Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes

Depois da Chuva

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Ao revisitar a vida privada da senhora História, uma produção bem recente do cinema nacional tem revelado questões muito íntimas sobre o corpo político brasileiro diante do espelho. E está fazendo isso de um jeito tão confortável em sua reflexão que chega a ser curioso como qualquer cenário e qualquer tempo se torna o cenário e o tempo de agora, deste preciso momento. Quase tudo pode ser contemporaneizado. Nesse contexto, Depois da Chuva chega a ser um prolongamento do debate que surge (ainda que bem mais debochadamente) em Tatuagem, de Hilton Lacerda, no que diz respeito a olhar a política pelas lentes do homem e o homem pelas lentes da política.

Sem mais comparações, estamos diante de um filme vivo em várias das questões que põe sobre a mesa. Neste caso, as mesas de uma sala de aula de alguma escola particular de Salvador, onde meninos brancos de classe média emulam relações de poder que estreitam com ironia a dinâmica entre um grêmio estudantil e qualquer estrutura do poder executivo federal. No entanto, mais vivo ele seria se tivesse cuidado maior em estabelecer não apenas o peso dos personagens em cena, como a fluência das ações previstas no roteiro. Depois da Chuva tem vários momentos incríveis que, de uma hora pra outra, com um corte, perdem força e ritmo.

Estamos em 1984 e não se fala em outra coisa senão das Diretas Já. A primeira cena deixa claro o tempo e seu recorte social: numa sala de aula, alunos discutem os termos de criação do já citado grêmio e cria-se uma discussão sobre o voto direto. Debates interessantes surgem e após ir pra lá e pra cá mostrando quem é quem entre esses meninos, a câmera vai atrás de Caio, um jovem que diante de todo aquele impasse político e de suas convicções anarquistas, diz apenas o seguinte: “Votem nulo. Não me matem de tédio”.

Uma vez centrado em Caio, o filme o mostra em seus dois outros habitats naturais: a casa onde mora sozinho com a mãe divorciada e as ruas, livrarias e lugares abandonados onde divide ideias e esperanças com dois outros anarquistas: um rapaz pouco mais velho e uma moça. Essa ligação com dois personagens externos à escola é uma decisão que vai custar ao filme algumas soluções perigosas. Se em um primeiro momento eles parecem cruciais ao desenvolvimento da história, pouco depois são negligenciados em nome da construção de relação entre Caio e seu interesse romântico na escola. Fica a sensação que foram feitas algumas deliberações de última hora na montagem e que elas terminaram por cortar o peso de alguns personagens que, pelo desfecho do filme, pareciam ser mais importantes no roteiro que na edição final.

De qualquer forma, não deixa de ser um filme feliz por todas as ideias apresentadas e particularmente pela construção desse protagonista. Aliás, é preciso dizer que o jovem Pedro Maia, vencedor do prêmio de Melhor Ator em Brasília este ano, é alguém a se ficar de olho. Sua habilidade em ir daquela orgulhosa apatia adolescente ao punk vestido de mulher cantando Nelson Gonçalves como se fosse John Lydon é uma delícia de acompanhar. Pedro segura bem o filme inteiro.

Errando aqui e acertando ali, eis mais um trabalho importante para discutirmos o ser político que no Brasil de ontem, hoje e amanhã é cada vez mais de agora. Fica a sensação de que Cláudio Marques e Marília Hughes tentaram seguir os conselhos libertários de seus personagens quando eles sancionam “sejamos racionais, façamos o impossível” e procuraram construir uma teia de narrativas que, algumas mais fortes e outras nem tanto, chegam sempre ao mesmo lugar de desconforto do Brasil com ele mesmo. De gente que depois da tempestade da ditadura, não necessariamente viu o sol surgir no horizonte.

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