Pais e Filhos, de Hirokazu Koreeda

Pais e Filhos

Existem poucos diretores no mundo que sabem filmar crianças. Mas existem menos ainda aqueles que sabem entendê-las dentro desse comungado primeiro contexto social, a família. O japonês Hirokazu Koreeda não apenas está em ambas as seletas listas, como é certamente um dos diretores mais importantes da contemporânea cinematografia asiática graças a uma extraordinária consciência de que a imagem é sempre um recorte organicamente ideológico. Em Pais e Filhos, prêmio do Juri em Cannes este ano, Koreeda nos arrebata com um drama cujo grande ponto de virada é justamente a percepção desse recorte por um dos personagens do filme. Há alguém além do próprio diretor que está ali, registrando cenas. E quando um dos protagonistas, objeto desse registro, se nota nas imagens captadas por uma máquina fotográfica, ele finalmente entende a dimensão ideológica de sua representação.

O diretor volta neste filme ao que parece ser tema central em sua obra: a família em sua relação mais íntima de códigos, hábitos e condutas, tal como um dia fez Yasujirô Ozu em seu cinema. Mas ao contrário do mestre Ozu, Koreeda parece ser menos complacente às idiossincrasias familiares e certamente bem menos otimista. Em Pais e Filhos, existem duas famílias, cujos caminhos se cruzam depois que se descobre que houve uma troca de bebês no hospital. Os meninos trocados, agora com seis anos de idade, ainda não têm idade suficiente para fazer escolhas. Responsáveis por essas escolhas estão seus pais, colocados diante da difícil decisão de trocar, ou não, seus filhos.

O assunto é delicado, com grandes chances de se desdobrar em uma narrativa salpicada de vilões e mocinhos. Mas Koreeda tem a sensibilidade necessária para não cair nessa armadilha. Artista das minúcias, ele vai construir nos detalhes quais os laços entre cada criança e seus pais, tanto em relação aos acidentalmente adotivos quanto aos biológicos. Em pequenos gestos das mãos, no jeito de piscar o olho, ou na ponta do canudo mastigado, o contrato social estabelecido entre os personagens será sempre pelo extrato desse menor denominador comum, algo que transcende, por exemplo, as questões de diferenças sociais que serão trabalhadas neste filme criando uma outra camada de conflito.

Fundamentalmente, as crianças serão colocadas em dois ambientes que, a princípio, se eliminam. De um lado, temos Ryota Nonomiya, um homem de negócios bem sucedido, que mora com sua mulher e filho em um desses apartamentos de decoração minimalista e vista pro oceano de edifícios que se erguem nos centros das grandes cidades. Típico exemplar social que advoga pela política da meritocracia e acredita no trabalho como condição moral do homem. Sua esposa, Midori, é uma mulher que vive pelo filho, um menino que demonstra uma fragilidade que, em vários momentos, incomoda seu pai. Do outro, temos Yukari Saiki e sua esposa, Yudai, moradores de uma casa na periferia que têm três filhos. Ambos levam a vida deixando a vida os levar.

Como Ryota parece ser o mais interessado em ver de que modo a troca de crianças funciona, afinal de contas, dentro da lógica da tradição-família-e-propriedade, o laço sanguíneo tem um peso bastante relevante, seria fácil colocá-lo como o mal-caráter dessa história. Mas ele não é. É antes um homem muito confuso diante das certezas aprendidas e apreendidas, cujo questionamento sobre o peso de uma herança genética diante de seus valores familiares (e naturalmente teremos uma janela para observar a relação dele próprio com seu pai) vai atormentar a ele e a nós profundamente. Seu recorte de realidade e o juízo de valor que o personagem fará daquela outra família o descrevem antes como um robô quebrado graças à sua humanidade do que como uma máquina do sistema.

Enquanto isso, as crianças, particularmente o menino que faz Keita, filho adotivo de Ryota e biológico de Yukari, refletem magistralmente todo esse embate moral dos adultos em cena ou fora de cena. Todas elas carregam a expressão da mais pura vulnerabilidade dos ingênuos e, assim, salientam a dor daqueles que não mais podem decidir em nome de sua já finada inocência. Mas nem por isso deixam de criar suas observações sobre o que as cercam. E será pela construção de linguagem delas, e apenas delas, que os adultos conseguirão entender onde erram e acertam. É somente transferindo a direção de imagens para um desses meninos que Koreeda mostra que nada pode ser mais cruelmente sincero do que a visão de quem está sempre tentando olhar pra cima, pra muito além.

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