Loja de Répteis, de Pedro Severien

Loja de Repteis

:: Especial – Festival de Brasília ::

A literatura é pródiga nas metamorfoses que salientam a essência mais selvagem do ser humano. Já fomos baratas, lobos, macacos e, no Recife do cientista social Josué de Castro, já se foi (e ainda se é) caranguejo e gabiru. O cineasta Pedro Severien, herdeiro de um pulsar literário que nasceu mesmo antes do olhar cinematográfico, cria em seu novo filme uma identidade visual fantasmagórica à natureza dessa nossa constituição primitiva e totêmica. Como se o espectro desses animais assombrasse os ajustes sociais, muitas vezes, tão violentos quanto à luta pela caça do dia.

O fato desse curta, adaptado de um conto escrito pelo próprio Severien, escolher os répteis como os animais que representam aqui essa natureza selvagem do homem, diz bastante sobre que tipo de ser humano interessa ao debate do diretor. Bichos de epidermes espessas, visões mais apuradas no escuro e locomoção de rastejamento, os répteis costumam ser traduzidos nas chaves simbólicas da desfaçatez, da traição e dessa inércia própria de jacarés e cobras que simulam um estado de imobilidade (que nos seres humanos se transformam em amabilidade) antes de atacarem suas presas. Todos esses elementos terminam sendo usados para falar de um núcleo de pessoas que vive dentro dessa casa, por si só, delirante – e o incrível trabalho de fotografia e som no filme dá solidez a isso.

Na transformação de uma mulher, interpretada com toda a força cinematográfica que tem a atriz Maeve Jinkings, nesse réptil que aprisiona e é aprisionado, o filme cria uma parábola pós-moderna – com uma chuva fragmentada de símbolos, do azulejo colonial às câmeras de segurança – do viver enjaulado, sensação comum a todos nós que nascemos depois da criação da propriedade privada. Essa mutação está no corpo, e portanto também na lascívia, de uma mulher que com sua pele grossa domina e conquista o outro.

Sem se preocupar em ligar os pontos entre toda essa carga simbólica, Severien põe em xeque o limite sobre onde começam, terminam e se fundem os conflitos internos de seus personagens com os estímulos externos de uma cidade como o Recife que, assim como tantas outras, fincam sua identidade em seus fantasmas alegóricos. Qualquer relação com questões contemporâneas políticas da região não é mera coincidência.

Era uma Vez em Nova York, de James Gray

the-immigrant-3

Não deve ser fácil carregar o peso da liberdade nas costas. Pedra fundamental da ideia do ser americano, a palavra se irradia com frequência por discursos (políticos e/ou publicitários) que eximem os Estados Unidos de ser mais um império colonizador aos moldes romanos. Guerras, torturas e, ainda mais irônico, fortes sistemas de vigilância são erguidos em nome dessa liberdade. Tudo isso para dizer que já na primeira cena do novo trabalho de James Gray, claro está que a retórica da liberdade (e não ela em si), aqui representada na clássica imagem da estátua que leva seu nome, é fio condutor dessa história. E com seus tons de sombra e pouca luz, Gray faz um filme avassalador sobre a claustrofobia dessa herança discursiva americana.

Ainda sobre a tomada inicial, nosso campo de visão é o mesmo do homem que vemos de costas, personagem de Joaquin Phoenix, aqui no papel de Bruno Weiss, um agenciador de prostitutas numa Nova York do começo dos anos 20. Ele observa ao longe o símbolo maior dessa terra onde a poética do direito de ir e vir soa como música aos ouvidos de europeus massacrados já pela Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, Bruno irá resgatar a presença dessa estátua – objeto inanimado congelado em pedra, tal como o conceito que ele mesmo representa – usando-a como armadura para a protagonista da história, Ewa, uma imigrante polonesa não menos que brilhantemente interpretada por Marion Cotillard. Continuar lendo

Twin Peaks, de David Lynch (por Laura Palmer)

Laura

Há dois anos, por ocasião da reexibição de Twin Peaks na TV por assinatura, fiz um texto para a revista Monet em nome de Laura Palmer, usando como base o estilo de narrativa publicado no livro que traz seus diários (O Diário Secreto de Laura Palmer, editora Globo). Com o aguardado lançamento da série inteira em blu-ray no próximo mês de julho, decidi rever esse texto aqui no blog.

Por Laura Palmer, em 2012.

Querido diário,

Já se vão mais de 22 anos desde que meu corpo foi encontrado nas águas geladas de Twin Peaks. Enrolada em plástico transparente, como um presente que precisa de embrulho especial para não quebrar no caminho. Não me queixo. Você bem sabe, diário, que esse desfecho seria tudo menos uma surpresa diante daquilo que sofri nos meus últimos anos de vida. Mas volto a te escrever, de algum lugar distante, para dizer que finalmente estou voltando.

Estou disposta a rever todas aquelas pessoas que, após a minha morte, revelaram suas verdadeiras faces. Rostos obscuros e obtusos de Twin Peaks, a cidade cujo silêncio nos enlouquece. Cuja loucura nos une. Sinto gratidão por ter tido essa história contada por alguém que, tal como você, querido diário, soube entender tão bem essa minha disfarçada sanidade de filha exemplar, aluna popular, namorada perfeita e amante devota. Sim, David Lynch, estou falando de você.

Continuar lendo

Praia do Futuro, de Karim Ainouz

praia do futuro 2

Dois dos mais famosos poemas brasileiros falam sobre os caminhos imaginados de quem quer partir e de quem, tendo partido, deseja a todo custo voltar. Manuel Bandeira projetava seu exílio numa Pasárgada idílica onde seria, sobretudo, amado. Gonçalves Dias, por sua vez, clama à uma deidade que sua morte não venha antes que ele possa pisar novamente na terra das palmeiras onde canta o sabiá. Sair ou voltar de onde se nasce, seja para dentro ou fora deste país, é um tema que persegue nossa consciência nacional. Faz parte de nosso capital cultural a sensação de estar simultaneamente arraigado e deslocado de sua terra. Transitamos entre.

É esse o lugar do novo filme de Karim Ainouz. Aqui, ele faz do meio do caminho o único caminho possível. Não estranhamente, essa história começa e se encerra com longos percursos de homens em cima de motos. Estamos diante da ausência de pessoas que parecem nunca saber exatamente onde estão porque o trajeto é um fim em si mesmo. Mas essa ausência, como diria outro poeta brasileiro, Drummond, não é falta. É um estar. Praia do Futuro é a presença latente do vácuo. Tudo que estar por vir é, na verdade, aquilo que já foi embora. O futuro de Karim é um ensaio sobre esse ato de esvaziar e a possibilidade de que, assim, tudo se preencha novamente. Tal como um mar que, na Alemanha, se seca em algum momento do dia. A água vai voltar, e o mar se refazer. Quanto aos homens, não necessariamente eles concluem esse ciclo.

Continuar lendo

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro

hj eu quero

Segurando na mão do outro, ele tenta ensinar que relevo é linguagem. Mas o outro, sem nunca ter sido negado à sua condição de quem enxerga, resiste: “É impossível”, diz. Não é. Impossível mesmo seria ele, um menino cego, andar de bicicleta. Essa cena de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho condensa várias das questões que o filme demarca dentro e fora dele mesmo. Dentro, porque estamos falando de uma história que naturaliza a poesia do improvável. Fora, porque nem o mais otimista dos produtores poderia imaginar que um filme sem elenco conhecido ou insumo publicitário da Globo Filmes pudesse estrear em 33 salas de 17 cidades brasileiras. O primeiro longa de Daniel Ribeiro é, portanto, esse menino cego cujo delírio de manobrar uma bicicleta se torna palpável. Vamos nos deixar então ser guiados por ele.

Baseado no premiado curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, o longa é uma experiência mais profunda nas camadas de euforia hormonal da adolescência quando ela se depara com a inevitável curva do primeiro amor. O argumento dos dois formatos é o mesmo: menino cego, incônscio de que sua melhor amiga é apaixonada por ele, se descobre atraído por um novo aluno do colégio. Naturalmente, o filme que chega agora aos cinemas vai lidar com questões mais abstratas e complexas desse despertar lírico. Entram em cena a relação do protagonista com os pais, os limites que lhe são imputados dada sua deficiência física, fronteiras da amizade e o bullying na escola. Molduras que enriquecem a questão central do filme: é possível dar contornos morais ao amor quando não se vê? O exercício de desenxergar aqui não é uma privação, mas sim uma livre abdicação de preconceitos.

Continuar lendo

Ela, de Spike Jonze

HER

Ela é um filme tão bom quanto um peça publicitária que te convence a precisar urgentemente de um produto não por aquilo que ele é, mas pelo que ele pode ajudar você a ser. Não digo com isso que se trata de um filme charlatão, ou mesmo um filme sem cinema dentro dele, até porque existem reais qualidades cinematográficas nessa história. Digo sim que se trata de um filme que se vende como uma fábula filosófica pronta para ser extensivamente debatida por colunas de opinião quando, na verdade, é uma fábula sobre os caminhos e processos que hoje levamos para debater essas questões pretensamente filosóficas engolidas como cápsulas de sabedoria instantânea. Ou seja, não são as questões, mas como – com que ritmo e estética – as perguntas são feitas.

É em elementos como o apartamento de decoração modulada, o escritório clean e o figurino e bigode hipster do protagonista que estão os verdadeiros debates desse novo trabalho de Spike Jonze. Para colocar na mesa temas como solidão, carência afetiva, conceito de amor e particularmente a crescente sensação de que não mais existimos fora do ambiente virtual, Jonze usa a mesmíssima moldura que adotam os cartazes hoje compartilhados pela timeline mais próxima de você. Tudo é agradável, limpo, às vezes até fofo, a luz tem com frequência um filtro nostálgico, mas, claro, uma nostalgia esterilizada pelo digital. É o futuro tal como ele foi desenhado pela Apple ou pelo Google Glass. Vejo mais conteúdo no uso dessa estética como mecanismo de linguagem das aflições contemporâneas que nas aflições por si sós, isoladas dessa moldura. Ela é, sobretudo, um filme-tipografia, um filme-design. E as verdadeiras questões surgem daí.

Continuar lendo

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

ninfo

Ao menos no que concerne aos 118 minutos de filme apresentados ao público nesse momento, não basta dizer que Ninfomaníaca é um trabalho moralista. Nem mesmo seria suficiente afirmar que esse moralismo transparece justamente numa história em que a protagonista mulher é, como o título sugere, viciada em sexo. A questão mais séria nesse primeiro capítulo do novo filme de Lars Von Trier é que em nenhum momento o sexo, isolado de qualquer valor social, é filmado pelo que deveria ser o elemento mais substancial e elementar na motivação de sua personagem central: o prazer. Restará a ele apenas a função de pecado.

Dessa forma, o que vemos na Ninfomaníaca que chega agora aos cinemas é um filme de pincéis católicos. Com direito mesmo a uma figura masculina representando o papel do confessor. Para falar de sexo, Lars Von Trier vai falar de culpa. Mais de dois mil anos de Cristianismo e parece que poucos conseguem se livrar dela. De qualquer forma, ainda assim não seria exatamente um problema para o filme ter a dita cuja no epicentro de sua narrativa. Mas é estupidamente perigoso não problematizá-la. Até porque, nesse campo, já se tem em abundância os falsos orgasmos hollywoodianos.

Continuar lendo

O Menino e o Mundo, de Alê Abreu

Menino_Mundo_08

Brinquedos coloridos como brinde de uma alimentação hidrogenada, crianças sendo usadas para fazer sorridentes propagandas de bancos, escolas que oferecem aos pais vigilância total de seus filhos, meninas de rosa e meninos de azul sendo criados atrás das grades de condomínios seguros. Nos muros, o murro. Não é fácil ser uma pequena pessoa em formação nesses dias de vitrines tinindo um mundo em que é preciso ter e trancar. E eis que diante de toda essa animosidade, Alê Abreu faz uma animação que nos enche de ar e de ideias. Como se fôssemos balões de hélio soltos na atmosfera, nessa alegria-airgela de entender que a nossa maior liberdade sempre será nossa consciência crítica. E sim, estou falando de um filme infantil.

Alê, que vem de um longo trabalho com animações (quatro curtas e um longa) sempre muito cientes e cronistas desse estado delicado de coisas e sistemas, nos entrega um filme nada menos que emocionante, com o perdão pela simplicidade da defesa. É que talvez os elogios precisem ser mesmo descomplicados para que possam ser consoantes com o filme em questão. Porque é no simples onde O Menino e o Mundo se torna requintado e grandioso. Faz isso partindo da história de um menino que foge de casa à procura de seu pai. Nesse caminho, vemos se descortinar a evolução de uma criança que vai achando ela mesma nessa busca pelo outro enquanto observa a alma do mundo adquirir uma estranha e gigante engenharia mecânica.

Continuar lendo

Pais e Filhos, de Hirokazu Koreeda

Pais e Filhos

Existem poucos diretores no mundo que sabem filmar crianças. Mas existem menos ainda aqueles que sabem entendê-las dentro desse comungado primeiro contexto social, a família. O japonês Hirokazu Koreeda não apenas está em ambas as seletas listas, como é certamente um dos diretores mais importantes da contemporânea cinematografia asiática graças a uma extraordinária consciência de que a imagem é sempre um recorte organicamente ideológico. Em Pais e Filhos, prêmio do Juri em Cannes este ano, Koreeda nos arrebata com um drama cujo grande ponto de virada é justamente a percepção desse recorte por um dos personagens do filme. Há alguém além do próprio diretor que está ali, registrando cenas. E quando um dos protagonistas, objeto desse registro, se nota nas imagens captadas por uma máquina fotográfica, ele finalmente entende a dimensão ideológica de sua representação.

O diretor volta neste filme ao que parece ser tema central em sua obra: a família em sua relação mais íntima de códigos, hábitos e condutas, tal como um dia fez Yasujirô Ozu em seu cinema. Mas ao contrário do mestre Ozu, Koreeda parece ser menos complacente às idiossincrasias familiares e certamente bem menos otimista. Em Pais e Filhos, existem duas famílias, cujos caminhos se cruzam depois que se descobre que houve uma troca de bebês no hospital. Os meninos trocados, agora com seis anos de idade, ainda não têm idade suficiente para fazer escolhas. Responsáveis por essas escolhas estão seus pais, colocados diante da difícil decisão de trocar, ou não, seus filhos.

Continuar lendo

A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

grande beleza

Muito se fala que o recente cinema grego e seus perturbados personagens não deixam de ser reflexos convexos da crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. E sendo a Grécia o grande baluarte de nossa civilização ocidental, o debate em torno do colapso financeiro, que não deixa de ser o colapso humano, se torna quase uma terapia coletiva sobre a qual precisamos nos debruçar. Mas eis que ali pertinho, a braçadas de Mediterrâneo, sem o espólio fatalista de Sócrates ou Platão, porém com o bizarro senso de humor herdado de imperadores incendiários e devassos, o berço da primeira hiperlativa hegemonia da humanidade nos traz um filme que fecha 2013 com a epítome de todas as crises que o Velho Continente esguicha hoje de seus bancos, comércio ou sala de jantar. E faz isso com uma comédia.

Quem assina por essa memorabilia dos tempos contemporâneos é o diretor Paolo Sorrentino, apresentando aqui o mais italiano de todos os seus filmes, incluindo aí o italianíssimo Il Divo. Italiano no sentido de usar a alienação e o delírio de seus personagens como fundamento crítico da humanidade tal como um dia fizeram, em diferentes medidas e registros, Fellini, Pasolini e Antonioni. La Dolce Vita, em particular, estará presente em várias referências. No papel do grande piadista, o espetacular Toni Servillo (o mesmo de Il Divo), como um escritor a viver das glórias de sucessos passados e a contemplar com alto grau de cinismo a geração do descarte: das imagens e das ideias anexas a essas imagens.

Continuar lendo