Sem Pena, de Eugênio Puppo

Captura de Tela 2014-09-18 às 15.48.15

:: Especial – Festival de Brasília ::

É senso comum que o sistema carcerário do Brasil é espelho de um sem número de problemas sociais que cobrem desde a fundação da punição bíblica até as bases do capitalismo que louva o consumo sobrepujando o direito da propriedade diante dos direitos humanos. É também sabido que o tecido do judiciário brasileiro se transformou num nó de processos sinuosos em corredores burocráticos que transformam gente em estatística. Sem Pena é um filme que parte desse conhecimento mais ou menos compartilhado pela sociedade esclarecida e, a partir de uma tese sobre a falência moral desse sistema prisional, constrói uma pequena enciclopédia de depoimentos que ali estão para sublinhar e sustentar esse argumento. Trata-se, portanto, de um filme necessário e muito bem articulado em informar quem pouco conhece do tema, mas não exatamente de uma obra interessada em criar atritos éticos ou estéticos diante do cenário que filma.

O longa de Puppo tem uma estrutura narrativa simples e direta. Com depoimentos em off, ele filma imagens relacionadas à história de cada pessoa que dá seu testemunho ou emite sua opinião sobre, fundamentalmente, as injustiças que são salientes à crise carcerária brasileira. Temos, logo de cara, o depoimento de um homem que, com palavras bem afinadas e bastante próximas aos códigos discursivos da classe média, esclarece como aconteceu sua prisão por um crime que ele alega nunca ter cometido. Enquanto isso, vemos em tela pinturas de cores quentes, vivas, alegres. Pouco depois surge a voz de uma mulher que, com uma fala igualmente centrada e articulada, relata todo o seu imbróglio kafkiano com a ineficiência do papelório judicial. Em cena, infindáveis corredores de processos encaixotados.

Evidentes ou não, os ambientes de cada declaração, boa parte deles filmados como planos de detalhes estáticos, dizem respeito à natureza das questões e problemas dos entrevistados. A princípio, os depoentes nunca aparecem diante da câmera e muito menos são identificados. E o que se caminha para ser um das grandes cartas desse trabalho – o anonimato completo do lugar de fala – termina perdendo a força nos créditos finais com o nome e rosto dos entrevistados.

Entre um e outro relato, cenas de passagem com movimentos e uma trilha sonora estridente e dramática que pesa um pouco mais do que devia. Naturalmente, em função dos depoimentos que são quase todos muito ajustados, coerentes e esclarecedores, o longa acerta em seu objetivo de ir, ponto a ponto, explicando as origens e consequências desse sistema em colapso e faz isso entrevistando pessoas envolvidas em toda sua cadeia alimentar: presos, advogados, especialistas e mesmo filósofos que abrem questões mais amplas do tipo “o sentimento de vingança é a base funcional do capitalismo”. Novamente, bastante útil enquanto obra didática e confortável enquanto legitimação das certezas dos burgueses iluminados. Mas não deixa de passar uma certa sensação de que, pelo tema tão cabuloso com que lida, poderia dar um passo mais largo rumo a um espaço de conflito para além da tese.

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