Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós

Branco Sai

:: Especial – Festival da Brasília ::
:: Especial – Mostra SP ::

–> ENTREVISTA DO BLOG COM ADIRLEY QUEIRÓS <–

Eventos de um mês qualquer em 2014 na Distopia Federativa do Brasil. Relatório 34560007 enviado ao futuro: Policial mata ambulante à queima-roupa, é filmado, e a população assiste à cena em seu celular enquanto estoura a pipoca no microondas. Famílias inteiras são despejadas de um edifício por um estado que protege o bem público apenas quando ele é privado. Na intenção de fazer comédia, emissora de TV veste mulheres negras com o manto escravocrata, chama menina branca racista de vítima e trata o único personagem sensato e plácido dessa narrativa, um jogador de futebol negro, como culpado.

Nenhuma dessas cenas está em Branco Sai, Preto Fica, novo filme de Adirley Queirós. Todas estão.

As camadas mais profundas de nosso inconsciente saliente nacional são aqui abertas com um corte transversal a revelar o que herdamos, e vamos deixar de herança, dessa terra em transe. O de cima sobe e o de baixo desce, diria o antropólogo Francisco de Assis França. Adirley entende bem o axioma e faz com ele um longa-metragem com uma consciência extraordinária, ora em grave, ora em agudo, desse presente mal-estar social. A partir de um evento real ocorrido nos anos 80, no baile de black music conhecido como Quarentão, então ponto cultural mais agitado da Ceilândia, Distrito Federal, o filme constrói uma fábula, ou se preferirem, uma ficção científica documental, que acompanha e cruza dois personagens diretamente afetados por uma batida policial dentro desse baile. Suas histórias apontam com precisão para uma reflexão sobre o direito à ocupação dos espaços nas cidades enquanto um direito humano negado diariamente em estádios de futebol, emissoras de TV, elevadores de serviço.

Continuar lendo

Brasil S/A, de Marcelo Pedroso

Captura de Tela 2014-09-19 às 16.03.26

:: Especial – Festival de Brasília ::

Em 2013, o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso apresentou o que era até aquele momento o seu trabalho politicamente mais contundente, o curta-metragem Em Trânsito. Nele, a imagem do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, era posta em cena como um agente de um projeto desenvolvimentista do país (e as acusações resvalavam também na presidenta Dilma Rousseff) onde os carros se tornavam protagonistas de uma sociedade à mercê da máquina. As Leis da Robótica de Isaac Assimov todas quebradas. Um ano depois, Pedroso conclui seu terceiro longa-metragem, uma ficção documental, ou documentário ficcional, lírica e trovadora que, de forma muito clara, expande os temas e as cenas de Em Trânsito. Brasil S/A, o filme sobre a história de um país que virou CNPJ, maximiza, aumenta o volume e sobe ainda mais a câmera para filmar em tons operísticos as sombras dessa zeitgeist nacional.

A sequência inicial, uma montagem épica sobre a chegada de um navio ao porto, de onde desembarcam tratores que são locomovidos por rodovias e nelas ficam escoltados pela polícia como se chefes de estado fossem, dá o tom epopeico e, claro, irônico e cínico, sendo esses últimos elementos uma constante na filmografia do diretor. Em helicópteros, gruas, trilhos e tripés, a câmera está sempre fixa e as sequências de imagens são, portanto, tão firmes e precisas quanto a própria ideia do desenvolvimento pujante da economia, essa entidade vigorosa e robusta. Sustentados por uma trilha sonora orquestrada, igualmente opulenta, esses movimentos de quadro vão buscar dar conta de vários elementos do passado, presente e futuro de um país escravocrata, sexista, classista, religioso, vertical e carrocrata. O personagem-eixo é um trabalhador do corte da cana que, em algum momento, se vê substituído por uma máquina e termina indo trabalhar como operador de um trator, o que na leitura burlesca do filme, é recodificado como um astronauta dentro de uma nave espacial.

Continuar lendo

Sem Coração, de Nara Normande e Tião

Captura de Tela 2014-09-19 às 08.07.25

:: Especial – Festival de Brasília ::

Com vista pro oceano, há uma piscina seca e abandonada. Essa imagem está no centro emotivo de Sem Coração, um filme sobre aquele momento da primeira vazão de água, quando o desabitado começa a ser preenchido pela liquidez das descobertas afetivas de adultos saindo dos seus casulos de crianças. Numa praia de Alagoas, uma menina que não tem coração se apaixona por um menino que acaba de descobrir a primeira aceleração de seu músculo cardíaco. Ela é o mar volumoso, ele a piscina vazia. E num ambiente de violências de gênero institucionalizadas, em que a mulher precisa ceder e o homem precisa invadir, esse filme é um dos contos mais lindos já vistos sobre o instante em que ela inunda ele.

Os elementos de descoberta e estranhamento estão por toda parte. Léo é da cidade, do fone de ouvido, dos prédios desenhados no reflexo da janela de um carro com ar condicionado. Numa viagem de férias à casa do primo, no litoral de “interior” onde o playground de condomínio se torna praia deserta, ele passa por rituais de iniciação da adolescência. Um deles consiste em levar uma menina, que pelo marca-passo que carrega no peito é conhecida como Sem Coração, para dentro dessa piscina abandonada onde ela é, na consensualidade violenta do machismo, silenciosamente penetrada pelos meninos da região. No instante em que Léo é intimado a cumprir com a mesma prática, algo de novo é trocado entre eles.

O elemento neorrealista das crianças locais que se tornam bons atores no curta – primeiro trabalho como preparadora de elenco da atriz Maeve Jinkings – anda de mãos dadas com uma poética da imagem que encerra nela mesma vários símbolos, muito presente no primeiro curta de Tião, Muro. Juntos, essas referências criam um álbum de fotografias. A presença física do filme em película é essencial a essa construção da materialidade da memória.

Premiado na Quinzena de Realizadores em Cannes deste ano, Sem Coração compartilha essas reminiscências de um período quase sempre traumático na vida de ex-meninas e meninos, e o faz com leveza de uma narrativa preocupada em dar ao ambiente suas marcações psicológicas, na porosidade de uma imagem granulada tal qual o desbotamento de nossas lembranças. E como na cena de uma baleia encalhada na areia, é um filme também sobre resistir até o final ao que a natureza impõe – a imagem da cicatriz no peito dela -, ao que os arquétipos sociais determinam – a impossibilidade de um beijo na boca dele – e ao que o tempo nos força – o esquecimento.

Sem Pena, de Eugênio Puppo

Captura de Tela 2014-09-18 às 15.48.15

:: Especial – Festival de Brasília ::

É senso comum que o sistema carcerário do Brasil é espelho de um sem número de problemas sociais que cobrem desde a fundação da punição bíblica até as bases do capitalismo que louva o consumo sobrepujando o direito da propriedade diante dos direitos humanos. É também sabido que o tecido do judiciário brasileiro se transformou num nó de processos sinuosos em corredores burocráticos que transformam gente em estatística. Sem Pena é um filme que parte desse conhecimento mais ou menos compartilhado pela sociedade esclarecida e, a partir de uma tese sobre a falência moral desse sistema prisional, constrói uma pequena enciclopédia de depoimentos que ali estão para sublinhar e sustentar esse argumento. Trata-se, portanto, de um filme necessário e muito bem articulado em informar quem pouco conhece do tema, mas não exatamente de uma obra interessada em criar atritos éticos ou estéticos diante do cenário que filma.

Continuar lendo

Loja de Répteis, de Pedro Severien

Loja de Repteis

:: Especial – Festival de Brasília ::

A literatura é pródiga nas metamorfoses que salientam a essência mais selvagem do ser humano. Já fomos baratas, lobos, macacos e, no Recife do cientista social Josué de Castro, já se foi (e ainda se é) caranguejo e gabiru. O cineasta Pedro Severien, herdeiro de um pulsar literário que nasceu mesmo antes do olhar cinematográfico, cria em seu novo filme uma identidade visual fantasmagórica à natureza dessa nossa constituição primitiva e totêmica. Como se o espectro desses animais assombrasse os ajustes sociais, muitas vezes, tão violentos quanto à luta pela caça do dia.

O fato desse curta, adaptado de um conto escrito pelo próprio Severien, escolher os répteis como os animais que representam aqui essa natureza selvagem do homem, diz bastante sobre que tipo de ser humano interessa ao debate do diretor. Bichos de epidermes espessas, visões mais apuradas no escuro e locomoção de rastejamento, os répteis costumam ser traduzidos nas chaves simbólicas da desfaçatez, da traição e dessa inércia própria de jacarés e cobras que simulam um estado de imobilidade (que nos seres humanos se transformam em amabilidade) antes de atacarem suas presas. Todos esses elementos terminam sendo usados para falar de um núcleo de pessoas que vive dentro dessa casa, por si só, delirante – e o incrível trabalho de fotografia e som no filme dá solidez a isso.

Na transformação de uma mulher, interpretada com toda a força cinematográfica que tem a atriz Maeve Jinkings, nesse réptil que aprisiona e é aprisionado, o filme cria uma parábola pós-moderna – com uma chuva fragmentada de símbolos, do azulejo colonial às câmeras de segurança – do viver enjaulado, sensação comum a todos nós que nascemos depois da criação da propriedade privada. Essa mutação está no corpo, e portanto também na lascívia, de uma mulher que com sua pele grossa domina e conquista o outro.

Sem se preocupar em ligar os pontos entre toda essa carga simbólica, Severien põe em xeque o limite sobre onde começam, terminam e se fundem os conflitos internos de seus personagens com os estímulos externos de uma cidade como o Recife que, assim como tantas outras, fincam sua identidade em seus fantasmas alegóricos. Qualquer relação com questões contemporâneas políticas da região não é mera coincidência.

Era uma Vez em Nova York, de James Gray

the-immigrant-3

Não deve ser fácil carregar o peso da liberdade nas costas. Pedra fundamental da ideia do ser americano, a palavra se irradia com frequência por discursos (políticos e/ou publicitários) que eximem os Estados Unidos de ser mais um império colonizador aos moldes romanos. Guerras, torturas e, ainda mais irônico, fortes sistemas de vigilância são erguidos em nome dessa liberdade. Tudo isso para dizer que já na primeira cena do novo trabalho de James Gray, claro está que a retórica da liberdade (e não ela em si), aqui representada na clássica imagem da estátua que leva seu nome, é fio condutor dessa história. E com seus tons de sombra e pouca luz, Gray faz um filme avassalador sobre a claustrofobia dessa herança discursiva americana.

Ainda sobre a tomada inicial, nosso campo de visão é o mesmo do homem que vemos de costas, personagem de Joaquin Phoenix, aqui no papel de Bruno Weiss, um agenciador de prostitutas numa Nova York do começo dos anos 20. Ele observa ao longe o símbolo maior dessa terra onde a poética do direito de ir e vir soa como música aos ouvidos de europeus massacrados já pela Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, Bruno irá resgatar a presença dessa estátua – objeto inanimado congelado em pedra, tal como o conceito que ele mesmo representa – usando-a como armadura para a protagonista da história, Ewa, uma imigrante polonesa não menos que brilhantemente interpretada por Marion Cotillard. Continuar lendo

Twin Peaks, de David Lynch (por Laura Palmer)

Laura

Há dois anos, por ocasião da reexibição de Twin Peaks na TV por assinatura, fiz um texto para a revista Monet em nome de Laura Palmer, usando como base o estilo de narrativa publicado no livro que traz seus diários (O Diário Secreto de Laura Palmer, editora Globo). Com o aguardado lançamento da série inteira em blu-ray no próximo mês de julho, decidi rever esse texto aqui no blog.

Por Laura Palmer, em 2012.

Querido diário,

Já se vão mais de 22 anos desde que meu corpo foi encontrado nas águas geladas de Twin Peaks. Enrolada em plástico transparente, como um presente que precisa de embrulho especial para não quebrar no caminho. Não me queixo. Você bem sabe, diário, que esse desfecho seria tudo menos uma surpresa diante daquilo que sofri nos meus últimos anos de vida. Mas volto a te escrever, de algum lugar distante, para dizer que finalmente estou voltando.

Estou disposta a rever todas aquelas pessoas que, após a minha morte, revelaram suas verdadeiras faces. Rostos obscuros e obtusos de Twin Peaks, a cidade cujo silêncio nos enlouquece. Cuja loucura nos une. Sinto gratidão por ter tido essa história contada por alguém que, tal como você, querido diário, soube entender tão bem essa minha disfarçada sanidade de filha exemplar, aluna popular, namorada perfeita e amante devota. Sim, David Lynch, estou falando de você.

Continuar lendo

Praia do Futuro, de Karim Ainouz

praia do futuro 2

Dois dos mais famosos poemas brasileiros falam sobre os caminhos imaginados de quem quer partir e de quem, tendo partido, deseja a todo custo voltar. Manuel Bandeira projetava seu exílio numa Pasárgada idílica onde seria, sobretudo, amado. Gonçalves Dias, por sua vez, clama à uma deidade que sua morte não venha antes que ele possa pisar novamente na terra das palmeiras onde canta o sabiá. Sair ou voltar de onde se nasce, seja para dentro ou fora deste país, é um tema que persegue nossa consciência nacional. Faz parte de nosso capital cultural a sensação de estar simultaneamente arraigado e deslocado de sua terra. Transitamos entre.

É esse o lugar do novo filme de Karim Ainouz. Aqui, ele faz do meio do caminho o único caminho possível. Não estranhamente, essa história começa e se encerra com longos percursos de homens em cima de motos. Estamos diante da ausência de pessoas que parecem nunca saber exatamente onde estão porque o trajeto é um fim em si mesmo. Mas essa ausência, como diria outro poeta brasileiro, Drummond, não é falta. É um estar. Praia do Futuro é a presença latente do vácuo. Tudo que estar por vir é, na verdade, aquilo que já foi embora. O futuro de Karim é um ensaio sobre esse ato de esvaziar e a possibilidade de que, assim, tudo se preencha novamente. Tal como um mar que, na Alemanha, se seca em algum momento do dia. A água vai voltar, e o mar se refazer. Quanto aos homens, não necessariamente eles concluem esse ciclo.

Continuar lendo

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro

hj eu quero

Segurando na mão do outro, ele tenta ensinar que relevo é linguagem. Mas o outro, sem nunca ter sido negado à sua condição de quem enxerga, resiste: “É impossível”, diz. Não é. Impossível mesmo seria ele, um menino cego, andar de bicicleta. Essa cena de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho condensa várias das questões que o filme demarca dentro e fora dele mesmo. Dentro, porque estamos falando de uma história que naturaliza a poesia do improvável. Fora, porque nem o mais otimista dos produtores poderia imaginar que um filme sem elenco conhecido ou insumo publicitário da Globo Filmes pudesse estrear em 33 salas de 17 cidades brasileiras. O primeiro longa de Daniel Ribeiro é, portanto, esse menino cego cujo delírio de manobrar uma bicicleta se torna palpável. Vamos nos deixar então ser guiados por ele.

Baseado no premiado curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, o longa é uma experiência mais profunda nas camadas de euforia hormonal da adolescência quando ela se depara com a inevitável curva do primeiro amor. O argumento dos dois formatos é o mesmo: menino cego, incônscio de que sua melhor amiga é apaixonada por ele, se descobre atraído por um novo aluno do colégio. Naturalmente, o filme que chega agora aos cinemas vai lidar com questões mais abstratas e complexas desse despertar lírico. Entram em cena a relação do protagonista com os pais, os limites que lhe são imputados dada sua deficiência física, fronteiras da amizade e o bullying na escola. Molduras que enriquecem a questão central do filme: é possível dar contornos morais ao amor quando não se vê? O exercício de desenxergar aqui não é uma privação, mas sim uma livre abdicação de preconceitos.

Continuar lendo

Ela, de Spike Jonze

HER

Ela é um filme tão bom quanto um peça publicitária que te convence a precisar urgentemente de um produto não por aquilo que ele é, mas pelo que ele pode ajudar você a ser. Não digo com isso que se trata de um filme charlatão, ou mesmo um filme sem cinema dentro dele, até porque existem reais qualidades cinematográficas nessa história. Digo sim que se trata de um filme que se vende como uma fábula filosófica pronta para ser extensivamente debatida por colunas de opinião quando, na verdade, é uma fábula sobre os caminhos e processos que hoje levamos para debater essas questões pretensamente filosóficas engolidas como cápsulas de sabedoria instantânea. Ou seja, não são as questões, mas como – com que ritmo e estética – as perguntas são feitas.

É em elementos como o apartamento de decoração modulada, o escritório clean e o figurino e bigode hipster do protagonista que estão os verdadeiros debates desse novo trabalho de Spike Jonze. Para colocar na mesa temas como solidão, carência afetiva, conceito de amor e particularmente a crescente sensação de que não mais existimos fora do ambiente virtual, Jonze usa a mesmíssima moldura que adotam os cartazes hoje compartilhados pela timeline mais próxima de você. Tudo é agradável, limpo, às vezes até fofo, a luz tem com frequência um filtro nostálgico, mas, claro, uma nostalgia esterilizada pelo digital. É o futuro tal como ele foi desenhado pela Apple ou pelo Google Glass. Vejo mais conteúdo no uso dessa estética como mecanismo de linguagem das aflições contemporâneas que nas aflições por si sós, isoladas dessa moldura. Ela é, sobretudo, um filme-tipografia, um filme-design. E as verdadeiras questões surgem daí.

Continuar lendo