Era uma vez Brasília, de Adirley Queirós (especial Janela de Cinema)

Era uma vez brasilia

Houve um tempo em que se planejavam bombas nos subsolos e se desenhavam estratégias de guerrilha no mapa, tempo em que se reivindicava um acerto de contas com os erros do passado para que se pudesse corrigir o futuro que já havia chegado, quando se queimavam documentos para despistar o Estado e seus homens fardados. Houve um tempo recente em que o cinema brasileiro estava comprometido em plantar essas pequenas grandes vinganças sobre a marginal Tietê (Riocorrente), sobre um apartamento na cobertura (O som ao redor), sobre os carros embaixo de uma passarela (Nova Dubai), sobre a mesa de uma imobiliária (Aquarius) e, claro, sobre os edifícios modernistas da capital federal (Branco sai preto fica). No mais novo filme de Adirley Queirós, esse tempo se dissolveu em um só estado de contemplação melancólica, estagnada e apática, que insiste em atravessar toda nossa história. Não há mais bombas ou pulsão por justiça, há somente um sentimento de derrota.

Dizer, no entanto, que Era uma vez Brasília é somente um filme do seu tempo e, no embalo, criar implicações de que o impacto das energias que ele contém estariam para sempre aprisionadas a um recorte histórico seria minimizar a potência das imagens que ele abre. Quando Adirley Queirós decide, mais uma vez, usar o próprio elemento do tempo – e as viagens possíveis de se fazer dentro dele, a partir da linguagem cinematográfica -, ele o faz ciente de que, para contar a própria história de Brasília e as implicações políticas contidas na ideia por trás dessa cidade, é preciso de largada questionar a própria linha evolutiva da história, colocar em xeque a ideia de que o futuro irá, em algum momento, vingar o passado, fazer derrubar o mito de que a própria História é uma ciência exata que observa o Tempo e joga sobre ele a luz da razão e da justiça.

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Entrevista: Adirley Queirós, diretor de Branco Sai Preto Fica

adirley

Fazia poucos dias que o diretor Adirley Queirós havia ganho o prêmio de Melhor Filme no Festival de Brasília com Branco Sai Preto Fica. Nos encontramos onde tudo foi filmado, na Ceilândia, periferia do Distrito Federal, para uma sessão de Cineclube em que o título do dia era Mad Max (1979), amplamente discutido pós-sessão por sua linguagem de filme de ação. Adirley se diz fascinado com essa linguagem. O cineasta que já foi um dia jogador de futebol profissional e hoje é uma das pessoas de maior articulação retórica para falar sobre o lugar do cinema feito na periferia, com as questões próprias do ser periférico, cede uma longa entrevista enquanto sentamos numa mesa de bar, depois de assistir a Mel Gibson em sua saga vingadora. As questões que ele coloca transcendem a Branco Sai Preto Fica e falam de cinema, memória narrativa, cooptação da periferia por grupos como o Fora do Eixo, desobediência civil e a negação dos espaços urbanos. Mas todas essas questões, absolutamente todas, estão dentro do filme. É preciso assistir Adirley e discutir com ele. Mais do que nunca. Eis uma tentativa:

O que tem te chamado atenção em documentários no cinema brasileiro?

Cara, eu gosto muito da cena paraibana, gosto do Ian Abé e de outros caras lá. Acho que eles tão lidando muito com essa ideia de cinema de gênero. Agora, de uma forma geral, tenho gostado de ver mais curta-metragens que longas. Acho que Brasília teve uma safra muito boa este ano (2014) de longas. Gostei muito do filme do Pedroso, o Ela Volta na Quinta, aliás, gostei de todos. Entre os curtas, acho que há uma diferença muito clara entre dois tipos. Existe o curta-metragista que tem filmes muito já fechados, com domínio narrativo muito grande, e tem filmes que são mais livres, não no sentido de livre do afeto, mas livre nas propostas, nas câmeras. E é engraçado que esses mais livres estão vindo de um certo lugar que chamam de centro. Gente como Lincoln Péricles, Renan Rovida, e tem um povo também do Rio de Janeiro, que não está no centro, no sentido de que essas pessoas não pegam os recursos maiores. Mas do que vejo mesmo hoje, aí são mais filmes antigos. Tou revendo muito filme de ação, vejo muito clássicos brasileiros tipo Lúcio Flávio.

Você acabou de fazer um filme que dialoga com a ficção científica. Há a pretensão de fazer um filme de gênero apenas?

Pretendo. Mas acho que, por enquanto, muito mais leio do que vejo filmes. Me empolga muito mais a literatura, às vezes, do que os filmes. Acho que dá pra explorar muito mais pela literatura que por uma referência fílmica. Pretendo fazer um filme 100% de ficção, que embarque totalmente no gênero, sem concessões, sem ficar explicando. Na verdade, esses filmes que eu faço que ficam ali no limite (do gênero) são também resultado de uma limitação orçamentária e uma limitação de edital. Ganho edital de documentário e, às vezes, tenho que tentar convencer as pessoas que o que faço é um documentário, caso contrário elas pedem o dinheiro de volta. O Branco Sai mesmo, se não houvesse a limitação do documentário no edital, eu já iria direto na proposta de narrativa de gênero. Mas ainda com essa proposta de liberdade dos atores, com a memória. A memória de pessoas que têm mais de 40 anos é a memória narrativa de filmes de ação. Porque os filmes que a gente via, e as histórias que ouvíamos eram todas narrativas, as músicas eram narrativas, o rap, clássicos da MPB, Geni. Acho que a memória passa por essa linha narrativa. Quero explorar a memória junto com o gênero. Não necessariamente fazer um filme como o Mad Max, mas explorando esses sistemas nossos.

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Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós

Branco Sai

:: Especial – Festival da Brasília ::
:: Especial – Mostra SP ::

–> ENTREVISTA DO BLOG COM ADIRLEY QUEIRÓS <–

Eventos de um mês qualquer em 2014 na Distopia Federativa do Brasil. Relatório 34560007 enviado ao futuro: Policial mata ambulante à queima-roupa, é filmado, e a população assiste à cena em seu celular enquanto estoura a pipoca no microondas. Famílias inteiras são despejadas de um edifício por um estado que protege o bem público apenas quando ele é privado. Na intenção de fazer comédia, emissora de TV veste mulheres negras com o manto escravocrata, chama menina branca racista de vítima e trata o único personagem sensato e plácido dessa narrativa, um jogador de futebol negro, como culpado.

Nenhuma dessas cenas está em Branco Sai, Preto Fica, novo filme de Adirley Queirós. Todas estão.

As camadas mais profundas de nosso inconsciente saliente nacional são aqui abertas com um corte transversal a revelar o que herdamos, e vamos deixar de herança, dessa terra em transe. O de cima sobe e o de baixo desce, diria o antropólogo Francisco de Assis França. Adirley entende bem o axioma e faz com ele um longa-metragem com uma consciência extraordinária, ora em grave, ora em agudo, desse presente mal-estar social. A partir de um evento real ocorrido nos anos 80, no baile de black music conhecido como Quarentão, então ponto cultural mais agitado da Ceilândia, Distrito Federal, o filme constrói uma fábula, ou se preferirem, uma ficção científica documental, que acompanha e cruza dois personagens diretamente afetados por uma batida policial dentro desse baile. Suas histórias apontam com precisão para uma reflexão sobre o direito à ocupação dos espaços nas cidades enquanto um direito humano negado diariamente em estádios de futebol, emissoras de TV, elevadores de serviço.

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