Era uma vez Brasília, de Adirley Queirós (especial Janela de Cinema)

Era uma vez brasilia

Houve um tempo em que se planejavam bombas nos subsolos e se desenhavam estratégias de guerrilha no mapa, tempo em que se reivindicava um acerto de contas com os erros do passado para que se pudesse corrigir o futuro que já havia chegado, quando se queimavam documentos para despistar o Estado e seus homens fardados. Houve um tempo recente em que o cinema brasileiro estava comprometido em plantar essas pequenas grandes vinganças sobre a marginal Tietê (Riocorrente), sobre um apartamento na cobertura (O som ao redor), sobre os carros embaixo de uma passarela (Nova Dubai), sobre a mesa de uma imobiliária (Aquarius) e, claro, sobre os edifícios modernistas da capital federal (Branco sai preto fica). No mais novo filme de Adirley Queirós, esse tempo se dissolveu em um só estado de contemplação melancólica, estagnada e apática, que insiste em atravessar toda nossa história. Não há mais bombas ou pulsão por justiça, há somente um sentimento de derrota.

Dizer, no entanto, que Era uma vez Brasília é somente um filme do seu tempo e, no embalo, criar implicações de que o impacto das energias que ele contém estariam para sempre aprisionadas a um recorte histórico seria minimizar a potência das imagens que ele abre. Quando Adirley Queirós decide, mais uma vez, usar o próprio elemento do tempo – e as viagens possíveis de se fazer dentro dele, a partir da linguagem cinematográfica -, ele o faz ciente de que, para contar a própria história de Brasília e as implicações políticas contidas na ideia por trás dessa cidade, é preciso de largada questionar a própria linha evolutiva da história, colocar em xeque a ideia de que o futuro irá, em algum momento, vingar o passado, fazer derrubar o mito de que a própria História é uma ciência exata que observa o Tempo e joga sobre ele a luz da razão e da justiça.

O terceiro longa de Adirley nasce, portanto, de uma frustração com esse discurso que, ainda que na chave da ironia, foi usado pelo próprio diretor em seus dois longas anteriores. Aqui não há mais a correção de narrativas marginais invisibilizadas no passado, como ele fez em A cidade é uma só? ou mesmo a tentativa de um elemento do futuro que volta no tempo para tentar mudar o curso das coisas como acontece em Branco sai preto fica. Em Era uma vez Brasília, o futuro não apenas já aconteceu como, surprise, surprise, ele esteve sempre entre nós. Brasília, a “capital do futuro”, para sempre nos lembrará que esse tempo vindouro está fadado ao fracasso de todas as implicações colonizadas e anacrônicas que estão atadas ao slogan de Juscelino Kubitschek e ao projeto de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

Não é coincidência, portanto, que na primeira parte do filme o diretor nos encerre dentro de uma nave espacial na forma de um carro velho, onde o piloto em questão está viajando à Terra Brasil com a missão de matar JK. A nave em questão balança tal como um ônibus lotado que transporta trabalhadores de volta pra casa depois de um dia exaustivo de expediente. WA4 (Wellington Abreu) fuma sem parar dentro desse minúsculo ambiente, deixando o ar rarefeito também para quem o assiste nessa jornada, uma que mais parece com a viagem no fim do dia entre Brasília e Ceilândia, quando a estrada fica coberta com a poeira que sobe quando os carros, para driblar o trânsito parado, pegam o acostamento de terra seca. A névoa do cigarro de WA4 vai tomando e domando o espaço, asfixiando a gente, deixando tudo turvo, cansativo, a ponto de esquecermos, junto com o próprio personagem, que ele em algum momento tinha uma missão redentora de matar um presidente. Nessa nave que se mexe, mas parece não sair do lugar, o protagonista resolve então colocar um pedaço de carne na chapa. Pra que fazer História se você pode fazer um churrasco?

Os momentos em que WA4 está preso nessa nave que parece ser feita de destroços se prologam em seu tempo dilatado com as sequências de outros dois personagens que se encontram numa passarela que passa por cima de linha de metrô (um que não transporta apenas trabalhadores, mas na mesma medida, prisioneiros do sistema). As figuras que ficam nessa passarela vendo o tempo e metrô passar são igualmente alienígenas ao Estado. Andreia, uma ex-presidiária, e Marquim, o rapper que usa uma máscara de soldador e anda numa cadeira de rodas, estão quase sempre ali, naquele entrelugar, paralisados, à espera de algo que não virá, não apenas porque eles estão à margem da História, mas porque essa História já não fala com ninguém.

Quando os discursos da então presidenta Dilma Rousseff, em sua defesa final contra o processo de seu impeachment, e de Michel Temer, no seu primeiro pronunciamento oficial como presidente do país, atravessam em off as imagens desses personagens enquanto eles olham para a paisagem de uma cidade deserta e noturna, é possível perceber e sentir como mesmo esses discursos politicamente opostos se tornaram achatados pelo tempo, a ponto de se tornarem igualmente distantes, anódinos, burocráticos, vozes que surgem na sala de cinema como se viessem de muito longe. Escutamos Dilma e Temer com a mesma apatia, desconforto e imobilidade.

A imobilidade é, aliás, o maior elemento cênico em jogo. O que não deixa de ser mais uma das pequenas desobediências de Adirley, subvertendo as regras de ação e movimento do próprio gênero cinematográfico ao qual ele se filia: o da ficção científica, muito inspirada em filmes-base da filmografia do diretor: Blade Runner e Mad Max. Portanto, para além de afirmar que pode fazer ficção científica sem orçamento para tanto, ele ainda reitera que vai fazer ficção científica sem movimento. Porque se em Branco sai preto fica havia uma crítica contundente ao Estado que, literalmente, tentava imobilizar os corpos de dois homens negros retirando o movimento de suas pernas, em Era uma vez Brasília o diretor traz essa sensação para o próprio corpo do filme.

Seja com a câmera dentro do carro (o carro-nave ou o carro que anda devagar pelas ruas não-calçadas de Ceilândia), seja com ela demoradamente filmando os personagens no exercício de contemplação desiludida – uma contemplação que inclui, também, a imagem dessas pessoas assistindo a um desses carros pegar fogo –, todos os enquadramentos e elementos de uma direção de arte brilhantemente fundada na estética da gambiarra (o steampunk da periferia) dão a ver o status imóvel da História, dos viajantes do tempo, dos carros. Os únicos movimentos que existem no filme são todos oscilatórios. O metrô que vai e vem. A nave que tem sempre o mesmo balanço. Os discursos que retornam. E mesmo a fotografia que pendula entre o azul e o alaranjado em uma elaborada construção de Joana Pimenta a nos prender nesse ambiente de poucos pontos de luz. Tudo nos faz sentir que passamos um filme inteiro aprisionados no mesmo lugar – uma sala de cinema, talvez.

O status de fábula implicado no próprio título do longa aparentemente o livra do regime do real, mas aqui há uma, intencional ou não, inversão de linguagem. Me parece que, à medida em que Adirley vai eliminando as operações documentais em seus longas, mais documental ele se torna. Em Era uma vez Brasília, tudo que sobrou desses procedimentos são as gravações dos discursos de Dilma e Temer. E, no entanto, no estado das coisas como estão dadas no ano de 2017 em que o filme começa a ser exibido, a sensação é que as imagens desses personagens que estão na mise-en-scène do filme têm mais peso de documento que as próprias vozes longínquas daquela presidenta deposta e daquele presidente ilegítimo. E se a fruição do filme é difícil e travada, se ele esgota, consome e nos deixa impacientes, é porque talvez ele seja o primeiro produto estético que consegue dar conta do deslocamento emocional que houve entre a vontade de explodir uma bomba e a conclusão de que essa bomba, tal como um grito de “fora temer”, pifou.

Anúncios

comente-me camaleoa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s