120 batimentos por minuto, de Robin Campillo

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Há quatro sequências-chaves que dão o beat e o relevo sentimental de 120 batimentos por minuto. Em todas elas, um elemento em comum: a pista de dança. Robin Campillo, diretor e roteirista do filme, sabe exatamente reter a energia de todos os significados desse elemento e com ele simultaneamente condensar e expandir o arco dramático dos personagens em cena. Porque não se trata de uma pista de dança qualquer. Falo aqui de uma pista de dança gay e das redenções que ela faz pulsar e suar. A ideia, portanto, é tentar entender como, a partir dessas quatro sequências que, de forma bem pontuada, dividem o filme e seus dois personagens centrais em quatro distintos momentos, Campillo fez um dos mais lindos trabalhos cinematográficos não apenas sobre a Aids, mas sobre ser um corpo que resiste porque dança e que dança pra poder existir.

“Look around, everywhere you turn is heartache
It’s everywhere that you go
You try everything you can to escape
The pain of life that you know (life that you know)”

Sequência Um:

Nathan (Arnaud Valois) entra pela primeira vez na boate ao lado do grupo que ele acaba de se inserir: o Act Up. Antes de falar da pista, é preciso falar um pouco dessa organização. Trata-se de um coletivo militante internacional que, em Paris, onde o filme se passa, lutava fundamentalmente para que o governo reconhecesse a epidemia da Aids como uma prioridade da saúde pública, assim como brigava com laboratórios para que estes fossem transparentes com os resultados de pesquisas sobre medicamentos para conter o vírus. Em suas assembleias, militantes do Act Up discutem, brigam, se enfrentam em debates acalorados sobre as ações que devem, ou não, ser feitas. É valioso observar que o filme não exclui as mulheres lésbicas do debate (e nesse caso a presença da atriz Adèle Haenel é uma força essencial) e que isso, por si só, já é uma virada muito bem-vinda a um contexto de militância que – e o filme faz menção a isso – pode ser extremamente misógino. Reverbera também aqui aquele mesmo ritmo acelerado de cena do trabalho mais conhecido de Campillo, o roteiro do premiado Entre os muros da escola, de Laurent Cantet.

Nas reuniões formais, o tempo de fala e intervenções são sempre muito controlados. Mas quando esses e essas militantes entram na boate pela primeira vez no filme, Nathan e nós assistimos à catarse de pessoas que são cúmplices de um pacto de sobrevivência que nunca foi verbalizado ou registrado em cartório. É algo que se entende quando os corpos se tocam e se enxergam em poucas brechas de luz, guiados intuitivamente por uma música que está ali como antídoto pro mundo lá fora, o veneno antimonotomia que te protege, te acolhe, te ama. Nathan começa ali a se apaixonar pelo fato de que as pessoas estão apaixonadas. A câmera alterna enquadramentos em closes, planos abertos filmados de lado, de cima, dançando ela mesma nos espaços minúsculos entre os corpos. É uma sequência que joga o filme pra cima e diz: estamos vivos, estamos juntos, fodam-se essas moléculas estranhas que nos cercam. Porque se a câmera consegue captá-las, a gente aqui embaixo, de olhos fechados, só vemos e ouvimos música. Onde queres células doentes, somos pontos de luz.

“When all else fails and you long to be
Something better than you are today
I know a place where you can get away
It’s called a dancefloor
And here’s what it’s for”

Sequência dois:

Toda e qualquer história que tenha a Aids como um pano de fundo é, por excelência, uma história de amor. Uma que pode ter durado apenas uma noite, uma foda no banheiro ou no dark room, como pode ter a solidez de um casal que compartilha memórias de adolescência depois do gozar. A segunda pista de dança do filme é o começo de uma dessas histórias, quando Nathan, que se apresenta como soronegativo, se apaixona não apenas pela ideia de apaixonamento, mas por um de seus colegas: Sean (Nahuel Pérez Biscayart), uma das bichas mais fechativas do Act Up e que, até então, namorava Max (Félix Maritaud), sendo ambos igualmente soropositivos. Importante notar como a montagem do filme nos confunde sobre os limites do espaço público (a boate) e o espaço privado (o quarto), criando um prolongamento estético e afetivo entre os dois, ilustrando igualmente como o sexo é uma energia vital da nossa existência no mundo.

É também o momento no roteiro em que se deixa evidente que a luta pelos direitos das pessoas contaminadas e pelo acesso à informação (e é sintomático que essa segunda pista de dança aconteça pouco após uma intervenção do Act Up em uma escola) é também uma luta pelo direito de dançar. Leia-se, de mover-se no mundo sem que exista alguém para controlar e domar seu corpo e seus desejos. 120 batimentos por minuto é um filme que, inevitavelmente, fala sobre dor, mas não se intimida em fazer isso não apenas a partir de uma narrativa que se constrói na pista da boate, como em uma coreografia de pompons no meio da rua, sorrisos largos diante da morte. A audácia.

“So come on, vogue! Let your body move to the music”

Sequência três:

Quando as batidas de Smalltown boy, do Bronski Beat, começam a tocar, já tem pelo menos uns três rastros de lágrimas correndo pelo meu rosto. Pausa aqui para um depoimento pessoal: nasci na segunda metade dos anos 70, o que significa dizer que toda minha infância foi marcada pela desinformação desse grande bicho papão chamado Aids. Lembro de ter ido assistir a um espetáculo de dança contemporânea no qual minha tia fazia dueto com um bailarino que era soropositivo. E naturalmente só soube disso porque ele morreu alguns meses depois e surgiu toda uma polêmica na família: mas será que ela se contaminou? No que minha tia veio explicar que não, toque, suor, nada disso transmitia o vírus.

Anos se passam e a certeza de que era eu também parte daquela comunidade que foi “punida” pelo vírus me colocaram em contato com o hit do Bronski Beat: “run away, turn away, run away, turn away, run away” é uma música não apenas sobre fugir de casa porque você é bicha, sapatão, trans. É fundamentalmente sobre fugir pra dançar e suar junto com os seus, com quem entende o que você está passando (e é curioso notar como as mais bonitas músicas de pista de dança são também as mais tristes). Nessa terceira sequência, o filme demarca seu lugar político: o enfrentamento não apenas à Aids, mas a tudo que ela simbolicamente representou nos anos 1980 e 90, quando o status quo manipulou toda a desinformação sobre a doença e estigmas foram criados, precisa ser feito com o corpo que, mesmo adoecido, consegue se mover mais rápido com o efeito das luzes estroboscópicas. Assim como o próprio cinema, a pista de dança produz uma relação espaço/tempo que é única e que se dilata à medida em que acreditamos nela. Sean vai morrer. Mas ainda não.

“Come on, vogue! Let your body go with the flow. You. Know. You. Can do it”

Sequência final:

Pouco antes da última pista de dança do filme, escutamos Sean falar que não consegue mais distinguir se está com febre ou medo, porque ambos doem. Sean morre. O velório acontece no apartamento de Nathan. As pessoas vão chegando, amigos, amigas, companheiros de pista e de luta. A mãe de Sean prepara um café. Há tristeza, mas há também a pulsão de vida que mais um homem jovem deixou. No enquadramento, uma divisória. De um lado, o corpo de Sean deitado sobre a cama. Do outro, as pessoas vivas, tomando café. Não dá pra olhar pra um desses lados sem olhar pro outro. De modo que aquilo que era medo e doía precisa ser transformado, precisa se mutar tal qual o próprio vírus HIV. E a pedido de Sean, suas cinzas são jogadas sobre os canapés de mais um encontro dos homens de laboratórios a serviço do capital. “Não me convidaram pra essa festa pobre” e, ainda assim, as bichas, sapatões, hemofílicos e mães do Act Up jogam Sean no ar, fazendo seu corpo virar pontos de luz numa pista de dança que nasce ali, da dor, mas sobretudo, da vontade de viver nem que seja por mais um refrão.

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