Riocorrente, de Paulo Sacramento

riocorrente

:: Filme na programação da Mostra SP ::

“Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Tem lugar melhor do que este? Tem momento melhor do que agora?”

Riocorrente não é apenas um filme, é também um coquetel molotov. Um que explodiu, partiu o cenário ao redor e me deixou a pergunta: ainda é possível colar os tais caquinhos do velho mundo? Não sei responder, e acho que o filme não procura essa resposta. O que ele quer mesmo é provocar a angústia, o incômodo, nos tirar do lugar do conforto de que as coisas são como são. De que o sistema vai se autogerir sem fissuras ou gritos.

Nesse sentido, Paulo Sacramento faz uma obra tão profética que dá até medo. Quando este filme começou a ser feito, não havia pessoas com cartazes ou máscaras nas ruas das grandes cidades do país, não havia black bloc ou os “baderneiros” e “vândalos” da Globo News. Não que o filme seja sobre isso, até porque não é. Mas em sua montagem muito bem orquestrada sobre essa violência represada com tudo que nos gerencia – do amor ao emprego, do relógio ao trânsito – ele alimenta um mal-estar que só pode mesmo acabar em incêndio.

Existem quatro personagens centrais: Um ladrão de carros que a usa a violência como discurso, um jornalista que usa o discurso como escudo, a mulher que é amante dos dois e está emocionalmente à mercê desses extremos, e o menino de rua que cresce nas entranhas dessa cidade e que dela só poderá herdar a raiva. A dramaturgia entre eles não é exatamente o alvo. As relações entre os quatros personagens nunca chega a ser muito trabalhada. As camadas de interpretação não estão nos diálogos, mas no que cada um deles observa. A lembrar que quando observamos alguém observar uma obra, esta pessoa pode imediatamente se tornar parte da obra final.

E a obra aqui é o caos organizado: os jornais sendo mastigados pelos ratos, o pesadelo de todos os sinais fechados, o suicida decepado pela grade do condomínio, a grade do circo, o Globo da Morte do circo e a mulher correndo desesperada pela cidade. A cidade nós vemos. Mas ela é só uma imagem turva. Estamos diante de mais um filme a contemporizar uma nova geração de problemas do país. Que se agora não são mais de ordem econômica, são de ordem social. E não mais exclusivamente coletivas, mas sobretudo individuais.

Diante de tudo isso, me parece apenas excedente sublinhar a crise com frases do tipo “as ideias precisam voltar a ser perigosas”. O perigo é um dom que o filme tem em seus personagens e em sua natureza quase documental. Não carecia deixar ele tão legendado.

Excelente estreia de Sacramento em longa de ficção, fotografia precisa de Aloysio Raulino, falecido este ano, e excepcional participação especial de Arnaldo Baptista cantando o hino do apocalipse urbano: “Seria o maior barato tocar seu coração/ Vivo a pensar pra frente/ Quando não mais houver cidade/ Eu vou te achar/ Com mil anos de idade/ Eu vou te achar”.

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