Ilo Ilo, de Anthony Chen

Ilo Ilo

:: Filme na programação da Mostra SP ::

Os pequenos poderes da classe média, a crise da classe média, as relações familiares da classe média. Estamos no campo dos comportamentos sociais que se reproduzem de Norte a Sul, de Singapura ao Brasil, provando sempre que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Ilo Ilo, Caméra d’Or em Cannes este ano, é um filme que dialoga com muitas das questões latentes em recentes filmes brasileiros como Trabalhar Cansa, O Som ao Redor e o documentário Doméstica e que, não apenas por isso, tem muito a nos falar e o faz de uma maneira delicada e cuidadosa enquanto instrumento crítico.

Trata-se de uma história centrada em uma família da Singapura – mãe, pai e filho – que contrata uma empregada doméstica para cuidar da casa e ao mesmo tempo servir de babá para o menino. Estamos no fim dos anos 90 e essa mãe está grávida, o pai fuma escondido, o menino é mimado e a empregada vem das Filipinas, passaporte guardado na gaveta da patroa – “pra ela não fugir”, justifica a mulher.

Tudo que perpassa o filme nos é familiar de alguma forma: a falência monetária de um sistema econômico que lá do alto se nega a enxergar o precipício e a falência moral de uma sociedade educada para se relacionar verticalmente, o de cima sobe e o de baixo desce. Crianças brincando dentro dos condomínios fechados e condomínios de onde os sujeitos se jogam quando nada mais parede dar certo. Nessa naturalizada animosidade, a figura de Terry (Angeli Bayani), a empregada, é o elemento que salienta todas as disfunções entre hierarquias forjadas.

A princípio rejeitada pelo filho da família, um menino que substitui a ausência dos pais por videogames, Terry tenta conciliar suas atividades na casa com a domesticação da selvagem criança e esta, por sua vez, tentará domesticar pintos que logo se tornarão galinhas. São todos personagens – incluindo as aves – que vivem sob a sombra da tragédia anunciada.

Como é de se prever, a relação entre ela e o menino logo toma outro contorno mas o aparente oásis de felicidade que se instala em algum momento do filme é rapidamente domado pelo contexto do mundo lá fora. Sendo lá fora a firma que desemprega, o colégio que pune ou apenas o outro lado da linha do telefone, onde alguém também está servindo de mãe ao bebê de Terry.

Anthony Chen faz de seu primeiro longa um bonito exercício sobre pessoas que, diante das pequenas catástrofes da sala de jantar, só restam acreditar. E não se exime da honestidade em deixar claro que a fé surge da adversidade e que, desta forma, é também ela própria um grande anestésico social.

Abaixo, deixo com vocês o premiado curta de Chen (vencedor do Juri de Cannes em 2007), para dar um gostinho de como ele tem uma especial atenção às relações familiares:

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