Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro

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Exú, orixá do movimento, do corpo que vai, o mensageiro na porta que só dá quando recebe, mas quando recebe sabe dar. É ele quem protege a casa de fachada azul desbotada, três andares no meio do concreto pesado, alto e cinza do centro do Rio de Janeiro. Com a fumaça de seu charuto, ele afasta o mal olhado da especulação imobiliária, do capital. E preserva o espaço da arte, da poética e, claro, dos corpos em movimento.

Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, é um filme que dialoga com o discurso da urbanização, até onde o homem vira cimento, até onde o cimento se torna humano. Em breves linhas, trata-se de uma ficção documental, gênero cada vez mais experimentado no cinema brasileiro, sobre um grupo de dança que tenta se fixar em um casarão enquanto ele não é vendido (pelo nada módico preço de R$ 1 milhão). Sem dinheiro para adquirir a casa, eles vão ficando. Enquanto isso, interessados no imóvel vão e vem, observando desconfiados aqueles dançarinos.

A companhia de dança é a de Rubens Barbot, sob direção de seu companheiro de mais de 40 anos, Gatto Larsen. O grupo tem um extenso trabalho com comunidades carentes do Rio de Janeiro, compõe a primeira companhia negra de dança contemporânea e faz um trabalho de pesquisa do gesto que já formou vários jovens. Mas nada disso vem ao caso. O que importa na narrativa desse filme é que a arte deve se sobressair. Aos contratos, ao dinheiro, ao sistema. E para isso Allan Ribeiro usa de personagens, da dança, da música, da poesia de Ferreira Gullar e da figura de Exú para significar esse embate.

Tudo isso com movimentos simples de câmera, repetindo por vezes esse olhar de quem espia a afluência cotidiana, ou a simulação dessa afluência, já visto anteriormente no curta-metragem Ensaio de Cinema, um filme dentro de um filme com a mesma dupla Rubens/Gatto (ver curta, na íntegra, abaixo).

No mais, o título. Que nos consome, nos deixa mais forte para enfrentar o inimigo, para ter outra camada de compreensão do filme e que me faz lembrar outro título de sintaxe irmã: Essa Febre que não Passa, livro da escritora Luce Pereira e de uma peça nele inspirada que, não distante, trata em seus contos desses combates diários. Porque viver nunca é fácil, mas para todos os males, se dança.

O filme estreia dia 6 de setembro em algumas (não muitas) salas brasileiras. Estando por perto, baile até o cinema.

Abaixo, o trailer:

E o curta Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro:

ENSAIO DE CINEMA from Allan Ribeiro on Vimeo.

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