Serra Pelada, de Heitor Dhalia

serra pelada (1)

:: Filme de encerramento do Festival do Rio ::

No fundo, a cor de barro e terra que cobre homens em um gigante garimpo. Sobreposto, o título do filme, Serra Pelada, preenchido por cenas de arquivo de um azul desbotado, com telejornais anunciando uma nova alvorada da caça ao ouro no Brasil no sul do Pará. As letras crescem e tomam logo a tela inteira. Com grandiloquência e plasticidade, anunciam a partir de imagens reais o trabalho mais monumental de Heitor Dhalia. Monumental no sentido do tamanho de ser um longa de muitos cenários abertos com centenas de figurantes, tomadas de helicóptero e, claro, a direção de arte de uma produção de época. Essa abertura toda garbosa diz muito do que é este mais novo trabalho de Heitor Dhalia: estamos diante de um filme moreno, alto, bonito e sensual. Mas a exemplo dos tipos que reúnem todas essas qualidades, o embrulho é muitas vezes disfarce para problemas sérios que existem ali dentro.

Resgate fictício importante de um período histórico no Brasil quando, no começo dos anos 80, criou-se nessa região o maior garimpo a céu aberto do mundo, o filme de Dhalia é vigoroso nessa tentativa de dar identidade visual ao que antes a gente só lembrava por algumas fotos de Sebastião Salgado ou mesmo pelo filme dos Trapalhões em 82. Usa esse cenário como pano de fundo para a história de dois amigos que saem de São Paulo decididos a ficarem ricos em Serra Pelada. São eles Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade). Como já sabemos, graças a um plano fechado na cara de Juliano logo na primeira cena do filme, que as coisas não saíram exatamente como planejado, é de se esperar todo tipo de conflito que irá surgir desse sonho dourado.

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Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie

Estranho no Lago

:: Filme na programação do Festival do Rio ::

A estranheza que já se encontra no título desse filme é uma daquelas que vai ficando cada vez mais obscura à medida em que você se afasta da história. Em outra palavras, Um Estranho no Lago cresce muito na sua cabeça somente algumas horas, ou dias, depois da sessão. O que por si só já é um mérito do trabalho. O novo longa de Alain Guiraudie finge ser uma história de amor para, na verdade, ser um perturbador suspense. Ou seria o contrário? De qualquer maneira, é um filme que lembra aqueles bons capítulos de Agatha Christie no sentido de usar um crime para alertar sobre disfunções sociais em grupos de pessoas que vivem em aparentes enseadas emocionais.

Enseada esta que, neste caso específico, é muito bem ilustrada pelo lago em questão, um tipo de oásis idílico em algum lugar da França onde homens gays vão tomar banho de sol, nadar e, se possível, fazer sexo com estranhos em um bosque atrás da praia. Franck (Pierre Deladonchamps) é um frequentador habitual desse lago. Em um novo verão, ele conhece um homem mais velho chamado Henri (Patrick d’Assumçao), personagem sempre isolado dos demais por, estranhamente, não ser gay e estar sempre vestido (todos os demais homens são vistos nus). Henri é um homem de poucas palavras, mas percebe em Franck uma companhia agradável e que, ao contrário dos demais, não o julga.

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Tatuagem, de Hilton Lacerda

tatuagem

:: Filme na programação do Festival do Rio ::
:: Filme na programação do Janela de Cinema ::

Entrevista com Hilton Lacerda
Entrevista com Irandhir Santos

Gente que pede a benção, que conta números, que paga as contas, que quer perder peso, que obedece ordens, que espera o sinal abrir e quando o sinal abre a pessoa fica lá, parada, pensando na benção, nos números, nas contas, no peso e nas ordens. E aí vem Hilton Lacerda com sua Tatuagem buzinar desordem em versos musicados nos nossos ouvidos. Se o sinal está verde, é hora de sair do carro e deixar as máquinas em ponto morto pra que você não fique morto também.

Tatuagem é um filme que tem tudo a ver com o que vivemos (ou apenas vemos) hoje nas ruas do país e do mundo inteiro. É alguém te puxando o travesseiro onde antes te cabia o minifúndio do grito. Sem o escudo do abafo, sua voz ecoa e, como diria Caetano, ganha liberdade na amplidão.

Abertamente inspirado nas experiências do Vivencial, grupo de teatro “das Olinda” dos anos 70, o primeiro longa dirigido por Hilton (roteirista maior da filmografia suburbana de Cláudio Assis) joga com as pequenas guerras da humanidade em favor da paz. Sem julgar, ele coloca no mesmo campo, e às vezes no mesmo corpo, a TFP e o desbunde, a mulher e o homem, a Lua e o Sol, o terço e a purpurina. Porque, e o diretor/roteirista parece entender isso muito bem, todo dia só começa quando bate a meia-noite.

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Guerras Sujas, de Rick Rowley

DirtyWars

:: Filme na programação do Festival do Rio ::

Filme badalado, presença confirmada de um dos nomes mais famosos hoje do mundo (Gleen Greenwald, um dos dois jornalistas que publicaram as informações de Edward Snowden sobre o sistema de vigilância da NSA sobre o mundo inteiro) e um protagonista jovem e bonito (e com a aura de jornalista independente) também disposto a conversar com o público. A primeira sessão de Guerras Sujas no Brasil era dessas com fila que ia lá longe pra fora do cinema. O “auê” se justificou durante e após a sessão.

Por motivos completamente distintos: primeiro porque o filme tem sim um conteúdo super importante, inédito, jornalístico e muitas vezes chocante e segundo porque, enquanto cinema, ele é sintomático a esse estilo pop-americano dos documentários de protagonistas-narradores-heróis. Ainda bem, porque se Guerras Sujas tivesse o conteúdo que tem com um cinema mais sério em estilo Corações e Mentes, eu não sobreviveria a esta sessão.

Serei curta, portanto. Guerras Sujas é necessário de se ver. A quantidade de informação que o repórter Jeremy Scahill coleta durante o filme, e as filmagens que Rick Rowley faz de todos esses anos de apuração de dados em lugares como Iraque, Afeganistão, Iémen e Somália (com exceção do Iémen, todas as demais “locações” deste filme foram de altíssimos risco pra ambos repórter e câmera) impressiona não apenas pelo volume, mas pela ordem bastante simples e lógica do argumento que ele vai construindo no doc: a de que os Estados Unidos se retroalimentam de guerras e que, para tanto, estão dispostos a matar indiscrimidamente, preventivamente (a lógica Minority Report exterminando crianças e adolescentes) e onde quer que seja (mesmo em países com os quais eles não estão em conflito bélico).

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Salvo, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

salvo

:: Filme na programação do Festival do Rio ::

Os primeiros 15, 20 minutos deste filme valem por um semestre inteiro de qualquer aula sobre como fazer cinema. A fotografia, a luz, os movimentos de câmera, os planos-sequência, a montagem e, sobretudo o som – gente, o som – crescem na tela como se estivéssemos no ato final de uma ópera. Os músculos contraem, os olhos abrem, a respiração fica em suspenso. Estamos hipnotizados, o mundo lá fora inexiste, cumpre-se a função imersiva do cinema.

O filme de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, premiado pela crítica em Cannes este ano, é cinema da cabeça aos pés, e podem acreditar que isso pode ser dito de poucos filmes hoje em dia. Essa sequência inicial envolve tiros à queima roupa e dá conta da introdução à história de um matador à caça de uma presa. Entre ele e seu alvo há uma jovem mulher, a irmã do procurado. Rita, ela se chama. É cega. E o que podia se tornar mais uma dessas “experiências sensoriais” com trilhas difusas e confusas do ponto de vista de quem não enxerga, vira um trabalho com força de faca, sem barroquismo, porém com o volume lá em cima.

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Nebraska, de Alexander Payne

Nebraska

:: Filme na programação do Festival do Rio ::

Simpático é uma palavra com muita frequência usada para, elegantemente, chamar um filme de café com leite. Prefiro portanto ficar com gentil. Nebraska é um filme que passa esse limite do simpático e é, de fato, gentil, mas não chega a ser tão perspicaz em seu humanismo quanto filmes anteriores do diretor. O novo trabalho de Alexander Payne (Sideways e Os Descendentes) é obsequioso com essa sutil relação que se estabelece entre pais e filhos ao longo de uma vida, mas cai em lugares comuns ao fazer a crítica desses Estados Unidos indolente diante da TV e ironicamente paralisado pela religião dos automóveis.

Trata-se de semi road movie, semi porque as paradas são mais importantes que a viagem, de um filho que leva sei pai para retirar um “prêmio” de um milhão de dólares que, na verdade, ele nunca ganhou. O prêmio é um daqueles panfletos publicitários do tipo: “você é o nosso milionésimo visitante, clique aqui para ganhar 1 milhão”. Mas Woody Grant, interpretado com muita força por Bruce Dern, está convencido de que finalmente poderá comprar sua caminhonete nova e um compressor de ar. Resta ao seu filho mais atencioso, David (um trabalho bem bom do ator de comédias Will Forte), deixar seu pai viver um pouco essa que possivelmente deve ser sua primeira e última fantasia em vida.

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Nós Somos os Melhores, de Lukas Moodysson

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:: Filme na programação do Festival do Rio ::

Lukas Moodysson tem uma mão boa para lidar com toda aquela bagunça emocional/hormonal de meninas entre a pré-adolescência e a adolescência em si. Prova 1: Amigas de Colégio (1998), um raríssimo filme excelente em uma muito fraca filmografia lésbica, se é que ela existe. Prova 2: Lilya 4-Ever (2002), um título tenso e bem menos otimista que Amigas de Colégio, mas tão precioso quanto. Prova 3: Nós Somos os Melhores (título brasileiro estranhamente traduzido em gênero masculino), seu mais novo filme, não tão cuidadoso quanto os dois primeiros citados, mas certamente um respiro daquela rebeldia genuína e espontânea desse entrelugar entre a infância e a vida adulta, aqui no corpo de três meninas que, em meados dos anos 80, ainda acreditam no punk.

Digo respiro porque é preciso se livrar um pouco das marcações de cena em filmes com adolescentes. E Moodysson sabe fazer isso. Não apenas porque consegue dirigir as meninas e deixar elas à vontade, mas porque é tão inquieto em sua câmera quanto elas. E sim, o zoom é sempre seu amigo. E outra, vamos combinar: no esplendor dos sintetizadores e das pistas de dança, um argumento que traz meninas entre 12 e 13 anos que decidem montar uma banda punk é algo que, isoladamente, já merece toda nossa atenção.

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