Sem Coração, de Nara Normande e Tião

Captura de Tela 2014-09-19 às 08.07.25

:: Especial – Festival de Brasília ::

Com vista pro oceano, há uma piscina seca e abandonada. Essa imagem está no centro emotivo de Sem Coração, um filme sobre aquele momento da primeira vazão de água, quando o desabitado começa a ser preenchido pela liquidez das descobertas afetivas de adultos saindo dos seus casulos de crianças. Numa praia de Alagoas, uma menina que não tem coração se apaixona por um menino que acaba de descobrir a primeira aceleração de seu músculo cardíaco. Ela é o mar volumoso, ele a piscina vazia. E num ambiente de violências de gênero institucionalizadas, em que a mulher precisa ceder e o homem precisa invadir, esse filme é um dos contos mais lindos já vistos sobre o instante em que ela inunda ele.

Os elementos de descoberta e estranhamento estão por toda parte. Léo é da cidade, do fone de ouvido, dos prédios desenhados no reflexo da janela de um carro com ar condicionado. Numa viagem de férias à casa do primo, no litoral de “interior” onde o playground de condomínio se torna praia deserta, ele passa por rituais de iniciação da adolescência. Um deles consiste em levar uma menina, que pelo marca-passo que carrega no peito é conhecida como Sem Coração, para dentro dessa piscina abandonada onde ela é, na consensualidade violenta do machismo, silenciosamente penetrada pelos meninos da região. No instante em que Léo é intimado a cumprir com a mesma prática, algo de novo é trocado entre eles.

O elemento neorrealista das crianças locais que se tornam bons atores no curta – primeiro trabalho como preparadora de elenco da atriz Maeve Jinkings – anda de mãos dadas com uma poética da imagem que encerra nela mesma vários símbolos, muito presente no primeiro curta de Tião, Muro. Juntos, essas referências criam um álbum de fotografias. A presença física do filme em película é essencial a essa construção da materialidade da memória.

Premiado na Quinzena de Realizadores em Cannes deste ano, Sem Coração compartilha essas reminiscências de um período quase sempre traumático na vida de ex-meninas e meninos, e o faz com leveza de uma narrativa preocupada em dar ao ambiente suas marcações psicológicas, na porosidade de uma imagem granulada tal qual o desbotamento de nossas lembranças. E como na cena de uma baleia encalhada na areia, é um filme também sobre resistir até o final ao que a natureza impõe – a imagem da cicatriz no peito dela -, ao que os arquétipos sociais determinam – a impossibilidade de um beijo na boca dele – e ao que o tempo nos força – o esquecimento.

Anúncios

Loja de Répteis, de Pedro Severien

Loja de Repteis

:: Especial – Festival de Brasília ::

A literatura é pródiga nas metamorfoses que salientam a essência mais selvagem do ser humano. Já fomos baratas, lobos, macacos e, no Recife do cientista social Josué de Castro, já se foi (e ainda se é) caranguejo e gabiru. O cineasta Pedro Severien, herdeiro de um pulsar literário que nasceu mesmo antes do olhar cinematográfico, cria em seu novo filme uma identidade visual fantasmagórica à natureza dessa nossa constituição primitiva e totêmica. Como se o espectro desses animais assombrasse os ajustes sociais, muitas vezes, tão violentos quanto à luta pela caça do dia.

O fato desse curta, adaptado de um conto escrito pelo próprio Severien, escolher os répteis como os animais que representam aqui essa natureza selvagem do homem, diz bastante sobre que tipo de ser humano interessa ao debate do diretor. Bichos de epidermes espessas, visões mais apuradas no escuro e locomoção de rastejamento, os répteis costumam ser traduzidos nas chaves simbólicas da desfaçatez, da traição e dessa inércia própria de jacarés e cobras que simulam um estado de imobilidade (que nos seres humanos se transformam em amabilidade) antes de atacarem suas presas. Todos esses elementos terminam sendo usados para falar de um núcleo de pessoas que vive dentro dessa casa, por si só, delirante – e o incrível trabalho de fotografia e som no filme dá solidez a isso.

Na transformação de uma mulher, interpretada com toda a força cinematográfica que tem a atriz Maeve Jinkings, nesse réptil que aprisiona e é aprisionado, o filme cria uma parábola pós-moderna – com uma chuva fragmentada de símbolos, do azulejo colonial às câmeras de segurança – do viver enjaulado, sensação comum a todos nós que nascemos depois da criação da propriedade privada. Essa mutação está no corpo, e portanto também na lascívia, de uma mulher que com sua pele grossa domina e conquista o outro.

Sem se preocupar em ligar os pontos entre toda essa carga simbólica, Severien põe em xeque o limite sobre onde começam, terminam e se fundem os conflitos internos de seus personagens com os estímulos externos de uma cidade como o Recife que, assim como tantas outras, fincam sua identidade em seus fantasmas alegóricos. Qualquer relação com questões contemporâneas políticas da região não é mera coincidência.