Entrevista: Marjane Satrapi (Gangue dos Jotas)

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Recentemente, graças a uma matéria que fiz pra Harper’s Bazaar, tive a excelente oportunidade de conversar com a diretora Marjane Satrapi, pessoa que eu admiro desde que virei a primeira página de Persépolis, história em quadrinhos autobiográfica pela qual ela ficou famosa no mundo inteiro. Essa premiada HQ se transformou em uma animação dirigida pela própria Marjane em 2007 e chegou a concorrer ao Oscar. Em 2011, uma segunda HQ, também com pegada autobiográfica, chegou aos cinemas: Frango com Ameixas (exibido na Mostra SP daquele mesmo ano). Agora, Marjane volta à programação da Mostra com um filme liberto de tudo: de ser uma adaptação e, principalmente, de ser preso àquelas tabelas rígidas de um calendário de filmagens. A Gangue dos Jotas é uma comédia sobre uma mulher que consegue cooptar dois jogadores de badminton para perseguir uma suposta gangue de mafiosos conhecidos como Os Jotas: José, Juan, Javier, Júlio, Jorge e Jesus. Segundo Marjane, foi filmado quase que completamente no improviso. Abaixo, transcrevo a entrevista completa com alguém que não cansa de rir de si mesma e, quando possível, dos outros.

De onde veio o roteiro desse filme, como a história te ocorreu?

O real motivo pelo qual eu fiz esse filme, bem, fazer um filme custa dinheiro, você tem muitas alegrias quando faz um, mas também tem muitos “aperreios” (licença poética minha para “lots of pain”). Os dois filmes anteriores que eu tinha feito eram produções que exigiam dinheiro e todo esse trabalho de produção. E aí aconteceu que eu tinha que tirar férias. Odeio tirar férias, me entedio logo. Mas um amigo meu insistiu: vamos tirar umas férias de 10 dias e eu queria logo encurtar pra dois, o que você faz numas férias de 10 dias? É muito tempo fazendo nada. Mas enfim, concordei em tirar esse tempo com a condição que eu fizesse um filme nesse período. E aí eu chamei uma equipe e eles perguntaram: mas o filme vai ser sobre o que? E eu respondi: “não sei, mas vocês vêm comigo”. E assim foi, dia após dia eu tinha que imaginar o que viria depois na história. Foi um roteiro que surgiu do nada. Foi um filme que fiz pela diversão de fazer um coisa completamente livre de tudo. Eu precisava lembrar da alegria de ser fazer um filme. Porque de vez em quando é bom fazer algo só pela curtição da coisa.

É engraçado que já no trailer do filme há uma piada com você dizendo: “este filme não se parece com nenhum outro filme de Marjane Satrapi”. Mas em alguns aspectos lembra um pouco o tipo de humor dos irmãos Coen ou mesmo os personagens de Wes Anderson.

Brigada!

Quem são os diretores que você admira hoje e quais aqueles que inspiram teu cinema de alguma forma?

Não sei qual é o “estilo” dos meus filmes, mas fico muito feliz quando fazem essas comparações. A única coisa que eu sei é que eu sou muito geométrica no sentido de ficar atenta ao framing, ao enquadramento, não sou muito da câmera balançando, apesar de gostar disso em alguns filmes. Mas essencialmente, como eu gosto de rir bastante na minha vida, nunca posso fazer algo que seja muito sério, tem que existir algum tipo de humor. Não gosto de nada que é muito sério. Uma vez ou outra, se você puder arrancar um sorriso da pessoa, isso me faz feliz.

Você lembra de algum filme a que você assistiu e que você riu tanto que até hoje lembra dessa experiência?

Ah sim, claro! Foi Um Assaltante Bem Trapalhão, do Woody Allen. Assisti em Cannes, 1995, era uma retrospectiva do trabalho dele. Fui a uma exibição as 11h da manhã, não tinha quase ninguém na sala. Lembro que ri tanto e tão alto que a moça que estava vendendo os ingressos do cinema entrou na sala pra perguntar se eu estava passando mal porque eu não conseguia parar de rir. E adoro também os filmes da Pantera Cor de Rosa com o Peter Sellers, são filmes que me fazem muito feliz.

Você chegou a interpretar um pequeno papel em The French Kissers, do Riad Sattouf. Mas agora você é protagonista nesse seu novo filme. Quando surgiu esse desejo de atuar?

Na verdade, nunca quis ser atriz. Acontece que Riad é um grande amigo meu. E ele queria uma personagem bem ruim, meio filha da puta. E não sei porque ele me escolheu, me disse que eu seria perfeita pro papel. Talvez porque ele ache que eu realmente sou essa pessoa (risos). Mas no caso de A Gangue dos Jotas foi porque a gente realmente não tinha equipe de filmagem, e se você não tem equipe tem que fazer você mesmo. Eu tinha que tá na frente e atrás da câmera todo o tempo. Mas confesso que foi muito divertido.

Pois bem, além de dirigir, escrever e protagonizar o filme, vi também nos créditos finais que você tem outros trabalhos no filme, tais como maquiagem. E vi que Stéphane Roche, que editou Persépolis e Frango com Ameixas e é um dos atores em A Gangue dos Jotas, também é co-produtor do filme. Me parece uma produção entre amigos.

Eu só trabalho com meus amigos. Quando você trabalha com cinema, algumas pessoas se tornam suas amigas no processo. Naturalmente com algumas você nunca mais mantém contato. Mas com outras você se torna próxima e quer trabalhar novamente com ela. E adoro trabalhar com esse tipo de gente que não precisa se leva muito a sério. Na França (onde ela vive), quando falei desse filme, algumas pessoas perguntaram: “mas e sua imagem?” “O que tem minha imagem?”, perguntei. “Vão achar que você é uma piada” e respondi: “Mas eu sou uma piada! Tá tudo certo.” Se as pessoas me vêem como uma palhaça está tudo bem pra mim. E meus amigos mais próximos sabem que eu sou assim, de modo que adoro trabalhar com todos eles.

Há uma cena em A Gangue dos Jotas em que os três personagens principais, você, Stéphane Roche e Mattias Ripa estão no carro e começam uma conversa que me parece completamente improvisada. Aquilo estava no roteiro ou os diálogos surgiram na hora?

Aquilo foi tudo improvisado! Nada foi planejado. Mas acho que a razão pela qual aquilo funcionou porque meus amigos embarcaram comigo na brincadeira. E há também um editor muito bom, de modo que parece algo pensado também. Nessa cena do carro, eu falava assim: “Vamos conversar sobre morte” e daí surgia a cena.

Há também uma piada no filme em que um dos jogadores de badminton fica te perguntando sempre de onde você vem. Essa é de alguma maneira uma piada inspirada na tua vida pessoal?

Sim, claro! Eu não sei como é no Brasil, mas na França todo mundo sempre precisa saber de onde você é. Como eu tenho essa fisionomia diferente, é uma coisa recorrente na minha vida. E esse é um tipo de pergunta que realmente me irrita. De modo que no filme é realmente uma piada com isso, porque foi Stéphane quem começou com essa brincadeira, justamente porque ele sabe que eu odeio essa pergunta. E, mais uma vez, não foi uma coisa planejada no roteiro. Apenas surgiu.

Agora como iraniana que você é, quais tuas opiniões sobre o cinema iraniano e como repercute em você ver diretores sendo privados de fazer seu trabalho no Irã e ver gente como Jafar Panahi em prisão domiciliar?

Olha, confesso pra você que nunca fui muito dessa contemplação do cinema iraniano, mas respeito muito os filmes, os diretores e tudo que eles fizeram para abrir as portas do Irã pro mundo. Existem trabalhos sérios de diretores como Kiarostami, Makhmalbaf e Panahi, mas muita gente no Irã pegou carona nessa coisa da contemplação do cinema iraniano sem tanto talento assim pro cinema. Não reconheço boa parte dessa filmografia e ela não me soa bem. Mas há pessoas que eu admiro. Como o Panahi, que está vivendo esse desastre pessoal, porque ser proibido de fazer filmes por 20 anos é o mesmo que matá-lo. Só espero que um novo governo dê possibilidades de reverter esse quadro, porque ele é um grande diretor.

Seu próximo filme (The Voices) é um trabalho com uma produção americana, outro tipo de orçamento, elenco de atores famosos (o filme tem Ryan Reynolds e Gemma Arterton). E além de tudo é um filme escrito por outra pessoa. Como foi trabalhar nessa estrutura de cinema?

Acabei de finalizar a montagem desse filme, há dois dias. O filme foi escrito por um americano chamado Michael Perry, um roteiro muito bom sobre um cara esquizofrênico. Por muitos anos, eu recebi roteiros de pessoas e nunca me interessei em dirigir nada, mas esse me chamou atenção. Pra falar a verdade, nunca imaginei que um dia iria dirigir um filme com uma história escrita por outra pessoa, mas foi uma experiência muito boa e desafiadora. Porque quando alguém te dá uma história, você reimagina ela e daí ela se torna sua também. E me deram liberdade nesse filme pra fazer o que eu queria e fiquei feliz com isso. Até porque apesar de ser um filme americano, não é um filme de estúdio.

Você pretende vir ao Brasil em breve?

Um dos grandes sonhos da minha vida é ir pro Brasil e todos os meus amigos me falam: “se você for pra Brasil vai se apaixonar e nunca mais vai voltar pra França”.

Você é amiga da Maria de Medeiros, que está sempre por aqui…

Ela é uma das pessoas que fica insistindo pra que eu vá ao Brasil. Sempre me chama. Engraçado que aqui em Paris as pessoas costumam me perguntar se eu sou brasileira…

Você se parece com uma brasileira porque uma das qualidades que temos é que nos parecemos com o mundo todo.

Pois é, mas sempre me perguntam se sou brasileira.

Você pretende voltar a escrever quadrinhos algum dia?

Acho que não. Amei ser durante muito tempo essa quadrinista, mas confesso que depois que descobri o cinema, a alegria que ele me dá é algo que talvez escrever quadrinhos não me dê tanto. Mas hoje, em lugar de desenhar pra quadrinhos, eu faço quadros. Em janeiro deste ano houve uma exposição dos meus quadros em Paris e foi maravilhoso. Se eu puder pintar minhas telas e continuar fazendo cinema, então está tudo certo. Mas quem sabe? Vai que daqui a 10 anos eu queira ser uma bailarina.

Aliás, você dança em A Gangue dos Jotas. Achei que foi bem nisso.

Então você acha que posso investir nisso?

Sim, claro.

Porque eu amo dançar! E naquela cena do filme, eu só dancei porque estava impaciente. Odeio ficar parada durante muito tempo e naquele momento tínhamos chegado num lugar onde tocava essa música. Eu estava cansada de ficar naquele carro e comecei a dançar e o câmera começou a me filmar porque achou que ia ser legal pro filme.

Mas você dança bem, acho que dá pra pensar nisso como uma carreira em algum momento.

Muitíssimo obrigada, foi bom saber disso!

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