Frances Ha, de Noam Baumbach

Frances Ha

Antes de falar sobre Frances Ha, esse filme que nos últimos dias invadiu a timeline de qualquer rede social que porventura você acesse, um prefácio:

Pois bem, solte os braços, as pernas e o sorriso. Modern Love, de David Bowie, está de volta às telas em um tributo não apenas ao filme acima, Mauvais Sang, de Leos Carax, mas a um cinema com o pouco discreto, meio atarantado até, charme da burguesia. A burguesia falida que não consegue mais pagar aluguel. E a grande musa dessa classe de moças que não consegue pensar no futuro porque o presente já ocupa tempo demais não se chama Lena Dunham (sim, desculpem, a referência à Girls era inevitável, vocês já devem ter lido 30 vezes essa comparação). Seu nome é Greta Gerwig, a Frances que dá título ao filme e co-roteirista dessa feliz produção que, só pra melhorar, é parte brasileira também.

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Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro

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Exú, orixá do movimento, do corpo que vai, o mensageiro na porta que só dá quando recebe, mas quando recebe sabe dar. É ele quem protege a casa de fachada azul desbotada, três andares no meio do concreto pesado, alto e cinza do centro do Rio de Janeiro. Com a fumaça de seu charuto, ele afasta o mal olhado da especulação imobiliária, do capital. E preserva o espaço da arte, da poética e, claro, dos corpos em movimento.

Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, é um filme que dialoga com o discurso da urbanização, até onde o homem vira cimento, até onde o cimento se torna humano. Em breves linhas, trata-se de uma ficção documental, gênero cada vez mais experimentado no cinema brasileiro, sobre um grupo de dança que tenta se fixar em um casarão enquanto ele não é vendido (pelo nada módico preço de R$ 1 milhão). Sem dinheiro para adquirir a casa, eles vão ficando. Enquanto isso, interessados no imóvel vão e vem, observando desconfiados aqueles dançarinos.

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Doméstica, de Gabriel Mascaro

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O título indica que as protagonistas desse documentário são todas empregadas domésticas. Ledo engano. Se há neste filme algum tipo de protagonismo, ele só pode caber mesmo nessa estranha e desconfortável intimidade que temos* com quem observa essas pessoas. É o olhar, e não quem se olha, que surge em superclose e sai da tela, derramando em nosso colo e consciência um café há séculos requentado por uma sociedade apegada às suas lembranças escravocratas.

E é no recorte desse olhar que o diretor Gabriel Mascaro cria seu trabalho mais pungente, cinematograficamente ousado e maduro. Ao entregar câmeras para adolescentes de várias partes do país, pedindo que eles filmem suas empregadas domésticas (o que em um dos casos vem a ser um empregado doméstico), Mascaro teve em suas mãos um material que pesquisas acadêmicas nos campos da sociologia e antropologia deveriam tomar como diamante e, quem sabe, exemplo de metodologia daqui pra frente.

Colocando esses jovens como diretores de cena, eliminando assim as implicações de estranhamento entre o diretor e seu objeto, Doméstica tem acesso livre à caverna dos debates esquecidos. Esse lugar que conhecemos no tato, mas sobre o qual nunca jogamos luz.

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Primo de Segundo Grau, de Alan Berliner

Primo de Segundo Grau

Quando Edwin Honig percebe o céu, o filme nos mostra o fundo do mar. Existe uma estrada úmida, de barro batido, entre o sentido da paisagem etérea que o personagem vê e a ideia de submersão que a montagem nos dá logo em seguida. Nesse percurso o diretor Alan Berliner tenta resignificar palavras. Pois essas palavras que passaram a vida servindo aos poemas de Edwin vão, ao longo do filme, perdendo seus pontos de cognição. Restam a elas apenas a melodia de fonemas que se encontram, tal como quando o céu encosta no oceano.

Criando música com as conexões que o objeto e sujeito do filme já não mais consegue fazer graças ao Alzheimer, Berliner fez um documentário com todas as coisas mais importantes da vida e, por isso mesmo, todas as mais negligenciadas. Primo de Segundo Grau não é apenas um filme sobre a perda da memória. Na verdade, é sobre tudo menos isso.
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Estreia da semana: A Caça, de Thomas Vinterberg

A Caca

O cinema de Thomas Vinterberg sempre teve algo de menino pedante e presunçoso que, conta a História, já funcionou muito bem em vários filmes. Membro daquele núcleo original da turma dinamarquesa do Dogma 95 (e para todos eles a presunção caiu como uma luva), Vinterberg se viu muito novo recebendo carta branca em Hollywood para fazer o que quisesse, de onde surgiram grandes equívocos (o tal Dogma do Amor, título tão ou mais infeliz que o filme) e equívocos mais amenos (Querida Wendy, que menos mal me fez passar uma temporada ouvindo The Zombies todos os dias).

Todo esse pé atrás de primeiro parágrafo para falar que A Caça, filme de Vinterberg que estreia esta sexta no Brasil, é possivelmente o que há de melhor e mais maduro no trabalho desse diretor. Assim como fez em seu anterior Submarino, o diretor está de volta à Dinamarca para falar das coisas que não se dizem em voz alta, das fraturas do moralismo. No que, aí sim, reaproxima Vintenberg daquele mal-estar do Dogma, do povo que te julga pela fresta da cortina.
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Estreia da semana: Mulheres Africanas – A Rede Invisível, de Carlos Nascimbeni

Mulheres Africanas

Dos vários problemas que este filme tem, e não são poucos, um parece ser o teto que abriga todos os outros: a ausência de um argumento. O documentário de Nascimbeni se assemelha a um trabalho feito sob encomenda, para servir de algum tipo de panfleto sobre uma África “feminina” ou algo do gênero. Mas sem estabelecer uma abordagem específica, sai atirando para todos os lados e vira uma grande colagem de depoimentos e imagens que não se conectam. E para um filme cujo título invoca esse sentido de “rede”, não se conectar é um problema seríssimo.

O que é uma pena, de verdade. Posto que o filme tem em mãos um tempo precioso com algumas das mais importantes vozes desse gigante continente: Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz; Graça Machel, política e ativista e esposa de Nelson Mandela; Nadine Gordimer, Nobel de Literatura, entre outras.

As vozes dessas mulheres, no entanto, não se costuram e não se dialogam posto que o filme:

  • Tem a pretensão de dar conta da África como se fosse um país do tamanho de Portugal
  • Intercala esses depoimentos com imagens clichês da África “selvagem” e “tribal” que, curiosamente, é criticada na entrevista com uma jovem antropóloga que está nesse filme
  • Usa a narração de Zezé Motta como uma tentativa de dar coerência à ausência de um roteiro melhor cuidado (e o faz com um texto que parece ter saído da redação do Globo Repórter)
  • Objetifica (e isso é imperdoável) as mulheres ao fazer um recorte aleatório de figuras que surgem no filme apenas como decoração: exemplo maior é o da atleta da África do Sul, Tebogo Masehla, que sai correndo pra lá e pra cá por diferentes (e óbvias) paisagens “africanas”. Ela não fala, ela não significa. Está ali apenas para servir como remendo entre cenas

Tendo isso posto, mais uma vez, é uma lástima que um filme com personagens tão incríveis se perca e clame para si esse título de “rede invisível”, posto que, sim, existem tantas e diversas redes de mulheres trabalhando desde tempos imemoriais no continente africano.

Estreia da semana: Na Neblina, de Sergei Loznitsa

Na Neblina

É possível ser em você mesmo nos tempos de guerra? Eis a questão que surge antes mesmo do argumento de Na Neblina, segundo filme de ficção de Sergei Loznitsa. Alguns elementos de Minha Felicidade, seu longa anterior, se repetem aqui: o frio, o inóspito, a rudeza, a retidão a despeito de um ambiente inclemente, os longos planos sequências e a câmera que persegue o homem sempre por trás, como se estivéssemos todos tentando alcançar, sem sucesso, a alma daqueles que caminham na nossa frente. Heróis sem rostos.

Mas Na Neblina alcança notas graves que Minha Felicidade apenas ensaia. Porque se aquele filme fala do homem, este fala de humanidade. Loznitsa, documentarista por formação, persegue agora essa estranha força interior dos mais crus princípios morais, a gênese do caráter. E faz isso com um personagem tão impressionante quanto o ator que o interpreta. Vladimir Svirskiy é Sushenya, um homem falsamente acusado de um crime, neste caso o de colaborar com o inimigo. No inverno da então União Soviética de 1942, em território da atual Ucrânia ocupado pela Alemanha nazista, Sushenya é “recrutado” para morrer em nome dessa suposta traição aos compatriotas russos.

O que se segue depois que ele recebe e, parcimoniosamente, se rende à sua sentença, é uma história de resistência. Das convicções internas que, sem alarde ou propaganda, não se curvam às concessões que fazemos em nome de uma instintiva sobrevivência.

A partir de flashbacks, vamos entendendo um pouco mais sobre como os três personagens – tanto Sushenya quanto seus dois algozes – chegaram onde chegaram. O olhar de Loznita parece ser tão firme e reto quanto a força física e moral de Shushenya. E a fotografia de Oleg Mutu, essa daí é uma outra personagem do filme. Mutu, que já havia fotografado Minha Felicidade e alguns dos mais importantes filmes do romenos desses últimos anos – 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, The Death of Mr. Lazarescu e o recente Além das Montanhas – tem o tom certo da desesperança coletiva. Ela é o ambiente contra o qual o protagonista resiste.

Em poucas palavras, Na Neblina é um filme que você carrega pra vida. E o monólogo final de Shushenya rimando com a fotografia enevoada de Mutu, é desses que te faz ficar estatelado na cadeira do cinema, deixando os créditos passarem, e esperando que, lá fora, a vida de alguma forma tenha desacelerado de suas angústias cotidianas.

:: Este filme estreou semana passada em SP – e segue em cartaz. Chega esta sexta ao Rio e Curitiba. Torcendo para que se espalhe por outras paragens ::

Estreia da semana: A Parte dos Anjos, de Ken Loach

A Parte dos Anjos

O bom selvagem que tripudia do sistema. E o faz com toda a elegância que só têm aqueles que observam o centro por seus sítios marginais. A história desse jovem delinquente que sacode a poeira e dá a volta por cima é um filme, sobretudo, delícia de se ver. Por seu talento em mudar o lugar de voz da lição de moral, por entender que não existe tenacidade que resista ao afeto e principalmente pela ideia de que, se os fins realmente justificam os meios, há aqui uma mensagem subversivamente positiva e irônica dessa inteligência e malícia de pertencer às ruas.

Os closes das primeiras cenas do filme, fechados em personagens que, em comum, têm a localização (um tribunal de Justiça) e alguns crimes meia-boca, sugerem que nessas pessoas não pode haver nada além de seus erros. Sem contexto, sem lente panorâmica, elas são todas iguais, meio estúpidas, meio ignorantes e socialmente fracassadas. E aí Ken Loach sabiamente encerra esse prólogo e começa o filme de fato. Agora com a câmera aberta, ele passa a jogar os entornos para falar dessas pessoas. Gente com quem logo estabelecemos simpatia porque, claro, somos um pouco elas.

A ironia daquela boa e velha luta de classes passeia tranquilona por todo o filme: na figura de Harry (John Henshaw, o engraçadíssimo Meatballs do igualmente delicioso À Procura de Eric), um tipo de tutor que logo se torna o Ao Mestre, Com Carinho do grupo de pequenos infratores que precisa prestar serviços comunitários não muito relevantes; na inserção do uísque como o elemento que irá distinguir a inteligência adquirida da inteligência orgânica e, finalmente, no ator principal (Paul Brannigan), que estreia no cinema interpretando uma versão de si próprio – Brannigan, antes do filme, tinha uma pequena ficha corrida de delitos menores. Não deixa de ser um charme a mais.

Em suma, Ken Loach, seu socialista <3

Salas de cinema no Brasil em: Sintomas do Classe Média Sofre

Dia desses o Flavorwire fez uma compilação das salas de cinemas mais suntuosas e bonitas dos Estados Unidos, algumas assustadoramente belas como esta aqui na cidade de Orinda, Califórnia…

Orinda-Theater

…e me ocorreu que, assim como os carros que viraram todos cinzas e os prédios que de tão “modernos” começaram a se parecer todos “fábricas” (AO REDOR, O Som.), a arquitetura de nossas salas de cinema hoje serve como um excelente recorte do quão asséptico pode ser isso que as pessoas costumam chamar de modernidade, desenvolvimento e coisa e tal. E o fato é que nos acostumamos à assepsia e nos curvamos às normas do tal controle de qualidade. Uma massa de pessoas que se move na sinfonia da ABNT.
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#Mixtape 1 –> Por um cinema Em Nome do Amor

Michelle

Ninguém passa impune por uma mixtape. Não ao menos pela criação de uma. Seja ela uma declaração de amor, seja somente um chamado de “ei, escuta isso aqui”, as mixtapes têm uma natureza expositiva, pessoal e intransferível.

De um jeito ou de outro, você sabe que aquelas músicas nunca estariam juntas num mesmo “lugar afetivo” se você mesmo não tivesse convidado todas elas para essa reunião informal. E numa mixtape, só se convida quem se ama.

Adoro criar o que hoje se chama de mixtape. Lá atrás falávamos de uma fita cassete com capa customizada, lado a, lado b, longos textos explicando o sentido por trás de cada faixa e todas as frescuras de contar o tempo certo das músicas para que elas coubessem 30 minutos aqui, 30 minutos ali. Amo criar essas seleções porque é sempre muito bom achar quem fale por você. E as músicas, mais do que qualquer outro meio, têm esse poder.

O fato é que, com toda facilidade tecnológica de se criar mixtapes hoje em dia, perdi um pouco aquele encanto artesanal de juntar as faixas. Me ocorreu, no entanto, que poderia fazer isso de um jeito ainda mais significativo, com mensagens transversais e, claro, um pouco mais trabalhoso. Uma mixtape… com o perdão da ousadia… cinematográfica. Em que não apenas a música, mas a cena nela implícita, quer te dizer algo.

Penso frequentemente nos melhores filmes do ano, os melhores filmes da vida, as melhores cenas, os melhores diálogos – Nick Hornby, seu maldito. E, claro, de um jeito ou de outro, nas melhores músicas por trás disso tudo. Eis então uma mixtape em que, pela primeira vez, não será suficiente apertar o play. Quero dar trabalho. E tentar explicar que, em qualquer seleção, de canções ou cenas, é preciso ter coerência ou, para quem preferir, um tema. E o tema desta vez (sim, porque haverá próximas) é o campeão de audiência de toda a humanidade: amor.

Com vocês, a Mixtape In the Name of Love
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