O Grande Mestre, de Wong Kar-Wai

Grande Mestre

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Kung-fu, arte marcial de duas palavras que, na teoria do protagonista deste filme, criam uma oposição binária. Uma é horizontal. A outra vertical. Em outros termos, quem perde cai. Quem ganha se mantém de pé. O que acontece então se na luta do kung-fu os opostos se atraem? Como fazer deitar seu inimigo se em algum momento você se dá conta de que quer apenas se deitar ao seu lado? Ou que, de pé, deseje erguê-lo para que juntos vocês caminhem para o mesmo lugar?

Quando usa das artes marciais, das guerras e de personagens que realmente existiram, Wong Kar-Wai só quer mesmo falar de amor e, para fazer jus à sua filmografia, será desses tipos de amor impossível. O diretor chinês volta ao cinema seis anos depois de seu último filme em mais uma elegante, e agora também epopeica, operística e neoclássica história entre um homem e uma mulher que se apaixonam. E aqui isso acontece quando eles decidem lutar entre si. O embate de seus corpos será na mesma medida o encaixe deles.

O que, portanto, poderia ser contado apenas como um tributo à história de Ip Man (ou Yip Man), mais conhecido como o mestre de Bruce Lee, se torna uma narrativa sobre os encontros e desencontros entre dois personagens que têm pesos dramáticos equivalentes. Ip Man é interpretado pelo muso do próprio Wong Kar-Wai, Tony Leung Chiu Wai. Gong Er, a mulher, é a diva de Zhang Yimou, a atriz Ziyi Zhang (cuja expressão não mudou absolutamente nada passados mais de dez anos desde O Tigre e o Dragão, de Ang Lee).

Para contar a história deles, Wong Kar-Wai vai usar de texturas, seus tradicionais efeitos de câmera lenta, uma fotografia irretocável e detalhes (muitos detalhes) do tamanho de um botão. Toma emprestado de Zhang Yimou as infinitamente arquitetadas coreografias das lutas, mas as transforma em meios que não apenas justificam o fim, como o adornam.

A sequência de abertura dá o tom: em uma luta entre Ip Man e uma batalhão de homens, vemos o que mais parece ser um cruzamento entre Dançando na Chuva e Matrix. Gene Kelly no papel de Neo. No centro dessa sequência, um mestre do kung-fu cujo poder iconográfico estará todo concentrado em seu chapéu panamá, objeto de cena que sai inabalado do conflito. Fica claro que se é para filmar ação, o diretor vai falar de estilo. Estilo que, aliás, parece ser sempre uma preocupação não apenas do filme, mas como de todos os personagens nele. O estilo do kung-fu de cada um diz bastante sobre suas características pessoais.

Não é preciso dizer também que todos os personagens têm retidão moral inabalável. E eles nunca apenas dialogam: profetizam minutos de sabedoria. Ou nunca tomam decisões arbitrárias: são mártires de suas escolhas. A matiz do filme é toda construída no peso das coisas. E num arco de história que dará conta da invasão da China pelos japoneses e da Segunda Guerra Mundial, a leveza é um artigo em extinção. Não coincidentemente, nesse ambiente carregado, somente os corpos em luta flutuam. Se isso não é uma refinada parábola para o sexo, não sei mais o que pode ser.

E tal como num jogo de xadrez nunca acabado, os protagonistas contam suas respectivas histórias em movimentos muito bem pensados. Se afastando e se aproximando com cautela no tabuleiro porque, como Ip Man lembra, em toda partida de xadrez não é possível desfazer esses movimentos. A delicadeza de nossas escolhas.

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