Cinema pernambucano ou cinema em Pernambuco?

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:: Na edição de fevereiro deste ano, a revista Monet publicou uma matéria minha sobre a prolífica cena do cinema feito em Pernambuco. Tinha como gancho a estreia de Avenida Brasília Formosa no Canal Brasil. Coloco aqui no blog agora o texto que foi publicado então na revista. Naturalmente, algumas informações estão bem desatualizadas: O Som ao Redor não mais está em cartaz e vários dos filmes que ainda estavam em produção já foram concluídos (tais como Tatuagem, de Hilton Lacerda, e Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro). De qualquer maneira, por não deixar de fazer cada vez mais sentido, achei legal deixar registrado aqui a conversa que tive com alguns diretores. A foto acima, tirada no Cinema São Luiz, é de Rafael Medeiros::

No começo dos anos 90, um tal “maracatu de tiro certeiro” acertou no peito da música popular brasileira. Mas a bala, em vez de matar, ressuscitou e reascendeu uma adormecida euforia por um jovem rock made in Brazil. Estamos falando do manguebeat, movimento que nasceu no Recife e que de certa forma foi brotado em torno de um manifesto escrito pelo músico Fred 04. Mais de duas décadas depois, é também com cheiro de maresia pernambucana que sopra um outro fenômeno cultural no país. Só que, desta vez, ele não vem com manifesto, proposta estética ou ideológica. Semelhante ao manguebeat, ele vem para desfazer a ordem. Mas onde queres música, ele é cinema.

“É um momento muito especial e, acredito, até curioso. Porque realizadores e gestores do Brasil inteiro se perguntam hoje o que está acontecendo em Pernambuco.” O depoimento é do diretor Gabriel Mascaro, 29 anos, dois curtas e quatro longas na bagagem, sendo um deles o premiado Avenida Brasília Formosa, documentário beirando a ficção, e vice-versa, que estreia este mês no Canal Brasil mostrando uma periferia tão estranha em suas especificidades quanto familiar em seus anseios.

Sobre a questão dos realizadores e gestores que Mascaro menciona, ela tem sua razão de ser. Afinal de contas, somente no ano de 2012, os filmes pernambucanos monopolizaram os principais prêmios dos mais importantes festivais de cinema do Brasil: Gramado, Brasília, Rio e Mostra de São Paulo. Um deles, atualmente em cartaz em algumas capitais do país, entrou para a prestigiada lista dos 10 melhores filmes de 2012 do The New York Times. O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, esteve em vários outros rankings internacionais e é, sem exagero, uma das obras mais socialmente intricadas não apenas da chamada Retomada, como da história do cinema nacional.

Ao lado de Febre do Rato, de Claudio Assis, Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, Eles Voltam, de Marcelo Lordello, Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão e o documentário Doméstica, do mesmo Mascaro acima citado, O Som ao Redor se somou a longas pernambucanos que, no ano passado, trouxeram a lume uma produção não apenas prolífica, como acima de tudo provocadora. São filmes que, em alguns momentos, podem até dialogar entre si – Doméstica, como define o próprio Kleber Mendonça Filho, é um filme-irmão de O Som ao Redor -, mas cuja unidade só se dá por sua diferença.

“Recife não tem facções entre os artistas. Os trabalhos, as sensibilidades e as personalidades são bem diferentes, mas é a mesma frequência. E não há essa preocupação de indústria, de conquistar o mercado. Isso gerou um efeito muito curioso, que é uma volta, gradual e constante, de vários nomes que tinham ido embora. E alguns colegas e amigos do Rio e São Paulo ligam e perguntam: ‘e aí, é viável se mudar pro Recife?’ E eu fico sempre sem resposta”, afirma Mendonça Filho.

Camilo Cavalcante, diretor de 14 curtas-metragens e atualmente finalizando seu primeiro longa, A História da Eternidade, sustenta essa opinião: “Acho que se a gente for elencar uma característica que o cinema pernambucano tem, ela só pode ser a honestidade dos realizadores de se colocar muito em suas obras. Cada filme tem a cara de quem o faz e ninguém está copiando ninguém”.

INCENTIVO DO GOVERNO

O que há, portanto, não é exatamente um cinema pernambucano, mas um cinema em Pernambuco. Algo que, vale frisar, sempre existiu e sempre foi significativo criativamente, mas cuja força começa a se perceber agora em plano nacional graças a uma política pública conquistada pelos próprios cineastas. Uma política que, neste caso, tem o nome específico de Funcultura, um fundo de incentivo do governo do estado que, desde 2007, reserva boa parte de seu montante à produção de cinema e TV. Em 2013, serão disponibilizados R$ 11,5 milhões para esse edital específico do audiovisual.

“O pessoal do setor reivindicou essa separação, dada a importância que o cinema sempre teve em Pernambuco. Isso foi aceito pelo governo e hoje temos um edital com uma característica muito importante, que é a de dar continuidade aos projetos. Ele permite que a pessoa vá cumprindo etapas de um mesmo trabalho ao longo dos anos”, explica Fernando Duarte, secretário de cultura do estado. E completa: “Existe um diálogo muito forte entre governo e a categoria. Sempre há uma escuta pública antes de cada edital.”

Para os padrões do cinema comercial, esse montante do Funcultura é quase nada, mas para quem se propõe a cutucar o status quo, é uma soma muito bem vinda. E os realizadores são uníssonos em elogiar a iniciativa: “Comparado com o que acontece no resto do país e até mesmo no mundo, o Funcultura é uma coisa inédita, super rica. É raro ter um apoio desse”, opina Leonardo Sette, outro curta-metragista que está escrevendo o roteiro de seu primeiro longa de ficção este ano, Isolados.

“A gente faz um cinema barato. É lógico que todo mundo almeja ter bilheteria, mas fazemos filmes que se pagam e isso nos dá liberdade”, define Renata Pinheiro, cineasta que já foi selecionada pela Quinzena dos Realizadores, em Cannes (com o curta Superbarroco), e que hoje está em fase de montagem final de seu primeiro longa, Amor, Plástico e Barulho. “Hoje a gente serve de modelo para alguns estados que deveriam fazer o mesmo”, conclui Claudio Assis, diretor de uma obra inquietante cujo primeiro longa já tem mais de dez anos e que hoje é um dos beneficiados pelo Funcultura.

O CENÁRIO E A CENA

Herdeiros de um acervo cinematográfico que existe desde os anos 20, o cinema feito em Pernambuco hoje é tudo menos resultado de um ou dois elementos isolados. O fundo dedicado exclusivamente ao audiovisual não é causa, mas sim consequência de uma cena que, organicamente, foi sendo irradiada desde os mesmos anos 90 do manguebeat, tendo como ponto alto a exibição do filme Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, em 1997, no tradicional e elegante Cinema São Luiz.

Um ano depois da badalada première do primeiro longa pernambucano em muitos anos, o então crítico de cinema Kleber Mendonça Filho foi chamado para ser programador de uma sala de cinema que viria a se tornar, sob sua curadoria, o ponto de encontro de pessoas interessadas em um cinema fora do chamado circuitão. O Cinema da Fundação, como é conhecido, formou e ainda forma gerações de cinéfilos.

Paralelo a tudo isso, Recife começou a compor uma equipe de profissionais que, aos poucos, foi adquirindo proficiência em aspectos técnicos. Hoje, existem cerca de 50 produtoras de audiovisual cadastradas em Pernambuco, dois estúdios de mixagem de som e um curso de graduação em cinema que acaba de formar sua primeira turma na Universidade Federal de Pernambuco.

“O curso surgiu a reboque de algo que já estava acontecendo no meio de cinema de Pernambuco. Pois, se você for enumerar as pessoas que estão se destacando nessa cena, vai ver que cerca de 90% são oriundos de cursos de Comunicação ou Design do estado. Ou seja, de certo modo a universidade, e particularmente a UFPE, já estava formando cineastas e cinéfilos. O cinema sempre fez parte da cultura universitária pernambucana. O que fizemos ao criar o bacharelado foi institucionalizar e dar forma a essa cultura”, explica Angela Prysthon, professora do curso.

E, claro, além de todas essas estruturas, existem as casas de cada um dos realizadores que, graças à revolução digital, podem muitas vezes montar seus trabalhos sem precisar ir muito além de seu quarto. “Com a passagem do 35mm pro DCP (Digital Cinema Package), posso finalizar um filme com qualidade de cinema sem sair do Recife. Isso é sensacional”, afirma Leonardo Sette.

Daniel Aragão, que lançou em 2012, ainda no circuito de festivais, seu primeiro longa, foi um dos que se beneficiaram com essa transição. “A produtora foi aqui em casa. Escrevi, produzi e editei Boa Sorte, Meu Amor daqui”, garante. Kleber Mendonça Filho, sintetiza a importância dessa autonomia tecnológica: “Nos anos 90, Pernambuco estava restrito a questões técnicas. Não era possível fisicamente ter cinema. Não havia câmera, laboratório, luz, som. Tudo tinha que trazer de São Paulo e era muito caro. Com a revolução digital, isso começou a cair. Hoje chegamos ao topo dessa revolução. Caiu tudo.”

Nessa queda, a vocação natural de Pernambuco para o cinema se ergue. Cada vez mais independente em suas propostas e pujante em sua diversidade.

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