Era uma Vez em Nova York, de James Gray

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Não deve ser fácil carregar o peso da liberdade nas costas. Pedra fundamental da ideia do ser americano, a palavra se irradia com frequência por discursos (políticos e/ou publicitários) que eximem os Estados Unidos de ser mais um império colonizador aos moldes romanos. Guerras, torturas e, ainda mais irônico, fortes sistemas de vigilância são erguidos em nome dessa liberdade. Tudo isso para dizer que já na primeira cena do novo trabalho de James Gray, claro está que a retórica da liberdade (e não ela em si), aqui representada na clássica imagem da estátua que leva seu nome, é fio condutor dessa história. E com seus tons de sombra e pouca luz, Gray faz um filme avassalador sobre a claustrofobia dessa herança discursiva americana.

Ainda sobre a tomada inicial, nosso campo de visão é o mesmo do homem que vemos de costas, personagem de Joaquin Phoenix, aqui no papel de Bruno Weiss, um agenciador de prostitutas numa Nova York do começo dos anos 20. Ele observa ao longe o símbolo maior dessa terra onde a poética do direito de ir e vir soa como música aos ouvidos de europeus massacrados já pela Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, Bruno irá resgatar a presença dessa estátua – objeto inanimado congelado em pedra, tal como o conceito que ele mesmo representa – usando-a como armadura para a protagonista da história, Ewa, uma imigrante polonesa não menos que brilhantemente interpretada por Marion Cotillard.

Em breves linhas, The Immigrant, que no Brasil recebeu o pueril título de Era uma Vez em Nova York (poxa gente, a tradução era tão simples), é o retorno do romantismo das grandes tragédias pessoais, com o bônus de não recorrer a muletas melodramáticas como uma narração em off ou intermináveis sequências de piano incidental. Ewa, a personagem de Cotillard, chega aos Estados Unidos acompanhada de sua irmã, que está doente. Em poucos minutos de solo americano, ela é abruptamente separada de sua irmã (colocada em quarentena), enviada a uma sala para ser deportada de volta à Europa e, finalmente, “comprada” pelo senhor Weiss, o bom samaritano que aparentemente se compadece de seu drama. Levada à residência que irá dividir com outras mulheres igualmente “ajudadas” por ele, Ewa começa sua saga para tentar resgatar a irmã do hospital para onde ela foi levada com pneumonia.

A partir daí, o filme fala dessa constante sensação de estranhamento de uma mulher que, além de sofrer todos os condicionamentos sociais de gênero (a puta, a adúltera), precisa refazer sua identidade em um país estrangeiro que não apenas lhe frustrou enquanto alternativa ao hostil ambiente de guerra, como a enclausurou em relações, seja com Bruno, seja com um mágico romanesco (Jeremy Renner), construídas para que se tire dela o direito fundamental da escolha. A força da personagem está tanto na luta por esse direito, quanto no fato de que, desejada por dois homens simultaneamente, ela escolhe a si própria. De uma ousadia sem tamanho para os padrões hollywoodianos.

É preciso entender que a construção dos três personagens centrais é criada mais pela ambiência que Gray dá às cenas, e aqui se pode dizer de fato que o que ele faz é mise en scène, usando dos espaços e seus enquadramentos para transformar o externo em interno. Se as atuações de Cotillard e Phoenix impressionam, isso se deve também ao fato de que Gray e a fotografia poética de Dariu Khondji sabem jogar a luz certa sobre seus personagens subterrâneos, criando novas camadas sobre a índole de cada um ao longo da história. Não coincidentemente, uma das sequências mais belas do filme acontece nos esgotos de Nova York, quando o personagem de Phoenix tenta se redimir de seus pecados ajudando Ewa a fugir da polícia. Na escassa luz desse ambiente Bruno Weiss se descortina mais um pouco. A sombra é elemento constituinte de alguma culpa que ele carrega.

Com seu quinto longa (quarto trabalhando com Joaquin Phoenix) em 20 anos, James Gray atinge a excelência de um diretor afeito aos tons mais escuros da paleta cromática dos personagens nova-iorquinos. The Immigrant tem peso de obra-prima e é importante que ele nasça de questões essenciais ao próprio cinema americano como essa imagem de um país “livre” que ele ajudou a construir e a objetificação da mulher em seu papel de brinde cedido ao mocinho. Sem mencionar que a cena final desse filme, uma prova da simultaneidade entre as coisas que vão e as que ficam, podia ser emoldurada e colocada em constante replay nas salas mais nobres de exposição da arte contemporânea. Apenas arrebatador.

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