Lukas, o Estranho, de John Torres + O Foguete, de Kim Mordaunt

lukas

Cena de Lukas, o Estranho

:: Filmes na programação da Mostra SP ::

Tomei a licença de juntar esses dois títulos em um mesmo texto porque eles não poderiam ser mais diferentes entre si ao tratar basicamente de um mesmo personagem central: menino de algum ermo ecossistema rural a quem se atribui poderes sobrenaturais, construídos socialmente por lendas e folclores de suas respectivas comunidades. Com esse protagonista em comum temos dois cinemas de polos opostos.

A começar por Lukas. É um desses filmes que dá vontade de assistir com um retrovisor do lado. Para acompanhar simultaneamente o que se passa na tela e a imediata reação daquilo no público que está ali atrás de você. Vou começar então pela imagem que “ouvi” lá de trás: impacientes pernas cruzando e descruzando, pessoas mudando de posição na cadeira, suspiros, passos de gente saindo da sala e, por fim, com os créditos subindo, comentários recheados de palavras que sua mãe não lhe ensinou. Naturalmente há exceções, mas estou tentando dar conta da “zeitgeist” da sala como um todo. Aliás, nessa audição, é preciso dar crédito ao próprio som da sala, muito abaixo do volume normal, o que possibilitou uma participação maior dos ruídos externos.

Agora, a imagem que vi na minha frente: fotografia lavada, às vezes fora de foco, estouradas, cenas de filmes antigos e corroídos, homens e mulheres que de perto ou de longe se enquadram em cenários distantes. Escutamos a voz de uma mulher por todo o filme. No começo, ela promete contar como as coisas aconteceram: das razões por que o homem deixou sua família, do motivo pelo qual a mulher ficou tão triste e o que havia na caixa que cruzou o rio. Ela quer contar essas histórias pra Lukas, mas precisa fazer isso de um jeito que ele nunca se esqueça delas.

Continuar lendo

A Garota do 14 de Julho, de Antonin Peretjatko

???????

:: Filme na programação da Mostra SP ::

O primeiro longa-metragem de Antonin Peretjatko é um petardo de gás hilariante que vai cair no seu colo no início, meio e fim da sessão. Absurdo, nonsense, apaixonado, acelerado, nouvelle vague. Se todas essas palavras couberem num liquidificador, então é essa daí a vitamina do dia.

Aliás, referências não faltam nessa comédia que passou pela Quinzena de Realizadores em Cannes deste ano. Achamos no caminho não apenas as moças de Godard, mas aqueles personagens de uma ingenuidade louca presentes nos filmes dos irmãos Zucker (mais conhecidos por Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu e pela franquia Todo Mundo em Pânico). Tem espaço até pro DeLorean de De Volta para o Futuro.

Continuar lendo

Grand Central, de Rebecca Zlotowski

Grand Central

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Ele é novo na região. Ao lado de outros jovens com formação escolar precária, conseguiu emprego numa usina nuclear francesa. As pessoas se preocupam com a radiação. E numa noite para que todos compartilhem uma cerveja e brindem o começo de um dos trabalhos mais insalubres entre todos os ofícios, ela surge. A desconhecida o puxa da cadeira, lhe dá um beijo e diz algo mais ou menos assim: “Você sentiu tudo aí. O coração acelerado, as pernas tremendo, a visão turva. Isso é a radiação”.

E pronto, claro está que Rebecca Zlotowski quer fazer um paralelo entre o amor e a contaminação química do corpo. São em igual medida o “inimigo invisível”. Mas como não bastasse apenas essa frase, a diretora pesa a mão ao deixar pistas demais ao longo do filme sobre sua tese. Esquecendo que, para bom entendedor, apenas um beijo basta.

Continuar lendo

Nada de Mau Pode Acontecer, de Katrin Gebbe

Tore

:: Filme na programação da Mostra SP ::

No título original em alemão, o nome do filme é o nome do personagem principal: Tore Tanzt. Os americanos rebatizaram a história como Nothing Bad can Happen, traduzido ao pé da letra aqui no Brasil. As horas se passaram depois da sessão e vejo que há um erro bobo, porém determinante, nessa adaptação do título. Troquem Nada de Mau Pode Acontecer por O Mal Pode (Não) Acontecer e a ideia do trabalho de Katrin Gebbe começa a fazer real sentido. Não é do Mau, mas do Mal de que estamos falando. E em Tore Tanzt ele não existe para poder existir. Entendam, não é a presença do Bem, mas a ausência do Mal no protagonista o elemento perturbador desse filme.

O personagem em questão é um jovem que comunga de um, digamos, sub-plot cristão com o nome de Jesus Freaks. Não tem família, casa ou passado. Tem apenas uma mochila de roupas, epilepsia e a certeza absoluta de que Jesus está com ele e nada o faltará. Sua crença na bondade dos outros parece ser inabalável. Mas muito mais do que isso, sua certeza de carregar ele próprio essa bondade é inflexível. Em determinado momento, o jovem cruza com uma família. Como retribuição a um favor “celestial” de Tore (Julius Feldmeier), Benno (Sascha Alexander Gersak), o pai da família, convida o rapaz para comer da sua comida, dormir sob o seu teto. Típica narrativa bíblica.

Continuar lendo

Cinco dicas quase zen de como vivenciar a Mostra SP

BANNER-MOSTRA-SP-2013

A 37ª edição da Mostra de Cinema de São Paulo começa nesta sexta-feira (18), com a exibição de 377 filmes de todos os cantos do planeta. Com duas semanas para dar conta de alguma parte dessa sorte de títulos, há quem se empenhe em maratonas sem fim de filmes. Concordo que são raras as oportunidades de ver na tela grande obras que dificilmente chegariam às salas não fosse por iniciativas como essa. Nesse tópico, o Filmes do Chico fez um excelente “Guia sobrevivência na Mostra de Cinema de São Paulo”. Recomendo ler, existem questões práticas essenciais ali.

Mas queria acrescentar algumas outras “dicas”, se me permitem:

1) Cinema é hipnose, imersão, deslumbramento. E alguns filmes não raramente caminham com a gente muitas horas depois dos créditos finais subirem. Em certos momentos, é preciso saber reconhecer que não queremos largar a mão do que acabamos de assistir e, quase que promiscuamente, nos render aos encantos de outras histórias. Portanto, mesmo se você tiver com uma agenda de cinco filmes no dia, saiba identificar quando um deles te demanda uma pausa. A gente já vive correndo o dia inteiro com prazos e metas e tabelas e deadlines. Não precisa ser assim também com o cinema.

Continuar lendo

O Jardineiro, de Mohsen Makhmalbaf

Jardineiro

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Diálogo dos primeiros minutos de O Jardineiro:
Mohsen Makhmalbaf, o pai: “Cinema é extensão dos nossos olhos, não das nossas lentes”.
Maysam Makhmalbaf, o filho: “Se só a percepção é importante, pra que fazer filmes?”

Para um documentário que se pretende questionar e entender por que as pessoas adotam uma religião como norte moral, é bem sintomático que Makhmalbaf, alguém que sempre colocou a própria arte do cinema em xeque, conteste de cara seu ofício de cineasta. De tal forma que os conflitos ideológicos entre ele o filho nunca são apenas sobre cinema ou apenas sobre religião. A diferença do olhar de cada um diante do material humano que se coloca diante deles é a grande questão. E que por isso devoção pode ser algo tão relativo quanto um recorte do olhar.

Continuar lendo

Avanti Popolo, de Michael Wahrmann

Avanti Popolo

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Avanti Popolo é um filme sobre o tempo. Que parou, que se arrasta, que acelera, que se pudesse voltar atrás… O tempo que a gente não queria que tivesse passado. Tampouco fosse presente. Mas ali está, sentado no meio da sala, o tempo.

Os dois personagens que contracenam com ele representam a memória. Um deles, o pai, nega luz ao tempo e mantém as janelas fechadas. É a memória imobilizada. Já o outro, o filho, não se importa em iluminar esse mesmo tempo e tentar de alguma forma tirar dele o pó com que seu pai fez questão de vesti-lo. Paradoxalmente, é um personagem desleixado com seu próprio tempo, sem perspectiva de futuro. É a memória em tentativa de construção.

Continuar lendo

Entrevista: Marjane Satrapi (Gangue dos Jotas)

gang-of-the-jotas

Recentemente, graças a uma matéria que fiz pra Harper’s Bazaar, tive a excelente oportunidade de conversar com a diretora Marjane Satrapi, pessoa que eu admiro desde que virei a primeira página de Persépolis, história em quadrinhos autobiográfica pela qual ela ficou famosa no mundo inteiro. Essa premiada HQ se transformou em uma animação dirigida pela própria Marjane em 2007 e chegou a concorrer ao Oscar. Em 2011, uma segunda HQ, também com pegada autobiográfica, chegou aos cinemas: Frango com Ameixas (exibido na Mostra SP daquele mesmo ano). Agora, Marjane volta à programação da Mostra com um filme liberto de tudo: de ser uma adaptação e, principalmente, de ser preso àquelas tabelas rígidas de um calendário de filmagens. A Gangue dos Jotas é uma comédia sobre uma mulher que consegue cooptar dois jogadores de badminton para perseguir uma suposta gangue de mafiosos conhecidos como Os Jotas: José, Juan, Javier, Júlio, Jorge e Jesus. Segundo Marjane, foi filmado quase que completamente no improviso. Abaixo, transcrevo a entrevista completa com alguém que não cansa de rir de si mesma e, quando possível, dos outros.

Continuar lendo

Cinema pernambucano ou cinema em Pernambuco?

CinemaPE.jpg

:: Na edição de fevereiro deste ano, a revista Monet publicou uma matéria minha sobre a prolífica cena do cinema feito em Pernambuco. Tinha como gancho a estreia de Avenida Brasília Formosa no Canal Brasil. Coloco aqui no blog agora o texto que foi publicado então na revista. Naturalmente, algumas informações estão bem desatualizadas: O Som ao Redor não mais está em cartaz e vários dos filmes que ainda estavam em produção já foram concluídos (tais como Tatuagem, de Hilton Lacerda, e Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro). De qualquer maneira, por não deixar de fazer cada vez mais sentido, achei legal deixar registrado aqui a conversa que tive com alguns diretores. A foto acima, tirada no Cinema São Luiz, é de Rafael Medeiros::

No começo dos anos 90, um tal “maracatu de tiro certeiro” acertou no peito da música popular brasileira. Mas a bala, em vez de matar, ressuscitou e reascendeu uma adormecida euforia por um jovem rock made in Brazil. Estamos falando do manguebeat, movimento que nasceu no Recife e que de certa forma foi brotado em torno de um manifesto escrito pelo músico Fred 04. Mais de duas décadas depois, é também com cheiro de maresia pernambucana que sopra um outro fenômeno cultural no país. Só que, desta vez, ele não vem com manifesto, proposta estética ou ideológica. Semelhante ao manguebeat, ele vem para desfazer a ordem. Mas onde queres música, ele é cinema.

Continuar lendo

Gravidade, de Alfonso Cuarón

Gravity

O novo filme do mexicano Alfonso Cuarón é um daqueles títulos que para sempre serão lembrados na história do cinema por ter criado um novo paradigma de efeitos especiais. Tal como um dia foi Viagem à Lua, de Meliés, em 1902. Pois agora, 111 anos depois, Cuarón decide jogar o homem em nova viagem espacial para dar, ele próprio, seu grande salto na arte do ilusionismo. E que salto.

Estamos falando de um filme pipocão, escrito nos moldes Syd Field dos dois pontos de virada, três atos, lição de moral, sentimentalismos e o combo inteiro de uma história que aperta os botões certos para disparar nossas reações mais imediatas. Ruim? Sim e não. “Sim” se você quiser levar mesmo esse filme a sério como uma questão filosófica a lidar com temas do tipo renascimento, corpo, lar. Nesse aspecto, ignorem qualquer comparação com 2001, o filme de Kubrick. “Não” se você entender que Gravidade é tão-somente um excelente filme de ação com imagens nunca dantes navegadas pelo cinema. Cenas que irão te fazer contorcer dentro da sala.

Continuar lendo