Entrevista com Maeve Jinkings

maeve

Estreia em circuito comercial esta semana (finalmente) Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, longa que começou sua carreira no Festival de Brasília de 2013 e que se revela um campo de debates diversos: resignificação de signos, empoderamento feminino, histeria estética do pop, enfim. O fato é que uma de suas protagonistas, Maeve Jinkings, se descortina hoje como uma atriz virtuosa, namorada pelas câmeras de cinema e enamorada delas. Basta uma cena de Amor, Plástico e Barulho para entender isso. Ao lado de Nash Laila que, a propósito, faz excelente estreia como atriz principal de um longa, Maeve ajuda a contar a fábula de Renata Pinheiro não exatamente sobre a ascensão e queda das estrelas, mas sobre a irmandade entre elas. Logo após o Festival de Brasília do ano passado, onde ela estava como membro do júri, preparadora de elenco do curta Sem Coração, de Nara Normande e Tião, e atriz do curta Estátua, de Gabriela Amaral Almeida (ambos os filmes imperdíveis, vale ressaltar), troquei algumas ideias com Maeve o resultado é o que segue abaixo:

Em tempo: feliz ao realizar que, num só parágrafo, escrevi o nome de duas jovens atrizes feministas e três, três diretorAs brasileiras de cinema.

Você tem tido uma experiência intensa com vários realizadores pernambucanos. Como alguém que não é do Recife, você acha que é possível falar que existe um “zeitgeist”, um ambiente propício para a criação de um cinema mais experimental e ousado nesse local?

Acho que precisaremos de um certo distanciamento histórico pra ter a dimensão do que se passa em Pernambuco hoje, isso que já chamamos de Ciclo de Ouro do cinema pernambucano. No entanto me recordo perfeitamente de quando fui morar por 1 ano em Recife, em dezembro de 2009. Tive a sensação de que a cidade respirava cinema. Entre as pessoas que conheci, havia uma constante discussão sobre cinema, uma fome audiovisual. Voltei pra São Paulo dizendo a meus amigos que “algo muito especial acontecia ali”, e alguns acharam que eu estava exagerando (risos). O fato é que há hoje boas políticas públicas pro audiovisual local, tradição cinéfila (vide outros ciclos do cinema pernambucano), a democratização da tecnologia dos tempos atuais, uma cena cultural e intelectual pré aquecida pelo movimento manguebeat cuja inquietação parece também migrar pro audiovisual. Também não posso deixar de pensar que o pernambucano me parece muito ligado à literatura, e isso é essencial pra desenvolver senso crítico, que é uma das marcas do cinema local.

Como aconteceu teu primeiro contato com um realizador pernambucano? Ou seja, como você se tornou “recifense”?

No final do ano de 2008 fui passar férias de quinze dias em Recife, e após adiar cinco vezes minha passagem de volta, terminei ficando três meses. Tive uma identificação muito forte com a cidade e com as pessoas. Nesse período conheci Lirio Ferreira, Claudio Assis e Bidu Queiroz, que escreveu um roteiro de curta metragem pra mim, o Passageira S8. Em julho de 2009 voltei ao Recife pra filmar o curta com Bidu, e descobri que meu padrasto e minha mãe estavam se mudando para a cidade. Daí resolvi também viver em Recife por um tempo, o que fiz de dezembro de 2009 até março de 2011. Foi justo nesse período que, fazendo teste para O Som ao Redor, conheci Kleber Mendonça Filho. E no set desse filme trabalhavam realizadores em outras funções, com os quais depois eu teria outros projetos em comum. A verdade é que por causa do meu trabalho, hoje passo mais tempo em Pernambuco do que em minha casa paulistana. Não reclamo.

Sem Coração foi teu primeiro trabalho como preparadora de elenco. O que você aprendeu dessa experiência? Contempla voltar a fazer isso em outros filmes?

Pra preparar atores tão jovens e inexperientes, precisei organizar minha própria experiência com atuação. Isso foi ótimo pra mim também, racionalizar um processo às vezes tão intuitivo. O que começou como um processo ligado a minha admiração pelos diretores Nara e Tião, assim como pelo roteiro, creio que terminou agregando muito ao meu próprio oficio como atriz. Estou deixando as coisas acontecerem e já pintaram vários convites pra preparar atores, mas pra mim é importante que aconteçam em períodos onde não estou atuando.

O que você espera de um(a) preparador(a) de elenco?

Alguém em quem eu possa confiar pra mostrar toda minha cafonice, todos os meus vícios, toda a minha ignorância acerca de um personagem. Dividir erros sem julgamentos, sem pudores. Alguém sábio o suficiente pra, mesmo diante do que nos assusta não saber, me ajudar a apontar caminhos menos óbvios e mais desafiadores. O pior e o melhor do que tenho a oferecer.

Você já trabalhou com Carlão (Reichenbach) e com cineastas ainda em começo de carreira. O que te atrai pra um um projeto?

O Carlão foi pura sorte. Eu não havia feito cinema, tínhamos amigos em comum e ele adorou meu teste pra um personagem menor. Tenho um orgulho enorme de ter começado com ele, que até o fim da vida seguiu se desafiando, seguiu interessado no novo, dialogando com novas gerações. Olhando minha trajetória até aqui, penso que sigo fazendo um cinema que corre riscos. Projetos me atraem por razões diversas, mas essa coragem de se colocar na beira do abismo, no sentido de sair do conforto, certamente é uma das mais importantes.

Papéis femininos fortes e protagonistas são raros não apenas na cinematografia de uma maneira geral, mas em todas as narrativas (literatura, quadrinhos…). Quando você escolhe representar um papel, está em mente também um posicionamento político teu de tentar quebrar com essa regra?

Sim, definitivamente, penso no que essa personagem representa pra narrativa, que discurso estamos construindo. Como artista do corpo, acho que refletir sobre isso é minha função. Mas a verdade é que essa reflexão vem amadurecendo à medida em que trabalho. É bastante comum que as personagens femininos tenham uma função mais passiva na narrativa, ou que estejam frequentemente servindo ao gozo visual através de seus corpos, e nada muito além disso… E isso me incomoda. Vez ou outra, vejo um personagem no papel e enxergo a possibilidade de subverter isso na relação mais permeável que um(a) diretor(a) estabelece comigo, subverter na atuação, desafiar a narrativa. Outras vezes o personagem me parece problemático e não vejo essa possibilidade de contribuição, e prefiro não fazer. Acho um problema reproduzir essa lógica sem questionar, não é assim que quero contribuir com o imaginário coletivo de minha geração. É uma questão complexa: a esmagadora maioria dos roteiristas e diretores são homens, sabemos que a historia da humanidade é dominada pelo olhar masculino. Mas muitos reproduzem isso sem se dar conta, são valores culturais e referências narrativas, penso que preciso de generosidade para compreender isso. Mas jamais sem questionar. Não desejo filmar apenas com mulheres, não se trata de guerra dos sexos, mas sim de haver, seja qual for o gênero do artista, um exercício mais profundo de ver o mundo desse outro ponto de vista, de questionar certos vícios audiovisuais como a relação fetichista com o corpo feminino. Note que acho lindo um corpo nu, por exemplo, mas não quero uma câmera mais interessada em meu corpo do que em minha vida interior. Seria um desperdício. Tenho levado essas questões a colegas, e fico feliz em perceber que muitos homens as reconhecem e estão interessados em se debruçar sobre essas questões também. Pra isso, acho fundamental que façamos o exercício de desafiar certos padrões, de nos posicionar sem culpas.

Fazer cinema é prioridade na tua vida hoje?
Sim. Penso que a importância que o cinema tem em minha vida, é fruto do bom momento que o cinema nacional vive hoje. Me formei fazendo teatro de pesquisa na EAD/USP, estudei com Antunes Filho, lugares que se dedicam a formar atores-autores. Nessa época não imaginava que encontraria no cinema a liberdade criativa que vejo hoje. É claro que estou falando de um tipo de cinema que me dá essa possibilidade, de parceiros suficientemente generosos e inteligentes a ponto de se abrirem à contribuição do ator. Mas preciso dizer que sinto uma saudade enorme do teatro, também desejo experimentar a linguagem da TV se um papel interessante surgir, assim como sinto muita vontade de fazer uma peça radiofônica. Este último projeto vem dos tempos de teatro…

Quais os teus próximos trabalhos?
Além da estreia agora de Amor Plástico e Barulho, ainda no primeiro semestre filmo em Belém do Pará um road movie com três protagonistas femininas, dirigido por Jorane Castro. Devem estrear, ainda no circuito de festivais, os longas Valeu Boi de Gabriel Mascaro e também Açúcar, de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. Filmarei um novo curta com Gabriela Almeida (com quem ela já trabalhou no curta Estátua, pelo qual ganhou prêmio de Melhor Atriz de curta no último Festival de Brasília), e longas que ainda não posso falar porque estamos ainda em fase de “namoro”.

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