A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante

A Historia da Eternidade1

Do que é eterno vivem as pessoas, a se disfarçarem diariamente dentro de um tempo contínuo sem fim ou, na melhor das possibilidades, de um fim remoto, para além do campo de visão. Não é assim no Sertão. Ou, ao menos, não era. No momento em que se situa o primeiro longa-metragem de Camilo Cavalcante, o Sertão significava, ele próprio, o desfecho da vida. Como então se propor contar a A História da Eternidade, seja ela objeto (a história sobre ela) ou sujeito (a história contada por ela) da narração, num lugar onde a morte iminente e latejante é o código comum entre o homem e a paisagem? Pela poética da resistência, nos mostra Camilo.

Sua eternidade se inscreve no registro da luta diária do homem contra a foice do destino. A guerra, ela sim, é infinita. O combate e a negação do que é dado e carimbado só dispõe de uma arma, o amor. Não aquele amor pueril e virtuoso que a todos salva e redime. Na natureza selvagem da amplidão exuberante e, ao mesmo tempo, opressora do Sertão, o amor opera no sistema do inebriamento da fé, moldado tanto pela urgência de sobreviver quanto pela impulsão do desejo. Sendo assim, ele pode aparecer nas formas mais diversas e não convencionais possíveis. O que o filme de Camilo faz é empoderar todos esses amores e desejos sem as vendas do moralismo, numa fábula onde os vários arquétipos sertanejos se diluem na liquidez invisível, porém presente, do homem árido.

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Cinema pernambucano ou cinema em Pernambuco?

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:: Na edição de fevereiro deste ano, a revista Monet publicou uma matéria minha sobre a prolífica cena do cinema feito em Pernambuco. Tinha como gancho a estreia de Avenida Brasília Formosa no Canal Brasil. Coloco aqui no blog agora o texto que foi publicado então na revista. Naturalmente, algumas informações estão bem desatualizadas: O Som ao Redor não mais está em cartaz e vários dos filmes que ainda estavam em produção já foram concluídos (tais como Tatuagem, de Hilton Lacerda, e Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro). De qualquer maneira, por não deixar de fazer cada vez mais sentido, achei legal deixar registrado aqui a conversa que tive com alguns diretores. A foto acima, tirada no Cinema São Luiz, é de Rafael Medeiros::

No começo dos anos 90, um tal “maracatu de tiro certeiro” acertou no peito da música popular brasileira. Mas a bala, em vez de matar, ressuscitou e reascendeu uma adormecida euforia por um jovem rock made in Brazil. Estamos falando do manguebeat, movimento que nasceu no Recife e que de certa forma foi brotado em torno de um manifesto escrito pelo músico Fred 04. Mais de duas décadas depois, é também com cheiro de maresia pernambucana que sopra um outro fenômeno cultural no país. Só que, desta vez, ele não vem com manifesto, proposta estética ou ideológica. Semelhante ao manguebeat, ele vem para desfazer a ordem. Mas onde queres música, ele é cinema.

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