Além da Fronteira, de Michael Mayer

Alem da Fronteira

A questão Palestina/Israel, como todas as questões de territórios vizinhos e inimigos, vem rendendo ao cinema um sem número de narrativas românticas com base naquela premissa da tese (o amor), antítese (a proibição ao amor) e síntese (a resposta, muitas vezes violenta, à proibição) de Romeu e Julieta. Além da Fronteira não foge ao modelo. A estreia do diretor Michael Mayer em um longa segue esse arquétipo do amor proibido e traz uma leitura que começa afetuosa entre dois personagens inseridos no contexto da pouco afetiva relação entre palestinos e israelenses no campo dos acordos políticos.

Começa, mas não termina. Pois que no terceiro ato do filme, eis que esses acordos políticos do amor cedem cansados a um thriller em que pipocam juízos de valor sobre o “ser” palestino, cujo núcleo familiar soa primitivo e intolerante, e o “ser” israelense, dos pais requintados e liberais. E aí vem o pacote de cenas de perseguição, ligações obscuras e uma série de improváveis malabarismos narrativos para conseguir levar o filme a um desfecho qualquer.

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Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

doce amianto

Salve o delírio diante da dor e o desejo diante da destruição. Salve o que for fantasia, artificial, postiço e extravagante, salve toda quimera que possa remediar a solidão de uma cama vazia. Nesse estranho mundo de sobrevida em tarja preta, melhor é mesmo acreditar que a maquiagem e as fadas te salvarão da dormência e da demência. Entre o 8 e o 80, fiquemos pois com o 88. Sendo assim, Doce Amianto é um filme que não pede desculpas pela alucinação. Na verdade, faz dela uma linguagem manifesto corporificada numa personagem que carrega já em seu nome a (imaginada) negação de sua realidade, também reafirmada em poema de Walt Whitman no prefácio do longa.

Amianto, a fibra mineral conhecida por características como indestrutibilidade e por ser prejudicial à saúde do ser humano, é “doce”, no sentido de meiga, afetuosa e, sim, extremamente frágil, quebradiça.

O filme de Guto Parente, já conhecido por seus curtas de um onírico apuro estético, e do poeta Uirá dos Reis, usa de todo esse trans-bordamento para falar de trans-afetividade. Pois se a identidade de gênero passa pela performance, como diria Judith Butler, o feminino e o masculino serão postos aqui num palco em que só se dialoga a partir de uma dramaticidade propositalmente falsa e hiperbólica, como se a aparência do gênero tentasse fugir saltitante de uma heteronormatividade altamente rígida. Lo tuyo es puro teatro.

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Azul É a Cor mais Quente, de Abdellatif Kechiche

Adele.c

Azul É a Cor Mais Quente é uma história de amor como qualquer outra. Mas assim como qualquer história de amor, é uma história como poucas. Para filmá-la, Abdellatif Kechiche estabelece um só critério como motor narrativo: o desejo. Existem várias outras medidas para contar a trajetória de um casal, mas claro está que o diretor, tendo ele mesmo esse olhar lúbrico diante de suas atrizes, está ali para tratar primordialmente do desejo, tesão, da pulsão dos corpos que colidem e se atraem.

Para tocar nisso, Kechiche usa de suas longas lentes e alcança os closes mais fechados possíveis nos rostos de seus personagens, dando significados extras a qualquer movimento dos olhos e das bocas insistentemente focadas. A ausência ou o transbordamento do tesão será visto em planos que namoram esses detalhes.

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Jogos Vorazes – Em Chamas, de Francis Lawrence

hunger games

A heroína dessa história, símbolo maior da revolução que nasce contra o sistema, tem salientes bochechas e dois namorados. Ela está de bem com seu semblante renascentista e eles estão de boa em dividir os beijos da moça. Pra quem vinha de uma série adolescente machista e antiquada como a saga Crepúsculo e seus vampiros vegetarianos, a franquia Jogos Vorazes chega a ser um respiro de alívio. Talvez agora meninas do mundo inteiro possam entender que, muito melhor que arrumar um casamento pra eternidade (500 anos depois, Bella continuaria lavando a cueca de Edward) é ser musa de uma revolução social sem se preocupar com dietas e, de quebra, usufruindo da glória de ser uma Dona Flor em tenra idade.

Somente por isso esse filme já ganha pontos na minha milhagem. E sim, estou julgando a obra antes pelo efeito que ela pode ter em seu público alvo de adolescentes do que pelo que realmente ela apresenta enquanto entretenimento e alguma faísca de reflexão pós movimentos occupy isso e occupy aquilo. Quanto ao filme em si, vamos aos fatos.

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Blue Jasmine, de Woody Allen

Blue Jasmine

Os personagens já conhecemos. Suas paranoias, inadequações, frustrações e, principalmente, aquela particular negação de todos os problemas que não sejam os seus. De volta à casa, os Estados Unidos (neste caso numa dobradinha Nova York/São Francisco), Woody Allen retoma também as piadas com as idiossincrasias dos que vivem de pontes aéreas internacionais, jantares milionários e álcool, muito álcool que é para o sorriso se manter sempre disposto. No resgate daquela extrato social que ele tão bem filmou em Match Point, Allen faz um roteiro quase que no automático, as ironias se repetem. O resultado poderia facilmente cair no mais do mesmo. Mas eis que entra em cena Cate Blanchett. E sua Blue Jasmine fará deste filme uma das obras mais irresistíveis da prolífica carreira de Woody Allen.

Porque se por aqui tá cada vez mais down a high society dos “reis dos camarotes”, na leitura que Cate Blanchett faz dessa falência moral da alta sociedade, a chacota adquire tom de arte. E o filme muito acertadamente se cerca dela para contar sua história. Blanchett cria essa mulher que anda de salto alto sobre a corda bamba na qual sua vida se transformou desde que seu marido, e mantenedor de todos os seus luxos, foi preso pela polícia graças a um gigante esquema de sonegação de impostos. O desequilíbrio é inevitável, mas o talento da atriz está em fazer a gente acreditar que o perigo está no controle, e não na queda.

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O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

O Lobo Atras da Porta

:: Filme na programação da Mostra SP ::

O clímax do filme acontece logo no começo dele. Mas não sabemos disso. Trata-se de uma cena que aparenta ser uma como outra qualquer. Revisitada no fim da história, agora com a câmera olhando para o outro lado do ambiente, entendemos como o primeiro longa-metragem de Fernando Coimbra é hábil em conter a tensão que, inevitavelmente, irá explodir em algum momento. Num incrível trabalho de montagem que parece ter sido milimetricamente calculado por outro incrível trabalho de roteiro, O Lobo Atrás da Porta sabe inspirar e expirar na hora certa, seu controle de tempo é admirável. E Coimbra faz com isso um filme de gênero, um que não tem tanta tradição no cinema nacional, o suspense policial.

Inspirado numa história real, ainda que o diretor admita ter tomado várias decisões narrativas que fogem ao fato original, o filme parte de uma mãe, vivida por Fabíula Nascimento, que vai buscar sua filha na creche e quando lá chega descobre que a menina foi embora com uma “vizinha”. O caso do desaparecimento da criança logo vai para a delegacia e de lá, a partir dos interrogatórios, vamos aos poucos entendendo quem é quem na trama e o que aconteceu até ali. Existem dois pontos de vistas em flashbacks distintos. Um é narrado sob a perspectiva do pai da menina, Milhem Cortaz, e outro terá como depoente a amante dele, mais uma interpretação de tirar o fôlego de Leandra Leal.

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Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro

Amor Plastico Barulho

:: Filme na programação da Mostra SP ::

A chamada “cultura brega” que rebola com barriguinha de fora pelas periferias do Brasil tem sido um campo bastante estimulante para que a indústria do consumo se aproprie de seus signos mais elementares e os resignifique em produtos prontos para uma classe média alta ávida em consumir referências externas (e de baixo) com o devido filtro do folclórico. Temos festas, ensaios fotográficos em revistas caras e recentemente até uma novela global a se usar desses artifícios.

Pois agora pegue esse coador de onde o brega escorria sem nata no copo de quem o consumia limpo, e jogue ele no lixo. Porque Amor, Plástico e Barulho não olha o brega de cima, de lado ou na diagonal. Olha de frente. E o resultado disso é um filme de personagens que nunca vimos antes, particularmente com mulheres que nunca vimos antes, não pelo menos do lugar de onde elas e seus corpos falam. Jaqueline e Shelly, respectivamente Maeve Jinkings e Nash Laila, nos contam das delícias e desastres de quem acredita que coração só é capaz de rimar com paixão e tesão.

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Dark Blood, de George Sluizer

dark blood

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Em 1993, George Sluizer recebeu a notícia de que River Phoenix havia morrido de overdose. Era o ator principal do longa que ele estava filmando. Sluizer fechou o roteiro e guardou os rolos com as cenas já filmadas. O projeto estaria para sempre enterrado não fosse pelo dia de Natal de 2007, quando o próprio diretor sofreu um aneurisma na França. Entrou em coma e sua morte era quase certa. Mas um médico acreditou em sua reabilitação e no primeiro momento em que recuperou consciência, Sluizer pediu para voltar a Los Angeles pois queria terminar o trabalho que havia começado com Phoenix.

Tendo isso dito, é impossível fazer uma revisão deste filme enquanto projeto original. O que o diretor apresenta agora é um esboço do que seria o resultado final não tivesse o protagonista morrido no meio das filmagens. As cenas do roteiro que não foram filmadas são narradas pelo próprio Sluizer enquanto vemos ora imagens congeladas, ora sobras de filme. No entanto, é possível sim criar um estranho paralelo entre essa proposta de roteiro, o filme incompleto que se torna um projeto em si e a própria morte prematura do tal “James Dean da geração X”, além da experiência de quase morte do diretor em questão.

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Ilo Ilo, de Anthony Chen

Ilo Ilo

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Os pequenos poderes da classe média, a crise da classe média, as relações familiares da classe média. Estamos no campo dos comportamentos sociais que se reproduzem de Norte a Sul, de Singapura ao Brasil, provando sempre que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Ilo Ilo, Caméra d’Or em Cannes este ano, é um filme que dialoga com muitas das questões latentes em recentes filmes brasileiros como Trabalhar Cansa, O Som ao Redor e o documentário Doméstica e que, não apenas por isso, tem muito a nos falar e o faz de uma maneira delicada e cuidadosa enquanto instrumento crítico.

Trata-se de uma história centrada em uma família da Singapura – mãe, pai e filho – que contrata uma empregada doméstica para cuidar da casa e ao mesmo tempo servir de babá para o menino. Estamos no fim dos anos 90 e essa mãe está grávida, o pai fuma escondido, o menino é mimado e a empregada vem das Filipinas, passaporte guardado na gaveta da patroa – “pra ela não fugir”, justifica a mulher.

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Cortinas Fechadas, de Jafar Panahi e Kambuzia Partovi

Panahi

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Atrás das grades. De onde a câmera se encontra no começo do filme entendemos que a Panahi só é hoje dada a possibilidade de discutir seu próprio aprisionamento artístico. E sendo a sua arte o cinema, essa discussão, mais uma vez, estará centrada em colocar à prova a natureza de uma narrativa filmada, desde seus recursos técnicos à construção de personagens. É assim que dando continuidade ao que começou há dois anos com Isto Não É Um Filme, o diretor iraniano que foi condenado em 2010 a prisão domiciliar por seis anos e, pior, 20 anos proibido de fazer cinema, que Panahi burla mais uma vez sua sentença e disserta sobre seu trabalho.

E se Isto Não É um Filme falava sobre o conceito do cinema a partir de sua negação, Cortinas Fechadas fala sobre a negação do próprio autor. Sim, é um filme triste que reflete um pouco um aparente estágio de depressão do diretor. Panahi fala sobre o esquecimento de personagens, o cortinamento de seus filmes, sua certeza de ser incapaz de fazer qualquer coisa senão aquilo e, em algum momento, até mesmo o tópico suicídio é mencionado. Naturalmente, ao colocar todos esses elementos em evidência com o uso de personagens (incluindo ele próprio) que trafegam para além do cárcere das páginas de um roteiro, Panahi tenta sublimar seu enfraquecimento emocional. Se abre e se expõe ao público em um movimento que, se não corajoso, é no mínimo audaz.

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