Entrevista: Irandhir Santos (Tatuagem)

Irandhir

Para citar um antagonismo de seu personagem no filme de Hilton Lacerda, ele é a práxis e a epifania no mesmo lugar. Um ator metódico no exercício de seu ofício e melódico na manifestação dele. Em cena, Irandhir Santos é música para os olhos. No cinema, seu nome começou a circular depois de seu Maninho em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. No mesmo ano, assustou o país (desses sustos bons, susto de deslumbramento) com sua versão de Quaderna na minissérie global A Pedra do Reino. É protagonista em O Som ao Redor, filme escolhido pelo Brasil para ser pré-indicado ao Oscar, e agora volta aos cinemas com o Clecinho de Tatuagem, personagem que é, ele próprio, um ator. Já havia conversando com o diretor Hilton Lacerda sobre Clécio, e agora é a vez do próprio Irandhir contar a sua versão da história.

No filme, Clécio está em vários momentos com algum livro em mãos, como se tivesse a necessidade de estudar sempre sobre aquilo que ele faz. Como é o teu processo para construir um personagem, há também essa busca pela literatura da atuação?

Os primeiros passos que dou em qualquer projeto são baseados no roteiro, é a partir desse objeto que vou começar a construir. Chamo objeto porque gosto de pegar roteiro impresso, gosto de segurar ele nas mãos. Ali eu começo a fazer minhas anotações. E dele eu começar a pensar nos temas que são referentes àqueles personagens e pesquisar sobre esses temas também. São como caixas dentro de caixas que você vai abrindo. É um processo que às vezes demora um pouco, mas é por onde me enveredo. Vou a partir do roteiro até chegar a um ponto de cortá-lo, recortá-lo e transformo aquilo num caderno pessoal do personagem. Até hoje todos os filmes que fiz, tenho o caderno relacionado a esse personagem. É engraçado você observar o Clécio com o livro na mão, porque apesar de ter o primeiro contato com o projeto a partir da ligação de Hilton, foi somente quando eu peguei aquele roteiro impresso e fui caminhar com ele que senti realmente o personagem. Passeio muito aqui pela orla do Recife pra espraiar, falar sozinho… A primeira caminhada que eu dei folheando algumas cenas do roteiro de Tatuagem foi quando eu realmente entrei no filme.

Pouco mais de um mês antes das filmagens começarem o elenco viveu um processo de colaboração intensa em um momento de preparação para o filme em si. O que vocês faziam durante esse tempo?

Esse grupo tinha 11 pessoas e a gente ficou em Olinda com coordenação de Amanda Gabriel, que é uma preparadora de elenco incrível. Com ela, Hilton e Marcelo Caetano a gente ia traçando aos poucos o que iam ser os espetáculos encenados pelo Chão de Estrelas. Tínhamos indicações no roteiro, mas a concepção final era uma construção coletiva. A gente se encontrava de manhã, fazia um aquecimento corporal, como um grupo de teatro mesmo. Escolhia-se qual o trecho da peça ou da esquete que a gente ia trabalhar naquele dia e aí a gente se dividia em vários grupos e cada um deles trabalhava numa esquete pra apresentá-la no fim do dia. O melhor de cada uma a gente juntava e formava uma nova esquete pra mostrar pro Hilton e aí se batia o martelo se o caminho era por ali, ou não. Isso tudo era muito estimulante porque você não apenas tinha que pensar na cena, como pensava no figurino com a ajuda da figurinista Cris Garrido e Dona, na maquiagem, que também nos apoiava. E o desafio no fim de toda essa montagem era interpretar esse teatro pra uma máquina, neste caso o cinema. A atmosfera era muito boa porque o Hilton convidou também uma plateia que não sabia de nada. De modo que os figurantes eram realmente plateia que estava ali pra assistir a coisas que ela não tinha visto ainda.

Tatuagem é um filme que cobra bastante do teu corpo…

Quando peguei o roteiro desse filme eu sabia de quanto o corpo como instrumento iria ser importante pra história. É quase um contraponto a um outro personagem que fiz, em Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo, onde meu corpo foi completamente anulado e a voz era que tomava conta de tudo. Em Tatuagem é o corpo que toma o primeiro plano. O corpo como instrumento de protesto, como posição no mundo. Isso pra mim foi muito estimulante. Só precisava entender qual a melhor forma de fazer isso. Havia um cuidado do Hilton principalmente em relação às cenas de nudez. Se discutia o que era o corpo na década de 70 pra esses artistas, o que aquilo significava. Foi tudo muito fluido. Havia grandes conversas antes e depois das cenas. Me senti muito à vontade fazendo elas e vendo agora gosto muito de todas no filme.

Em quantos projetos você está envolvido atualmente?

A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante, sai ano que vem, tou fazendo a minissérie baseada na história da Emparedada da Rua Nova, que a gente termina agora em novembro (a série se chama Amores Roubados). Acabei de fazer um filme com o Chico Teixeira, que é um diretor que eu amava por todos os curtas que vi e até o primeiro longa (Casa de Alice). O filme é O Circo de Santo Amaro e foi todo rodado em São Paulo. Também estreia ano que vem. Fiz um filme no início do ano com o Gregório Graziosi, que até então só tinha feito curtas, e agora vai estrear em longa com Obra, outro filme que se passa todo na cidade de São Paulo. E fiz um filme com o Leornado Lacca, Permanência.

Que também foi filmado em São Paulo…

Sim, é um filme pernambucano, mas que a história se passa na capital paulista. E também deve estrear ano que vem.

Em suma, em 2014 haverá uma temporada só sua no cinema.

Verdade, mas é interessante que cada filme desses têm uma linguagem muito diferente uma da outra. Mas o que acho mais curioso é que estou participando do primeiro longa de três diretores (Camilo, Graziosi e Lacca) e é importante pra mim viver esse momento tão importante de um diretor.

Você mencionou a série da Globo baseada na história da Emparedada da Rua Nova, que é uma obra e uma lenda urbana bastante conhecida dos pernambucanos. Acredita que de alguma forma a força do cinema que tem sido feito hoje em Pernambuco ajuda esse mainstream, leia-se a Globo, a buscar mais histórias que partam desse lugar fora do “centro”?

Essa foi uma conversa que eu tive com o Zé Villamarim, que é o diretor da minissérie. Quando ele me fez o convite pra participar desse projeto eu gostei muito porque a Emparedada é uma obra que adoro e porque ela faz parte do consciente coletivo do pernambucano. E conversando sobre o roteiro, ele chegou nesse ponto, de que estava querendo inserir na TV aquilo que ele estava vendo acontecer no Brasil principalmente a partir do cinema e essa força de inovação.

Participando de tantos projetos no cinema nacional, você tem uma leitura do momento desse mesmo cinema, particularmente do cinema mais recente feito em Pernambuco?

Bem, a minha história com o cinema acontece meio sem querer. Sou do interior de Pernambuco e quando vim pro Recife minha ideia era fazer faculdade de artes cênicas porque queria fazer teatro. Cinema pra mim parecia algo muito distante, confesso. Isso até quando eu vi o curta Texas Hotel, de Cláudio Assis e Hilton Lacerda. Quando vi aquilo na minha cidade, com meu sotaque, na tela grande, percebi que era possível fazer cinema e aquilo era muito estimulante pra mim. E aí fui atrás. Fiz o primeiro filme, Cinema, Aspirinas e Urubus, depois Baixio das Bestas e por aí foi. Agora quando vejo por exemplo o que está acontecendo no Recife, eu não consigo entender. Apenas sinto esse pulsar forte. E como artista no meio desse furacão tento ao máximo aprender com isso trafegando e navegando por essa diversidade.

Na minissérie da Globo você voltar a contracenar com Jesuíta Barbosa. Que tipo de interação será essa e como Jesuíta colaborou para o teu trabalho em Tatuagem?

Na minissérie nossa relação é oposta à que existe no filme. Se em Tatuagem havia amor e carinho, na minissérie é o contrário. Há uma rivalidade muito forte entre os personagens. Foi engraçado reencontrar ele e trabalhar esse outro tipo de relação e esquecer que no passado nos amamos (risos). Porque eu me apaixonei muito fortemente pelo Jesuíta durante o filme. Havia essa necessidade da paixão pulsar. E trabalhamos bastante isso pra que acontecesse. Jesu é um ator incrível, um menino que está vindo com toda garra, com toda força e um talento muito grande. É um ator que se dispõe e é extremamente generoso nas cenas, sensível pra caramba nas leituras e feituras das cenas. Acho que ele está dando os primeiros passos muito bem dados.

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