Julieta, de Pedro Almodóvar

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“Tu ausencia llena mi vida por completo y la destruye”, nos fala a protagonista com a voz salgada de lágrimas. De fundo, a trilha de Alberto Iglesias dá grifo nas palavras e o cenário do habitual vermelho que carrega todas as escalas dramáticas entre o sangue e o batom povoa o entorno. As coordenadas geográficas estão todas dadas, estamos de fato em mais um filme de Pedro Almodóvar. Mas algo além da pessoa a quem se faz referência na frase acima também se encontra ausente nesse filme, algo que diz respeito ao modo de fazer cinema com o qual o diretor se tornou a referência de dez entre dez cinéfilos de multiplex, ou melhor, ao modo como justamente esse “estilo Almodóvar” se tornou refém de si próprio.

Julieta tem quase tudo que os melhores filmes do cineasta espanhol têm: traz de volta uma personagem feminina central com toda a complexidade que lhe é de direito, atrizes novas à sua filmografia – Emma Suárez como a Julieta mais velha e Adriana Ugarte em sua versão mais nova -, uma relação familiar partida – novamente entre mãe e filha, como já havia sido posto em Volver -, cores marcando as tensões da narrativa – neste caso o embate emocional entre vermelho e azul -, uma câmera desejante de corpos que se desejam – femininos e masculinos – e Rossy de Palma como a personagem fora da curva, neste caso, no papel de uma conservadora trabalhadora doméstica muy pouco simpática que, quando filmada aqui no registro do gênero de terror, se torna, por supuesto, cômica. Mas a despeito de possuir os códigos necessários, a Julieta falta justamente aquilo que de melhor Almodóvar conseguiu criar em nosso imaginário quando se abre na tela o logo da El Deseo: a estranha e irresistível empatia que sentimos por personagens transbordantes.
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As montanhas se separam, de Jia Zhang-ke

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Há bandeiras sendo içadas em nome da Memória, há dentes trincados na luta pela Memória, há resistência em todas as esquinas mal iluminadas dessa Memória. Mas se seu nome é repetidamente conclamado em tantos campos de batalha, é porque o motivo dessa agonia se põe cada vez mais predador em suas intenções. O Apagamento da Memória é uma ameaça que, por exercício do ofício, se faz invisível. O diretor chinês Jia Zhang-ke sabe disso e lida com esse fantasma devorador de espaços e tempos desde que começou a fazer cinema, disparando sua câmera para registrar e preservar as imagens que o inimigo tenta dissipar.

Com seu mais novo filme, As montanhas se separam, o cineasta faz uma nova curva na narrativa dessa batalha épica da Memória Guerreira contra o Dragão da Aniquilação. Com a ironia que lhe é própria, ele nos conta como é possível que a ideológica promessa de um mundo novo, onde “o céu será sempre azul”, é um discurso que facilmente consegue ser domado para que possamos sublimar nossas perdas, o apagamento de nossas lembranças.

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Ausência, de Chico Teixeira

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Não são poucos os realizadores brasileiros que nesses últimos anos têm explorado, com bem sucedida desenvoltura na direção de atores, a passagem narrativamente fecunda da adolescência para trabalhar com as descobertas dos primeiros conflitos existenciais e hormonais do ser humano. Com frequência, esses filmes se utilizam do ambiente escolar como um cenário inevitável (ainda que não central) para a construção dessa identidade que se ergue num espaço coletivo. Acontece com As melhores coisas do mundo, de Laís Bodansky, Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, Depois da chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes e Casa Grande, de Felipe Barbosa.

Mas Ausência, segundo longa de Chico Teixeira, tenta fugir um pouco desse circuito entre a escola e a sociabilidade fora dela. E termina por achar um caminho diferente, que dialoga um pouco com o que Marcelo Lordello fez com Eles voltam, no sentido de lidar com questões de amadurecimento quando elas são mais profundamente afetadas por outros estímulos externos, sendo o maior deles a estrutura familiar que cerca o adolescente protagonista.

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Eduardo Coutinho, para ver e rever. Sempre.

Para que a fumaça dos cigarros que Eduardo Coutinho fumava sem concessões continue a passar diante da gente. Pulmão para o mundo, ele tinha. Para lembrar que olhar não é um verbo que se encerra em si. Exige se desfazer de todos os preconceitos que a imagem finge nos entregar de mão beijada. E se o cinema não é esse exercício, não saberia dizer o que ele é.

Cabra Marcado pra Morrer, 1984

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Cinco dicas quase zen de como vivenciar a Mostra SP

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A 37ª edição da Mostra de Cinema de São Paulo começa nesta sexta-feira (18), com a exibição de 377 filmes de todos os cantos do planeta. Com duas semanas para dar conta de alguma parte dessa sorte de títulos, há quem se empenhe em maratonas sem fim de filmes. Concordo que são raras as oportunidades de ver na tela grande obras que dificilmente chegariam às salas não fosse por iniciativas como essa. Nesse tópico, o Filmes do Chico fez um excelente “Guia sobrevivência na Mostra de Cinema de São Paulo”. Recomendo ler, existem questões práticas essenciais ali.

Mas queria acrescentar algumas outras “dicas”, se me permitem:

1) Cinema é hipnose, imersão, deslumbramento. E alguns filmes não raramente caminham com a gente muitas horas depois dos créditos finais subirem. Em certos momentos, é preciso saber reconhecer que não queremos largar a mão do que acabamos de assistir e, quase que promiscuamente, nos render aos encantos de outras histórias. Portanto, mesmo se você tiver com uma agenda de cinco filmes no dia, saiba identificar quando um deles te demanda uma pausa. A gente já vive correndo o dia inteiro com prazos e metas e tabelas e deadlines. Não precisa ser assim também com o cinema.

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Nós Somos os Melhores, de Lukas Moodysson

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:: Filme na programação do Festival do Rio ::

Lukas Moodysson tem uma mão boa para lidar com toda aquela bagunça emocional/hormonal de meninas entre a pré-adolescência e a adolescência em si. Prova 1: Amigas de Colégio (1998), um raríssimo filme excelente em uma muito fraca filmografia lésbica, se é que ela existe. Prova 2: Lilya 4-Ever (2002), um título tenso e bem menos otimista que Amigas de Colégio, mas tão precioso quanto. Prova 3: Nós Somos os Melhores (título brasileiro estranhamente traduzido em gênero masculino), seu mais novo filme, não tão cuidadoso quanto os dois primeiros citados, mas certamente um respiro daquela rebeldia genuína e espontânea desse entrelugar entre a infância e a vida adulta, aqui no corpo de três meninas que, em meados dos anos 80, ainda acreditam no punk.

Digo respiro porque é preciso se livrar um pouco das marcações de cena em filmes com adolescentes. E Moodysson sabe fazer isso. Não apenas porque consegue dirigir as meninas e deixar elas à vontade, mas porque é tão inquieto em sua câmera quanto elas. E sim, o zoom é sempre seu amigo. E outra, vamos combinar: no esplendor dos sintetizadores e das pistas de dança, um argumento que traz meninas entre 12 e 13 anos que decidem montar uma banda punk é algo que, isoladamente, já merece toda nossa atenção.

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Estreia da semana: Mulheres Africanas – A Rede Invisível, de Carlos Nascimbeni

Mulheres Africanas

Dos vários problemas que este filme tem, e não são poucos, um parece ser o teto que abriga todos os outros: a ausência de um argumento. O documentário de Nascimbeni se assemelha a um trabalho feito sob encomenda, para servir de algum tipo de panfleto sobre uma África “feminina” ou algo do gênero. Mas sem estabelecer uma abordagem específica, sai atirando para todos os lados e vira uma grande colagem de depoimentos e imagens que não se conectam. E para um filme cujo título invoca esse sentido de “rede”, não se conectar é um problema seríssimo.

O que é uma pena, de verdade. Posto que o filme tem em mãos um tempo precioso com algumas das mais importantes vozes desse gigante continente: Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz; Graça Machel, política e ativista e esposa de Nelson Mandela; Nadine Gordimer, Nobel de Literatura, entre outras.

As vozes dessas mulheres, no entanto, não se costuram e não se dialogam posto que o filme:

  • Tem a pretensão de dar conta da África como se fosse um país do tamanho de Portugal
  • Intercala esses depoimentos com imagens clichês da África “selvagem” e “tribal” que, curiosamente, é criticada na entrevista com uma jovem antropóloga que está nesse filme
  • Usa a narração de Zezé Motta como uma tentativa de dar coerência à ausência de um roteiro melhor cuidado (e o faz com um texto que parece ter saído da redação do Globo Repórter)
  • Objetifica (e isso é imperdoável) as mulheres ao fazer um recorte aleatório de figuras que surgem no filme apenas como decoração: exemplo maior é o da atleta da África do Sul, Tebogo Masehla, que sai correndo pra lá e pra cá por diferentes (e óbvias) paisagens “africanas”. Ela não fala, ela não significa. Está ali apenas para servir como remendo entre cenas

Tendo isso posto, mais uma vez, é uma lástima que um filme com personagens tão incríveis se perca e clame para si esse título de “rede invisível”, posto que, sim, existem tantas e diversas redes de mulheres trabalhando desde tempos imemoriais no continente africano.