Twin Peaks, de David Lynch (por Laura Palmer)

Laura

Há dois anos, por ocasião da reexibição de Twin Peaks na TV por assinatura, fiz um texto para a revista Monet em nome de Laura Palmer, usando como base o estilo de narrativa publicado no livro que traz seus diários (O Diário Secreto de Laura Palmer, editora Globo). Com o aguardado lançamento da série inteira em blu-ray no próximo mês de julho, decidi rever esse texto aqui no blog.

Por Laura Palmer, em 2012.

Querido diário,

Já se vão mais de 22 anos desde que meu corpo foi encontrado nas águas geladas de Twin Peaks. Enrolada em plástico transparente, como um presente que precisa de embrulho especial para não quebrar no caminho. Não me queixo. Você bem sabe, diário, que esse desfecho seria tudo menos uma surpresa diante daquilo que sofri nos meus últimos anos de vida. Mas volto a te escrever, de algum lugar distante, para dizer que finalmente estou voltando.

Estou disposta a rever todas aquelas pessoas que, após a minha morte, revelaram suas verdadeiras faces. Rostos obscuros e obtusos de Twin Peaks, a cidade cujo silêncio nos enlouquece. Cuja loucura nos une. Sinto gratidão por ter tido essa história contada por alguém que, tal como você, querido diário, soube entender tão bem essa minha disfarçada sanidade de filha exemplar, aluna popular, namorada perfeita e amante devota. Sim, David Lynch, estou falando de você.

Você que, bem sei, está lendo estas páginas, conseguiu captar esse estado de delírio de todos que vivem de suas aparências. Nosso cotidiano e prosaico baile de máscaras. Sinto que, de alguma forma bastante pessoal, você me fez justiça com esse seu jeito onírico de contar a vida e, no meu caso, a morte das pessoas. Diante daquele cenário úmido e mofado de Twin Peaks, você conseguiu colocar a agulha na música certa do disco, em um som que para os destreinados soa como jazz, mas para nós, mentirosos, vai no embalo das melhores baladas de um bom show de striptease. Nessa dança em que a gente se despe das roupas, mas nunca mostra a cara.

Lynch, sei que até hoje ninguém conseguiu criar uma série tão apavorante e viciante como essa que você fez. E olha que, no pavor e no vício, eu fui muito cedo pós-graduada. Por isso mesmo, será muito bom voltar a rever a hipocrisia daqueles que, um dia, participaram da minha curta existência. E perceber que neles, também, o pavor e o vício fizeram alunos.

Como esquecer Donna, a minha “melhor amiga”, aquela que achava me conhecer tão bem, mas que no fundo terminou se tornando a imagem do molde em que eu não consegui me encaixar. Se eu tivesse preenchido minha função social de casar, reproduzir e cozinhar cookies tal como a mamãe fazia, estaria completando 40 anos no próximo dia 22 de julho. Tenho certeza de que Donna continuaria sendo minha “melhor amiga”, que íamos dividir receitas e que nossos filhos brincariam juntos no quintal. Mas eu abracei muito prematuramente o fogo e dele me tornei mais próxima. E você, Donna, foi ficando distante no retrovisor.

Bobby, querido Bobby. O namoradinho todo cheio de si, aguerrido em sua luta para ser sempre o mais popular, o rebelde sem causa. E, ainda assim, intempestivo e imprudente, foi você quem proferiu o mais sincero discurso no dia do meu enterro, ao revelar a hipocrisia dos nobres cidadãos de Twin Peaks, velando pela moça que, de ingênua, todos sabiam não ser mais. Espero que você e James tenham se entendido em algum ponto.

Também não posso deixar de mencionar minha querida Ronnette, a quem eu tanto desejei um dia e que, talvez por minha culpa, ou talvez por culpa desse Mal que existe em Twin Peaks, terminou sendo vítima do mesmo demônio que me abraçou. Com a diferença de que você sobreviveu. Sobreviveu para viver o trauma.

Será bom também rever a querida Maddy, prima tão atenciosa e infelizmente quase sempre tão longe. Vi que, após minha morte, você voltou à cidade. Sinto ter sido justamente a minha ausência que a trouxe para perto de mim. E Johnny, pobre Johnny, gostaria de ter dado mais atenção a você, tão louco e incapaz de cuidar de si próprio quanto de sua família, em especial de Audrey, sua irmã, que terminou se tornando uma versão piorada de mim mesma.

E, finalmente, Dale Cooper, o idiossincrático agente do FBI. Sim, é verdade que não chegamos a nos conhecer. Afinal de contas, sua chegada a Twin Peaks não exatamente coincidiu, mas foi de fato motivada pela minha morte e pelas investigações policiais que se desdobraram com ela. É uma pena que não tenhamos nos encontrado neste mundo concreto da realidade. Mas aqui, de onde estou, lembro com um sorriso de canto os furtivos encontros que tivemos em sonhos seus.

Dale, você deve saber, melhor que todos aqueles que conviveram comigo, que eu tentei ser boa. Ninguém pode negar que tentei. Mas havia sempre ele. É, BOB, eu NÃO quero falar de você.

SIM, VOCÊ QUER, LAURA. VOCÊ SABE QUE QUER.

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