Tatuagem, de Hilton Lacerda

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Entrevista com Hilton Lacerda
Entrevista com Irandhir Santos

Gente que pede a benção, que conta números, que paga as contas, que quer perder peso, que obedece ordens, que espera o sinal abrir e quando o sinal abre a pessoa fica lá, parada, pensando na benção, nos números, nas contas, no peso e nas ordens. E aí vem Hilton Lacerda com sua Tatuagem buzinar desordem em versos musicados nos nossos ouvidos. Se o sinal está verde, é hora de sair do carro e deixar as máquinas em ponto morto pra que você não fique morto também.

Tatuagem é um filme que tem tudo a ver com o que vivemos (ou apenas vemos) hoje nas ruas do país e do mundo inteiro. É alguém te puxando o travesseiro onde antes te cabia o minifúndio do grito. Sem o escudo do abafo, sua voz ecoa e, como diria Caetano, ganha liberdade na amplidão.

Abertamente inspirado nas experiências do Vivencial, grupo de teatro “das Olinda” dos anos 70, o primeiro longa dirigido por Hilton (roteirista maior da filmografia suburbana de Cláudio Assis) joga com as pequenas guerras da humanidade em favor da paz. Sem julgar, ele coloca no mesmo campo, e às vezes no mesmo corpo, a TFP e o desbunde, a mulher e o homem, a Lua e o Sol, o terço e a purpurina. Porque, e o diretor/roteirista parece entender isso muito bem, todo dia só começa quando bate a meia-noite.

O ano é 1978 e o cenário é o Chão de Estrelas, o coletivo teatral em questão. Somos apresentados a Clécio, líder e pensador maior do grupo, e Paulete, o delírio e deleite daquele coletivo. Não muito distante dali, um corte de cena e vemos o soldado Arlindo (ou “Fininha”) no ambiente reto e estoico de um quartel general. Interpretados respectivamente por Irandhir Santos, Rodrigo Garcia e Jesuíta Barbosa, esses três personagens vão rapidamente começar a circular no mesmo entorno. E Clécio e Arlindo, no embalo de Dolores Duran, iniciarão um relacionamento de carne e de alma que não terá mais volta.

Já se falou por aí dos impecáveis trabalhos de atuação de Irandhir, Jesuíta e Rodrigo, mas preciso dizer que o elenco inteiro deste filme está em estado de graça. Não há ninguém que não comungue ali da verdade de seus personagens. E um encontro assim é que nem a passagem do cometa Halley perto da Terra, acontece uma vez na vida.

Ao lado do roteiro, da direção e do elenco, estão a música (trilha original mais uma vez brilhante de DJ Dolores) e a incrível direção de arte do filme, um trabalho de Renata Pinheiro que só não digo que é “à parte” porque nada se encontra separado neste filme. Aqui é o “tamo junto” que comanda.

O coletivo do teatro, que está sempre às vistas no palco, se encontra com o coletivo do cinema, este mais invisível atrás das câmeras. O resultado disso é um filme que usa do particular para dialogar com o mundo todo, algo, aliás, muito sui generis do recente cinema feito em Pernambuco. E nessa experiência grupal, as referências não podiam ficar de fora. Tatuagem é, tudo junto ao mesmo tempo agora, Jomard Muniz de Brito e Manuel Bandeira. É Glauber Rocha e Pedro Almodóvar. É o rock do Ave Sangria (explicitamente mencionado em um ambiente da casa) e o já citado bolero de Dolores Duran. É esse time de gigantes reunido pra contar uma história de amor entre dois homens.

Os diálogos do filme, que podiam facilmente caírem pesados e engessados na boca de seus personagens (creio que filmar teatro é uma tarefa que exige um certo distanciamento emocional daquilo que se ama), soam naturais e muitos deles terminam por criar algumas das conversas mais criativas e românticas desses últimos anos do cinema nacional, aquelas que vão ficar contigo por muito tempo depois da sessão. Tais como quando o personagem Fininha faz uma pergunta a Clécio e você não sabe se ele diz “que me ter” ou “quer meter”, ou diz ambas as coisas na mesma hora. Ou quando Clécio pergunta a Fininha se ele foi ali pra vigiar, pra punir ou… (flerta) pra prender? Toma essa dúvida Foucault.

Também inevitável é traçar um paralelo entre o filme de Hilton Lacerda e o premiado longa de Kleber Mendonça Filho. Se O Som ao Redor sutil e sabiamente ironiza essa sociedade conformada, de remédios prescritos, do café descafeinado, das coisas sem as coisas e dos prédios sem a casa, Tatuagem é o questionamento sobre todos os excessos e extremos, lugares em que a apatia dessa nossa geração marinada em ansiolíticos não tem vez. No filme de Kleber Mendonça, a revolução é discretamente cortar o carro com a ponta da chave. No de Hilton, é despudoradamente passar a navalha na farda militar. São filmes que falam de crises diferentes, mas todas as crises, no fim das contas, são uma só.

Tendo tudo isso dito, os créditos finais sobem. Começa a tocar Bandeira Branca. É uma música que reverbera em mim de uma maneira especial. Nas suas festas de aniversário, meu avô, seu Zezé, um dos orgulhosos fundadores do carnavalesco e recifense Clube dos Rapazes Inocentes, silenciava todo mundo em algum momento e pedia a atenção. “Preciso falar uma coisa muito séria”, ele dizia. E todos nós, netos, filhos e amigos mais próximos, já sabíamos: ele começaria a cantar Bandeira Branca. Meu avô, que faleceu no ano passado, é muito a imagem dessas dicotomias que o filme apresenta. Era um homem ao mesmo tempo rígido e fogueteiro, parnasiano e niilista, ordem e álcool. A paz que Tatuagem encontra ao lidar com tudo isso me deu, ainda bem, uma inquietação.

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3 respostas em “Tatuagem, de Hilton Lacerda

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