Dark Blood, de George Sluizer

dark blood

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Em 1993, George Sluizer recebeu a notícia de que River Phoenix havia morrido de overdose. Era o ator principal do longa que ele estava filmando. Sluizer fechou o roteiro e guardou os rolos com as cenas já filmadas. O projeto estaria para sempre enterrado não fosse pelo dia de Natal de 2007, quando o próprio diretor sofreu um aneurisma na França. Entrou em coma e sua morte era quase certa. Mas um médico acreditou em sua reabilitação e no primeiro momento em que recuperou consciência, Sluizer pediu para voltar a Los Angeles pois queria terminar o trabalho que havia começado com Phoenix.

Tendo isso dito, é impossível fazer uma revisão deste filme enquanto projeto original. O que o diretor apresenta agora é um esboço do que seria o resultado final não tivesse o protagonista morrido no meio das filmagens. As cenas do roteiro que não foram filmadas são narradas pelo próprio Sluizer enquanto vemos ora imagens congeladas, ora sobras de filme. No entanto, é possível sim criar um estranho paralelo entre essa proposta de roteiro, o filme incompleto que se torna um projeto em si e a própria morte prematura do tal “James Dean da geração X”, além da experiência de quase morte do diretor em questão.

Porque sim, cabe à morte, no fim das contas, o papel principal de Dark Blood. É ela que ronda o deserto de Utah, onde um casal em segunda lua de mel, vivido por Jonathan Pryce e Judy Davis, fica à mercê da sorte quando seu carro quebra no meio do nada. Entra em cena “o garoto”, personagem de Phoenix, um jovem viúvo cuja única companhia é um cachorro. Esse garoto diz que a sorte não existe, que tudo se trata uma questão de desejar aquilo que se quer ter, mas não obstante usa um chaveiro de pé de coelho. Parece em primeiro momento ser um caubói hippie, mas carrega uma estranha raiva contida. Sua ambiguidade é o elemento que desequilibra o casal, ele um ator bem pago a caminho de mais trabalho medíocre em Hollywood, ela uma mulher com tédio.

É interessante notar como Sluizer constrói, quase sempre em off, a relação entre o personagem de Phoenix e a de Judy Davis. O primeiro momento íntimo dos dois não chegou a ser filmado e o que “vemos” portanto é apenas a imagem da casa do rapaz à noite enquanto o diretor descreve a cena. Ela havia cortado os pés com cacos de vidro em algum momento anterior e “o garoto” vai delicadamente abrir as fissuras nos pés dela para tirar os vidros de lá. No texto que lê, Sluizer cria um paralelo entre essa penetração da carne e o sexo. Se a cena filmada nos daria essa associação direta, nunca saberemos.

A insustentável leveza dessa convivência entre os três irá render momentos tensos que quase sempre são cortados pela narração de uma imagem não registrada. Mas nenhuma das cenas, filmadas ou não, podem ser mais angustiantes que a própria ideia que ronda o roteiro. A já citada morte está no cenário inteiro. O deserto de Utah é onde o governo americano fez testes nucleares durante a Guerra Fria e boa parte da região está até hoje sob efeito da radiação. Esse mal invisível é o que, de fato, penetra o filme inteiro, e o personagem de Phoenix se mostra bastante perturbado com a presença dele.

Nessa “cadeira de três pernas”, como bem define Sluizer quando nos introduz ao filme inconcluso, nos sobra a imagem de um jovem ator com uma força estranha nos olhos, que simultaneamente seduz e assusta. A combinação perfeita para qualquer narrativa apaixonada.

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