Boi Neon, de Gabriel Mascaro [especial Janela de Cinema]

Boi NeonTudo o que é ar se desmancha em sólido. Como a poeira que sobe e se molda aos corpos daqueles que fazem a poeira subir. Pessoas simultaneamente difusas e densas estão no recorte da câmera e elas não têm uma história a contar além do que está contido nelas mesmas. Elas não têm um lugar de onde partir e para onde chegar. É a estrada sem começo e fim o que as constitui. Boi Neon é, portanto, um filme sobre a sensibilidade do ar enquanto corpo, do corpo enquanto ar, e essa é a única transformação, e o único caminho, que importa ao diretor Gabriel Mascaro em seu mais novo longa. O que interessa aqui é a transformação que se basta dentro do seu próprio desejo de transformar.

Os corpos-sentidos e corpos-cenários do filme são construídos a partir de seus respectivos desejos. O de um vaqueiro que quer ser costureiro, de uma menina que sonha em ter cavalos e o da sua mãe que, entre performances onde se antropomorfiza em seres equestres, espera não perder a ternura a despeito dos coices que leva e dá. Fosse uma narrativa convencional, era de se esperar que esses desejos movessem os personagens entre os momentos do querer e o da realização/frustração. No lugar de realizar esse trajeto, Mascaro opta por acompanhar essas pessoas sem delas cobrar resoluções, sem exigir nem mesmo que estabeleçam as relações mais óbvias entre elas. E faz isso a partir de um ostentoso ensaio estético-político sobre os papeis sociais desses corpos e a relação simbiótica entre eles e os animais que tangem.

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Entrevista com Maeve Jinkings

maeve

Estreia em circuito comercial esta semana (finalmente) Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, longa que começou sua carreira no Festival de Brasília de 2013 e que se revela um campo de debates diversos: resignificação de signos, empoderamento feminino, histeria estética do pop, enfim. O fato é que uma de suas protagonistas, Maeve Jinkings, se descortina hoje como uma atriz virtuosa, namorada pelas câmeras de cinema e enamorada delas. Basta uma cena de Amor, Plástico e Barulho para entender isso. Ao lado de Nash Laila que, a propósito, faz excelente estreia como atriz principal de um longa, Maeve ajuda a contar a fábula de Renata Pinheiro não exatamente sobre a ascensão e queda das estrelas, mas sobre a irmandade entre elas. Logo após o Festival de Brasília do ano passado, onde ela estava como membro do júri, preparadora de elenco do curta Sem Coração, de Nara Normande e Tião, e atriz do curta Estátua, de Gabriela Amaral Almeida (ambos os filmes imperdíveis, vale ressaltar), troquei algumas ideias com Maeve o resultado é o que segue abaixo:

Em tempo: feliz ao realizar que, num só parágrafo, escrevi o nome de duas jovens atrizes feministas e três, três diretorAs brasileiras de cinema.

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Sem Coração, de Nara Normande e Tião

Captura de Tela 2014-09-19 às 08.07.25

:: Especial – Festival de Brasília ::

Com vista pro oceano, há uma piscina seca e abandonada. Essa imagem está no centro emotivo de Sem Coração, um filme sobre aquele momento da primeira vazão de água, quando o desabitado começa a ser preenchido pela liquidez das descobertas afetivas de adultos saindo dos seus casulos de crianças. Numa praia de Alagoas, uma menina que não tem coração se apaixona por um menino que acaba de descobrir a primeira aceleração de seu músculo cardíaco. Ela é o mar volumoso, ele a piscina vazia. E num ambiente de violências de gênero institucionalizadas, em que a mulher precisa ceder e o homem precisa invadir, esse filme é um dos contos mais lindos já vistos sobre o instante em que ela inunda ele.

Os elementos de descoberta e estranhamento estão por toda parte. Léo é da cidade, do fone de ouvido, dos prédios desenhados no reflexo da janela de um carro com ar condicionado. Numa viagem de férias à casa do primo, no litoral de “interior” onde o playground de condomínio se torna praia deserta, ele passa por rituais de iniciação da adolescência. Um deles consiste em levar uma menina, que pelo marca-passo que carrega no peito é conhecida como Sem Coração, para dentro dessa piscina abandonada onde ela é, na consensualidade violenta do machismo, silenciosamente penetrada pelos meninos da região. No instante em que Léo é intimado a cumprir com a mesma prática, algo de novo é trocado entre eles.

O elemento neorrealista das crianças locais que se tornam bons atores no curta – primeiro trabalho como preparadora de elenco da atriz Maeve Jinkings – anda de mãos dadas com uma poética da imagem que encerra nela mesma vários símbolos, muito presente no primeiro curta de Tião, Muro. Juntos, essas referências criam um álbum de fotografias. A presença física do filme em película é essencial a essa construção da materialidade da memória.

Premiado na Quinzena de Realizadores em Cannes deste ano, Sem Coração compartilha essas reminiscências de um período quase sempre traumático na vida de ex-meninas e meninos, e o faz com leveza de uma narrativa preocupada em dar ao ambiente suas marcações psicológicas, na porosidade de uma imagem granulada tal qual o desbotamento de nossas lembranças. E como na cena de uma baleia encalhada na areia, é um filme também sobre resistir até o final ao que a natureza impõe – a imagem da cicatriz no peito dela -, ao que os arquétipos sociais determinam – a impossibilidade de um beijo na boca dele – e ao que o tempo nos força – o esquecimento.

Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro

Amor Plastico Barulho

:: Filme na programação da Mostra SP ::

A chamada “cultura brega” que rebola com barriguinha de fora pelas periferias do Brasil tem sido um campo bastante estimulante para que a indústria do consumo se aproprie de seus signos mais elementares e os resignifique em produtos prontos para uma classe média alta ávida em consumir referências externas (e de baixo) com o devido filtro do folclórico. Temos festas, ensaios fotográficos em revistas caras e recentemente até uma novela global a se usar desses artifícios.

Pois agora pegue esse coador de onde o brega escorria sem nata no copo de quem o consumia limpo, e jogue ele no lixo. Porque Amor, Plástico e Barulho não olha o brega de cima, de lado ou na diagonal. Olha de frente. E o resultado disso é um filme de personagens que nunca vimos antes, particularmente com mulheres que nunca vimos antes, não pelo menos do lugar de onde elas e seus corpos falam. Jaqueline e Shelly, respectivamente Maeve Jinkings e Nash Laila, nos contam das delícias e desastres de quem acredita que coração só é capaz de rimar com paixão e tesão.

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