Birdman, de Alejandro González Iñárritu

Birdman

O mundo tal qual ele é percebido na Times Square. Aquele encontro de várias esquinas e cruzamentos saturados de publicidades em telas gigantes, luzes coléricas e sons sobrepostos no ponto mais visitado da cidade de Nova York. Uma constante injeção de estímulos que, na soma de tudo, nos excitam apenas para nos adormecer. Na vitamina colorida de sentidos, se extrai nossa sensibilidade de reter algum conteúdo. E ficamos anestesiados comendo essa pasta açucarada do hiper-real, do hiper-veloz, do hiper-mega-blaster-super nada. Tudo isso para dizer que Birdman não apenas se passa nas cercanias de Times Square, como é, por essência de todas as suas ausências, um filme Times Square. Leia-se: histérico, vazio e prepotente.

Filmado inteiro como se fosse um só plano-sequência, com a steady-cam perseguindo freneticamente os personagens entre corredores, palco e a vizinhança próxima de um teatro da Broadway, Birdman se pretende ser um filme a discutir o momento contemporâneo da indústria de cinema em Hollywood, onde super-heróis esmagam, com seus super-poderes CGI*, qualquer possibilidade de autoria. No entanto, vaidoso que é com os malabarismos que faz em seus filmes (vide as costuras alinhavadas de personagens em Amores Perros e Babel**), o diretor Alejandro González Iñárritu termina por criar apenas mais um trabalho igualmente absorto em seus efeitos plásticos e, em lugar de colocá-los na berlinda, os põem num pedestal.

Continuar lendo

Anúncios

A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

grande beleza

Muito se fala que o recente cinema grego e seus perturbados personagens não deixam de ser reflexos convexos da crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. E sendo a Grécia o grande baluarte de nossa civilização ocidental, o debate em torno do colapso financeiro, que não deixa de ser o colapso humano, se torna quase uma terapia coletiva sobre a qual precisamos nos debruçar. Mas eis que ali pertinho, a braçadas de Mediterrâneo, sem o espólio fatalista de Sócrates ou Platão, porém com o bizarro senso de humor herdado de imperadores incendiários e devassos, o berço da primeira hiperlativa hegemonia da humanidade nos traz um filme que fecha 2013 com a epítome de todas as crises que o Velho Continente esguicha hoje de seus bancos, comércio ou sala de jantar. E faz isso com uma comédia.

Quem assina por essa memorabilia dos tempos contemporâneos é o diretor Paolo Sorrentino, apresentando aqui o mais italiano de todos os seus filmes, incluindo aí o italianíssimo Il Divo. Italiano no sentido de usar a alienação e o delírio de seus personagens como fundamento crítico da humanidade tal como um dia fizeram, em diferentes medidas e registros, Fellini, Pasolini e Antonioni. La Dolce Vita, em particular, estará presente em várias referências. No papel do grande piadista, o espetacular Toni Servillo (o mesmo de Il Divo), como um escritor a viver das glórias de sucessos passados e a contemplar com alto grau de cinismo a geração do descarte: das imagens e das ideias anexas a essas imagens.

Continuar lendo

Todos os curtas em animação indicados ao Oscar

Li esta semana que Hollywood havia pressionado a Shorts International para retirar do ar todos os curtas em animação que haviam sido indicados ao Oscar e estavam – o horror, o horror – todos gratuitamente disponíveis online. Pois bem, fazendo uma pesquisa rapidinha aqui, descobri que alguns players mantém os cinco filmes disponíveis – incluindo os dois que foram banidos do YouTube: Adam and Dog e Fresh Guacamole. Tive oportunidade de assistir a três deles em tela de cinema, mas estou certa que se não fosse a querida rede mundial de computadores, não conseguiria assistir aos outros dois. Portanto, só de pirraça, lá vão os cinco filmes. Apertem o player, modo full screen e abram o sorriso (no caso dos dois últimos filmes basta clicar na imagem).

Em tempo: recomendo com muito afeto o Head Over Heels, um projeto de graduação da National Film & Television School que levou prêmio de juri e público no Anima Mundi do ano passado. Para quem curte stop motion (ou apenas a arte de criar uma história), o Vimeo do diretor Timothy Reckart traz vários vídeos de bastidores do curta.


Continuar lendo

O pós-sessão dos filmes indicados ao Oscar em 2013

Os 30 minutos que se passam logo depois que você sai de uma sessão de cinema. Para falar dos filmes que concorrem ao Oscar este ano opto pela tentativa de dar um panorama desses primeiros momentos de luz após a imersão de horas (em alguns casos, este ano, quase três horas) na sala escura. E mesmo que amemos odiar essa premiação, ela ainda parece ser inevitável em nossas agendas e, de certa forma, ainda rende uma temporada interessante de filmes nesse tempo de fim e começo de ano. Portanto, a quem interessar possa, foram assim os meus 30 primeiros minutos depois da sessão de…

Haneke dirige Emannuelle Riva e Jean-Louis Trintignant

Michael Haneke dirige Emannuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Triozinho da pesada.

Amor – Destruída, atropelada e interrompida pela realidade de um amor que, de tão cru, é possível demais (das possibilidades que nos assustam). Meu coração saiu se arrastando tal qual fazem as sandálias de Anne (Emmanuelle Riva) pelo chão de taco da casa que ela divide com o marido. O chão onde os pássaros caem. As paredes que penduram telas impressionistas sem contornos, sem certezas. Haneke, mais uma vez – ainda não ter perdoei pelas sequelas que ficaram de Caché, muito menos pelo tapa da Professora de Piano – me desconcerta em seus acertos.

Continuar lendo