Gravidade, de Alfonso Cuarón

Gravity

O novo filme do mexicano Alfonso Cuarón é um daqueles títulos que para sempre serão lembrados na história do cinema por ter criado um novo paradigma de efeitos especiais. Tal como um dia foi Viagem à Lua, de Meliés, em 1902. Pois agora, 111 anos depois, Cuarón decide jogar o homem em nova viagem espacial para dar, ele próprio, seu grande salto na arte do ilusionismo. E que salto.

Estamos falando de um filme pipocão, escrito nos moldes Syd Field dos dois pontos de virada, três atos, lição de moral, sentimentalismos e o combo inteiro de uma história que aperta os botões certos para disparar nossas reações mais imediatas. Ruim? Sim e não. “Sim” se você quiser levar mesmo esse filme a sério como uma questão filosófica a lidar com temas do tipo renascimento, corpo, lar. Nesse aspecto, ignorem qualquer comparação com 2001, o filme de Kubrick. “Não” se você entender que Gravidade é tão-somente um excelente filme de ação com imagens nunca dantes navegadas pelo cinema. Cenas que irão te fazer contorcer dentro da sala.

É quase como se Cuarón tivesse sonhado com a Odisséia Espacial de David Bowie e decidido escrever uma história que investigaria o que se passou na cabeça do Major Tom quando, ciente de sua iminente morte à deriva no Espaço, ele se resignou à solidão com vista pro mar: “o Planeta Terra é azul e nada posso fazer”. O Major Tom aqui é a engenheira médica Ryan Stone (Sandra Bullock). O sobrenome de “pedra” indica que ela terá que provar toda sua solidez nas infinitas adversidades que surgirão em seu caminho. E elas não serão poucas.

O filme já começa nos situando nesse ambiente por onde seguiremos viagem nos 90 minutos posteriores. De canto a canto da tela, visualizamos a Terra, esse lugar colossal que de longe encanta e de perto espanta. Aqui distante de todos os problemas concretos que o faz um lugar socialmente perturbado, esse planeta é lindo e lá do alto, no silêncio e na escuridão do Espaço, parece ser o lugar mais reconfortante de todo o universo, depósito de todas as esperanças.

Flutuando na gravidade zero e inabitável desse ambiente preenchido pelo Nada, vemos uma tripulação de três astronautas em um trabalho externo ao telescópio Hubble. Um deles é o veterano astronauta Matt Kowalsky (George Clooney), em sua última missão espacial antes da aposentadoria (disparou alguma coisa aí na sua capacidade de dedução?). Kowalsky é o personagem-elo, a ligação mais estreita entre aquele ambiente inóspito e o ecossistema humano, aqui representado por seu seu senso de humor e timing para o flerte (é Clooney gente).

O primeiro ponto de virada acontece naquela cena que está sendo exaustivamente exibida em comerciais de TV: algo de inesperado surge e a personagem de Sandra Bullock perde seu laço com o Hubble e fica flutuando à deriva no Espaço. E esse, acreditem, será o menor dos problemas que ela vai enfrentar a partir daquele ponto.

Filmado quase que inteiramente com um fundo verde por trás, Gravidade é resultado de um diretor visionário que, com uma equipe e uma tecnologia “estado da arte”, conseguiu realizar um trabalho detalhista em imagem e som. A pontuar que o trabalho de som neste filme é nada menos que brilhante. Esqueçam barulho de explosões. No Espaço o som não se propaga e quase tudo que ouvimos é a voz e a respiração ofegante dos astronautas, particularmente de Sandra Bullock, que leva boa parte da história sozinha.

Mesmo com todas as decisões que o filme toma para agradar à dramaturgia americana da superação – e Gravidade poderia facilmente ser exibido em convenções empresariais sobre “como não desistir das suas ideias” -, fica a sensação de que Cuarón fez o seu trabalho mais corajoso.

Em tempo 1: se a sua cidade tiver alguma sala IMAX, se esforce para desembolsar um dinheiro a mais e curta essa experiência.

Em tempo 2: o Ministério do Bom Senso adverte: filme não recomendado para claustrofóbicos ou mesmo acrofóbicos.

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