardo foi plantado lá no começo de janeiro com a estreia do próprio Som ao Redor e seu inesperado sucesso comercial para um filme lançado fora do modelo Globo Filmes. O barulho advindo dele está ecoando até agora pelas poucas salas a exibir esse cinema de que vou falar.

Segunda observação: alguns dos longas de que trato aqui ainda não estrearam em circuito comercial, mas se neste texto estão é porque me causaram um impacto tão positivo que não poderia deixar de contar como uma experiência vivida durante 2013. São eles: Amor, Plástico e Barulho; Avanti Popolo; Depois da Chuva e Riocorrente. Todos previstos para um igualmente explosivo 2014. Assim se espera.

Terceira observação: O que se segue é um texto de ordem 100% passional. Não esperem análises.

Quarta e última observação: as comédias da Globo Filmes #nãomerepresentam.

Tendo tudo isso dito, lembremos que:

Continuar lendo

Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

doce amianto

Salve o delírio diante da dor e o desejo diante da destruição. Salve o que for fantasia, artificial, postiço e extravagante, salve toda quimera que possa remediar a solidão de uma cama vazia. Nesse estranho mundo de sobrevida em tarja preta, melhor é mesmo acreditar que a maquiagem e as fadas te salvarão da dormência e da demência. Entre o 8 e o 80, fiquemos pois com o 88. Sendo assim, Doce Amianto é um filme que não pede desculpas pela alucinação. Na verdade, faz dela uma linguagem manifesto corporificada numa personagem que carrega já em seu nome a (imaginada) negação de sua realidade, também reafirmada em poema de Walt Whitman no prefácio do longa.

Amianto, a fibra mineral conhecida por características como indestrutibilidade e por ser prejudicial à saúde do ser humano, é “doce”, no sentido de meiga, afetuosa e, sim, extremamente frágil, quebradiça.

O filme de Guto Parente, já conhecido por seus curtas de um onírico apuro estético, e do poeta Uirá dos Reis, usa de todo esse trans-bordamento para falar de trans-afetividade. Pois se a identidade de gênero passa pela performance, como diria Judith Butler, o feminino e o masculino serão postos aqui num palco em que só se dialoga a partir de uma dramaticidade propositalmente falsa e hiperbólica, como se a aparência do gênero tentasse fugir saltitante de uma heteronormatividade altamente rígida. Lo tuyo es puro teatro.

Continuar lendo