Era uma Vez em Nova York, de James Gray

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Não deve ser fácil carregar o peso da liberdade nas costas. Pedra fundamental da ideia do ser americano, a palavra se irradia com frequência por discursos (políticos e/ou publicitários) que eximem os Estados Unidos de ser mais um império colonizador aos moldes romanos. Guerras, torturas e, ainda mais irônico, fortes sistemas de vigilância são erguidos em nome dessa liberdade. Tudo isso para dizer que já na primeira cena do novo trabalho de James Gray, claro está que a retórica da liberdade (e não ela em si), aqui representada na clássica imagem da estátua que leva seu nome, é fio condutor dessa história. E com seus tons de sombra e pouca luz, Gray faz um filme avassalador sobre a claustrofobia dessa herança discursiva americana.

Ainda sobre a tomada inicial, nosso campo de visão é o mesmo do homem que vemos de costas, personagem de Joaquin Phoenix, aqui no papel de Bruno Weiss, um agenciador de prostitutas numa Nova York do começo dos anos 20. Ele observa ao longe o símbolo maior dessa terra onde a poética do direito de ir e vir soa como música aos ouvidos de europeus massacrados já pela Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, Bruno irá resgatar a presença dessa estátua – objeto inanimado congelado em pedra, tal como o conceito que ele mesmo representa – usando-a como armadura para a protagonista da história, Ewa, uma imigrante polonesa não menos que brilhantemente interpretada por Marion Cotillard. Continuar lendo

Twin Peaks, de David Lynch (por Laura Palmer)

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Há dois anos, por ocasião da reexibição de Twin Peaks na TV por assinatura, fiz um texto para a revista Monet em nome de Laura Palmer, usando como base o estilo de narrativa publicado no livro que traz seus diários (O Diário Secreto de Laura Palmer, editora Globo). Com o aguardado lançamento da série inteira em blu-ray no próximo mês de julho, decidi rever esse texto aqui no blog.

Por Laura Palmer, em 2012.

Querido diário,

Já se vão mais de 22 anos desde que meu corpo foi encontrado nas águas geladas de Twin Peaks. Enrolada em plástico transparente, como um presente que precisa de embrulho especial para não quebrar no caminho. Não me queixo. Você bem sabe, diário, que esse desfecho seria tudo menos uma surpresa diante daquilo que sofri nos meus últimos anos de vida. Mas volto a te escrever, de algum lugar distante, para dizer que finalmente estou voltando.

Estou disposta a rever todas aquelas pessoas que, após a minha morte, revelaram suas verdadeiras faces. Rostos obscuros e obtusos de Twin Peaks, a cidade cujo silêncio nos enlouquece. Cuja loucura nos une. Sinto gratidão por ter tido essa história contada por alguém que, tal como você, querido diário, soube entender tão bem essa minha disfarçada sanidade de filha exemplar, aluna popular, namorada perfeita e amante devota. Sim, David Lynch, estou falando de você.

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Praia do Futuro, de Karim Ainouz

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Dois dos mais famosos poemas brasileiros falam sobre os caminhos imaginados de quem quer partir e de quem, tendo partido, deseja a todo custo voltar. Manuel Bandeira projetava seu exílio numa Pasárgada idílica onde seria, sobretudo, amado. Gonçalves Dias, por sua vez, clama à uma deidade que sua morte não venha antes que ele possa pisar novamente na terra das palmeiras onde canta o sabiá. Sair ou voltar de onde se nasce, seja para dentro ou fora deste país, é um tema que persegue nossa consciência nacional. Faz parte de nosso capital cultural a sensação de estar simultaneamente arraigado e deslocado de sua terra. Transitamos entre.

É esse o lugar do novo filme de Karim Ainouz. Aqui, ele faz do meio do caminho o único caminho possível. Não estranhamente, essa história começa e se encerra com longos percursos de homens em cima de motos. Estamos diante da ausência de pessoas que parecem nunca saber exatamente onde estão porque o trajeto é um fim em si mesmo. Mas essa ausência, como diria outro poeta brasileiro, Drummond, não é falta. É um estar. Praia do Futuro é a presença latente do vácuo. Tudo que estar por vir é, na verdade, aquilo que já foi embora. O futuro de Karim é um ensaio sobre esse ato de esvaziar e a possibilidade de que, assim, tudo se preencha novamente. Tal como um mar que, na Alemanha, se seca em algum momento do dia. A água vai voltar, e o mar se refazer. Quanto aos homens, não necessariamente eles concluem esse ciclo.

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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro

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Segurando na mão do outro, ele tenta ensinar que relevo é linguagem. Mas o outro, sem nunca ter sido negado à sua condição de quem enxerga, resiste: “É impossível”, diz. Não é. Impossível mesmo seria ele, um menino cego, andar de bicicleta. Essa cena de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho condensa várias das questões que o filme demarca dentro e fora dele mesmo. Dentro, porque estamos falando de uma história que naturaliza a poesia do improvável. Fora, porque nem o mais otimista dos produtores poderia imaginar que um filme sem elenco conhecido ou insumo publicitário da Globo Filmes pudesse estrear em 33 salas de 17 cidades brasileiras. O primeiro longa de Daniel Ribeiro é, portanto, esse menino cego cujo delírio de manobrar uma bicicleta se torna palpável. Vamos nos deixar então ser guiados por ele.

Baseado no premiado curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, o longa é uma experiência mais profunda nas camadas de euforia hormonal da adolescência quando ela se depara com a inevitável curva do primeiro amor. O argumento dos dois formatos é o mesmo: menino cego, incônscio de que sua melhor amiga é apaixonada por ele, se descobre atraído por um novo aluno do colégio. Naturalmente, o filme que chega agora aos cinemas vai lidar com questões mais abstratas e complexas desse despertar lírico. Entram em cena a relação do protagonista com os pais, os limites que lhe são imputados dada sua deficiência física, fronteiras da amizade e o bullying na escola. Molduras que enriquecem a questão central do filme: é possível dar contornos morais ao amor quando não se vê? O exercício de desenxergar aqui não é uma privação, mas sim uma livre abdicação de preconceitos.

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Ela, de Spike Jonze

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Ela é um filme tão bom quanto um peça publicitária que te convence a precisar urgentemente de um produto não por aquilo que ele é, mas pelo que ele pode ajudar você a ser. Não digo com isso que se trata de um filme charlatão, ou mesmo um filme sem cinema dentro dele, até porque existem reais qualidades cinematográficas nessa história. Digo sim que se trata de um filme que se vende como uma fábula filosófica pronta para ser extensivamente debatida por colunas de opinião quando, na verdade, é uma fábula sobre os caminhos e processos que hoje levamos para debater essas questões pretensamente filosóficas engolidas como cápsulas de sabedoria instantânea. Ou seja, não são as questões, mas como – com que ritmo e estética – as perguntas são feitas.

É em elementos como o apartamento de decoração modulada, o escritório clean e o figurino e bigode hipster do protagonista que estão os verdadeiros debates desse novo trabalho de Spike Jonze. Para colocar na mesa temas como solidão, carência afetiva, conceito de amor e particularmente a crescente sensação de que não mais existimos fora do ambiente virtual, Jonze usa a mesmíssima moldura que adotam os cartazes hoje compartilhados pela timeline mais próxima de você. Tudo é agradável, limpo, às vezes até fofo, a luz tem com frequência um filtro nostálgico, mas, claro, uma nostalgia esterilizada pelo digital. É o futuro tal como ele foi desenhado pela Apple ou pelo Google Glass. Vejo mais conteúdo no uso dessa estética como mecanismo de linguagem das aflições contemporâneas que nas aflições por si sós, isoladas dessa moldura. Ela é, sobretudo, um filme-tipografia, um filme-design. E as verdadeiras questões surgem daí.

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Entrevista: Alê Abreu (O Menino e o Mundo)

O menino

O Menino e o Mundo pode ser um filme triste que te enche de alegria. Ou um filme alegre que te enche de tristeza. Em ambos os casos, essa é uma animação que, entre sentimentos conflitantes, quer falar sobretudo sobre coragem. Sobre um menino que, impávido pequeno, desbrava o mundo para achar a si próprio. Em entrevista com Alê Abreu, descubro então que essa impetuosidade está no cerne do processo em que a animação foi construída. Com um roteiro completamente aberto, se adequando às descobertas de um diretor predisposto ao erro, a “dar com a cara no muro”. Esse arriscado processo, no entanto, explica por que esse é um filme com todas as qualidades da excelência. Feito com cerca de R$ 2 milhões, o novo trabalho de Alê Abreu mostra que novos caminhos são possíveis para a animação no Brasil e, se o povo lá fora estiver atento, no mundo. Confira a conversa:

Você tem um trabalho de animação que, com muita frequência, aborda questões sociais: fala de capitalismo, de aprisionamento… Isso é algo calculado?

Faço dos meus trabalhos um exercício de me colocar na roda com questões que vão surgindo e que vão revelar outras tantas questões. Tento relacionar toda essa confusão que está na minha cabeça da maneira mais sincera e entregue possível. O Menino e o Mundo foi o trabalho que consegui melhor exercitar esse processo. E o que se revela no filme é muito mais relacionado a esse processo do que qualquer ideologia. Muito embora, o próprio processo de trabalho seja, ele mesmo, um pouco ideológico. Meu processo é muito em cima de criar teses e antíteses que trazem sínteses que vão entrar na roda de novo.

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Eduardo Coutinho, para ver e rever. Sempre.

Para que a fumaça dos cigarros que Eduardo Coutinho fumava sem concessões continue a passar diante da gente. Pulmão para o mundo, ele tinha. Para lembrar que olhar não é um verbo que se encerra em si. Exige se desfazer de todos os preconceitos que a imagem finge nos entregar de mão beijada. E se o cinema não é esse exercício, não saberia dizer o que ele é.

Cabra Marcado pra Morrer, 1984

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Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

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Ao menos no que concerne aos 118 minutos de filme apresentados ao público nesse momento, não basta dizer que Ninfomaníaca é um trabalho moralista. Nem mesmo seria suficiente afirmar que esse moralismo transparece justamente numa história em que a protagonista mulher é, como o título sugere, viciada em sexo. A questão mais séria nesse primeiro capítulo do novo filme de Lars Von Trier é que em nenhum momento o sexo, isolado de qualquer valor social, é filmado pelo que deveria ser o elemento mais substancial e elementar na motivação de sua personagem central: o prazer. Restará a ele apenas a função de pecado.

Dessa forma, o que vemos na Ninfomaníaca que chega agora aos cinemas é um filme de pincéis católicos. Com direito mesmo a uma figura masculina representando o papel do confessor. Para falar de sexo, Lars Von Trier vai falar de culpa. Mais de dois mil anos de Cristianismo e parece que poucos conseguem se livrar dela. De qualquer forma, ainda assim não seria exatamente um problema para o filme ter a dita cuja no epicentro de sua narrativa. Mas é estupidamente perigoso não problematizá-la. Até porque, nesse campo, já se tem em abundância os falsos orgasmos hollywoodianos.

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O Menino e o Mundo, de Alê Abreu

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Brinquedos coloridos como brinde de uma alimentação hidrogenada, crianças sendo usadas para fazer sorridentes propagandas de bancos, escolas que oferecem aos pais vigilância total de seus filhos, meninas de rosa e meninos de azul sendo criados atrás das grades de condomínios seguros. Nos muros, o murro. Não é fácil ser uma pequena pessoa em formação nesses dias de vitrines tinindo um mundo em que é preciso ter e trancar. E eis que diante de toda essa animosidade, Alê Abreu faz uma animação que nos enche de ar e de ideias. Como se fôssemos balões de hélio soltos na atmosfera, nessa alegria-airgela de entender que a nossa maior liberdade sempre será nossa consciência crítica. E sim, estou falando de um filme infantil.

Alê, que vem de um longo trabalho com animações (quatro curtas e um longa) sempre muito cientes e cronistas desse estado delicado de coisas e sistemas, nos entrega um filme nada menos que emocionante, com o perdão pela simplicidade da defesa. É que talvez os elogios precisem ser mesmo descomplicados para que possam ser consoantes com o filme em questão. Porque é no simples onde O Menino e o Mundo se torna requintado e grandioso. Faz isso partindo da história de um menino que foge de casa à procura de seu pai. Nesse caminho, vemos se descortinar a evolução de uma criança que vai achando ela mesma nessa busca pelo outro enquanto observa a alma do mundo adquirir uma estranha e gigante engenharia mecânica.

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Pais e Filhos, de Hirokazu Koreeda

Pais e Filhos

Existem poucos diretores no mundo que sabem filmar crianças. Mas existem menos ainda aqueles que sabem entendê-las dentro desse comungado primeiro contexto social, a família. O japonês Hirokazu Koreeda não apenas está em ambas as seletas listas, como é certamente um dos diretores mais importantes da contemporânea cinematografia asiática graças a uma extraordinária consciência de que a imagem é sempre um recorte organicamente ideológico. Em Pais e Filhos, prêmio do Juri em Cannes este ano, Koreeda nos arrebata com um drama cujo grande ponto de virada é justamente a percepção desse recorte por um dos personagens do filme. Há alguém além do próprio diretor que está ali, registrando cenas. E quando um dos protagonistas, objeto desse registro, se nota nas imagens captadas por uma máquina fotográfica, ele finalmente entende a dimensão ideológica de sua representação.

O diretor volta neste filme ao que parece ser tema central em sua obra: a família em sua relação mais íntima de códigos, hábitos e condutas, tal como um dia fez Yasujirô Ozu em seu cinema. Mas ao contrário do mestre Ozu, Koreeda parece ser menos complacente às idiossincrasias familiares e certamente bem menos otimista. Em Pais e Filhos, existem duas famílias, cujos caminhos se cruzam depois que se descobre que houve uma troca de bebês no hospital. Os meninos trocados, agora com seis anos de idade, ainda não têm idade suficiente para fazer escolhas. Responsáveis por essas escolhas estão seus pais, colocados diante da difícil decisão de trocar, ou não, seus filhos.

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