Entrevista: Hilton Lacerda (Tatuagem)

Hilton

Tive a oportunidade de entrevistar este mês Hilton Lacerda que, no próximo dia 15 de novembro, faz sua estreia no circuito comercial brasileiro com seu primeiro trabalho de direção em ficção. Estamos falando de Tatuagem, filme que precisa ser visto, revisto e discutido. Tentando colaborar com esse debate, segue a conversa que tivemos:

Havia uma ideia inicial de em fazer um documentário sobre o Vivencial antes de pensar em Tatuagem? Procede?

Não exatamente. Eu tinha começado a ler Orgia, do Tulio Carella, e tinha chegado a falar até com Irandhir sobre como seria fazer um peça inspirada no livro. E aí numa conversa com João Silvério Trevisan, a gente era vizinho nessa época, ele me perguntou por que eu não fazia um filme sobre o Vivencial. Nessa época eu pensava eu fazer um filme com o Jomard (Muniz de Brito). E foi engraçado porque tinha um monte de histórias que eu estava construindo pro filme do Jomard que se eu nucleasse aquilo dentro dessa ideia de teatro que o Vivencial tinha, esse monte de ideias confluíam.

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3X3D, de Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard

3x3d

:: Filme na programação da Mostra SP ::

E aquela articulação entre tempo e espaço, por onde anda essa velha amiga? É a pergunta que Godard se faz naquele que, de longe, é o melhor entre os três curtas a criar ensaios sobre o cinema 3D, suas possibilidades, limites e, acima de tudo, como bem pontuaria o sempre anarquista diretor francês, a “ditadura do digital” que se ergue no horizonte.

Narrado pelo próprio Godard (e ele aparece brevemente em um superclose nervoso), o curta parece ser um aperitivo do que vem aí no próximo filme do diretor, filmado em 3D: Adieu au Langage. Em bom português: Adeus à Linguagem. Não precisa dizer que Os Três Desastres, nome de seu mais recente experimento, se faz de um discurso apocalíptico que prenuncia um cinema 2D relegado, fisicamente e metaforicamente, à sombra.

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Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes

Depois da Chuva

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Ao revisitar a vida privada da senhora História, uma produção bem recente do cinema nacional tem revelado questões muito íntimas sobre o corpo político brasileiro diante do espelho. E está fazendo isso de um jeito tão confortável em sua reflexão que chega a ser curioso como qualquer cenário e qualquer tempo se torna o cenário e o tempo de agora, deste preciso momento. Quase tudo pode ser contemporaneizado. Nesse contexto, Depois da Chuva chega a ser um prolongamento do debate que surge (ainda que bem mais debochadamente) em Tatuagem, de Hilton Lacerda, no que diz respeito a olhar a política pelas lentes do homem e o homem pelas lentes da política.

Sem mais comparações, estamos diante de um filme vivo em várias das questões que põe sobre a mesa. Neste caso, as mesas de uma sala de aula de alguma escola particular de Salvador, onde meninos brancos de classe média emulam relações de poder que estreitam com ironia a dinâmica entre um grêmio estudantil e qualquer estrutura do poder executivo federal. No entanto, mais vivo ele seria se tivesse cuidado maior em estabelecer não apenas o peso dos personagens em cena, como a fluência das ações previstas no roteiro. Depois da Chuva tem vários momentos incríveis que, de uma hora pra outra, com um corte, perdem força e ritmo.

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Habi, a Estrangeira, de María Florencia Alvarez

Habi

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Em seu primeiro longa-metragem, a argentina María Florencia Alvarez faz um recorte de uma Buenos Aires que desconhecemos e nos apresenta um argumento interessante sobre uma menina em busca de sua própria identidade a partir de uma comunidade muçulmana. Mas os méritos do filme estacionam aí. Existe uma apatia emocional da personagem-título que contamina a história. Os conflitos que surgem nela não convencem, suas questões sobre o mundo parecem estar sempre dormentes. E o fato da personagem ser naturalmente introspectiva não exime o roteiro em achar alguma solução dramática para que embarquemos no caminho e nas dúvidas da protagonista.

Co-produção Argentina/Brasil (com dedo de Walter Salles), o filme acompanha a trajetória de Analía, uma menina de interior que, ao fazer uma entrega em Buenos Aires de uma peças de artesanato confeccionadas por sua mãe, termina conhecendo a tal comunidade muçulmana e, por aparente falta de pertencimento a qualquer ambiente ou ideia, decide se integrar àquele grupo. Aluga um quarto de uma pousada e adota o nome de uma menina desaparecida (nome que ela vê em um cartaz colado na casa onde terá aulas de árabe e de religião, uma decisão que já me parece um problema sério do roteiro).

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Riocorrente, de Paulo Sacramento

riocorrente

:: Filme na programação da Mostra SP ::

“Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Tem lugar melhor do que este? Tem momento melhor do que agora?”

Riocorrente não é apenas um filme, é também um coquetel molotov. Um que explodiu, partiu o cenário ao redor e me deixou a pergunta: ainda é possível colar os tais caquinhos do velho mundo? Não sei responder, e acho que o filme não procura essa resposta. O que ele quer mesmo é provocar a angústia, o incômodo, nos tirar do lugar do conforto de que as coisas são como são. De que o sistema vai se autogerir sem fissuras ou gritos.

Nesse sentido, Paulo Sacramento faz uma obra tão profética que dá até medo. Quando este filme começou a ser feito, não havia pessoas com cartazes ou máscaras nas ruas das grandes cidades do país, não havia black bloc ou os “baderneiros” e “vândalos” da Globo News. Não que o filme seja sobre isso, até porque não é. Mas em sua montagem muito bem orquestrada sobre essa violência represada com tudo que nos gerencia – do amor ao emprego, do relógio ao trânsito – ele alimenta um mal-estar que só pode mesmo acabar em incêndio.

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O Grande Mestre, de Wong Kar-Wai

Grande Mestre

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Kung-fu, arte marcial de duas palavras que, na teoria do protagonista deste filme, criam uma oposição binária. Uma é horizontal. A outra vertical. Em outros termos, quem perde cai. Quem ganha se mantém de pé. O que acontece então se na luta do kung-fu os opostos se atraem? Como fazer deitar seu inimigo se em algum momento você se dá conta de que quer apenas se deitar ao seu lado? Ou que, de pé, deseje erguê-lo para que juntos vocês caminhem para o mesmo lugar?

Quando usa das artes marciais, das guerras e de personagens que realmente existiram, Wong Kar-Wai só quer mesmo falar de amor e, para fazer jus à sua filmografia, será desses tipos de amor impossível. O diretor chinês volta ao cinema seis anos depois de seu último filme em mais uma elegante, e agora também epopeica, operística e neoclássica história entre um homem e uma mulher que se apaixonam. E aqui isso acontece quando eles decidem lutar entre si. O embate de seus corpos será na mesma medida o encaixe deles.

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A Mulher do Policial, de Philip Groening

Mulher do Policial

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Pretensioso, enervante e, sim, misógino. Com vocês, o vencedor do Prêmio do Júri em Veneza deste ano. Um filme cujos poucos respiros de câmera não apenas parecem canonizar plasticamente a violência contra a mulher e, por tabela, a absoluta subserviência da figura feminina, como o faz achando que fatiando a narrativa em 59 minúsculas fatias de cenas – Fluência dramática? Pra que? – sua forma poderia ser tão violenta com o público quanto a história é com a tal mulher do policial. Termina que ambos, meio e mensagem, se afogam na presunção de tentar apresentar algo novo.

Para deixar claro: os já citados 59 “capítulos” são todos introduzidos e finalizados com fades e duas legendas entre cada: Fim do capítulo 1, Começo do capítulo 2… E assim por diante em 175 minutos de filme. Alguns desses capítulos registram apenas cenários. A geografia apresentada, seja na floresta ou nas organizadas casas de tijolo aparente, se pretende tão idílica quanto a família do policial, sua mulher e a filha pequena, Clara. Até que no capítulo 9 entendemos que o jovem policial não é exatamente o rapaz da propaganda de margarina.

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Lukas, o Estranho, de John Torres + O Foguete, de Kim Mordaunt

lukas

Cena de Lukas, o Estranho

:: Filmes na programação da Mostra SP ::

Tomei a licença de juntar esses dois títulos em um mesmo texto porque eles não poderiam ser mais diferentes entre si ao tratar basicamente de um mesmo personagem central: menino de algum ermo ecossistema rural a quem se atribui poderes sobrenaturais, construídos socialmente por lendas e folclores de suas respectivas comunidades. Com esse protagonista em comum temos dois cinemas de polos opostos.

A começar por Lukas. É um desses filmes que dá vontade de assistir com um retrovisor do lado. Para acompanhar simultaneamente o que se passa na tela e a imediata reação daquilo no público que está ali atrás de você. Vou começar então pela imagem que “ouvi” lá de trás: impacientes pernas cruzando e descruzando, pessoas mudando de posição na cadeira, suspiros, passos de gente saindo da sala e, por fim, com os créditos subindo, comentários recheados de palavras que sua mãe não lhe ensinou. Naturalmente há exceções, mas estou tentando dar conta da “zeitgeist” da sala como um todo. Aliás, nessa audição, é preciso dar crédito ao próprio som da sala, muito abaixo do volume normal, o que possibilitou uma participação maior dos ruídos externos.

Agora, a imagem que vi na minha frente: fotografia lavada, às vezes fora de foco, estouradas, cenas de filmes antigos e corroídos, homens e mulheres que de perto ou de longe se enquadram em cenários distantes. Escutamos a voz de uma mulher por todo o filme. No começo, ela promete contar como as coisas aconteceram: das razões por que o homem deixou sua família, do motivo pelo qual a mulher ficou tão triste e o que havia na caixa que cruzou o rio. Ela quer contar essas histórias pra Lukas, mas precisa fazer isso de um jeito que ele nunca se esqueça delas.

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A Garota do 14 de Julho, de Antonin Peretjatko

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:: Filme na programação da Mostra SP ::

O primeiro longa-metragem de Antonin Peretjatko é um petardo de gás hilariante que vai cair no seu colo no início, meio e fim da sessão. Absurdo, nonsense, apaixonado, acelerado, nouvelle vague. Se todas essas palavras couberem num liquidificador, então é essa daí a vitamina do dia.

Aliás, referências não faltam nessa comédia que passou pela Quinzena de Realizadores em Cannes deste ano. Achamos no caminho não apenas as moças de Godard, mas aqueles personagens de uma ingenuidade louca presentes nos filmes dos irmãos Zucker (mais conhecidos por Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu e pela franquia Todo Mundo em Pânico). Tem espaço até pro DeLorean de De Volta para o Futuro.

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Grand Central, de Rebecca Zlotowski

Grand Central

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Ele é novo na região. Ao lado de outros jovens com formação escolar precária, conseguiu emprego numa usina nuclear francesa. As pessoas se preocupam com a radiação. E numa noite para que todos compartilhem uma cerveja e brindem o começo de um dos trabalhos mais insalubres entre todos os ofícios, ela surge. A desconhecida o puxa da cadeira, lhe dá um beijo e diz algo mais ou menos assim: “Você sentiu tudo aí. O coração acelerado, as pernas tremendo, a visão turva. Isso é a radiação”.

E pronto, claro está que Rebecca Zlotowski quer fazer um paralelo entre o amor e a contaminação química do corpo. São em igual medida o “inimigo invisível”. Mas como não bastasse apenas essa frase, a diretora pesa a mão ao deixar pistas demais ao longo do filme sobre sua tese. Esquecendo que, para bom entendedor, apenas um beijo basta.

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