Eu, Anna, de Barnaby Southcombe

Eu, Anna

Que fique claro antes de mais nada que qualquer filme, série, capa de revista, festa de aniversário ou chá de bebê com a presença de Charlotte Rampling tende a ser uma experiência, no mínimo, agradável. E ainda que agradável não seja uma palavra adequada para definir o mais novo filme protagonizado por ela, Eu, Anna não seria o instigante thriller que é não fosse a força dramática dessa atriz inglesa. Ela e seus olhos baixos, tristes, seu sorriso melancólico, suas pernas finas, mais uma vez dão corpo a uma femme fatale. Dessas que, como a expressão em francês sustenta, piscam “problema” na testa.

Eu, Anna é um filme de Rampling. Conduzido e dominado por ela. Tal como parece ser inerente à própria intérprete, a personagem se deixa revelar muito lentamente, com frequência nos induzindo à dúvida sobre sua aparente fragilidade. Anna Welles é uma senhora que vemos pela primeira vez saindo de um gigante edifício residencial londrino que só não é mais impessoal que aqueles condomínios da decalogia de Kiewsloswki. Sua relação com aquele prédio vai se costurando à medida em que o roteiro nos apresenta alguns flashbacks sugestivos.

O thriller noir flerta com o talento de Rampling para falar fundamentalmente de solidão. A ironia está em tratar do assunto tendo como ponto de partida um assassinato. É pela ausência de um personagem já morto que conhecemos a ausência que existe naqueles que ainda estão vivos. E nesse aspecto, é preciso se curvar também a Gabriel Byrne, que aqui interpreta um detetive policial à frente da investigação do crime que move a história e, claro, homem por quem a personagem de Rampling logo vai criar uma afetividade.

O filme é dirigido por Barnaby Southcombe, filho da atriz, rapaz com experiência prévia apenas em séries de TV inglesas. Essa relação familiar extra filme não deixa de ser um elemento a ser investigado em torno do que acontece no próprio roteiro. Afinal de contas, Southcombe filma sua mãe como uma figura controversa sob todos os pontos de vistas, mas mais particularmente sob à luz da maternidade. Um ano de terapia intensiva não daria conta da quantidade de questões que poderiam surgir daí.

Off Freud, trata-se de uma histórias de pistas, toda trabalhada na geometria de suas imagens (quase publicitárias), uma trilha sonora elegante e um desfecho que lembra os bons anos de Shyamalan. No que diz respeito ao gênero em que ele se encaixa, o de thriller, é um trabalho digno, ainda que não tão desafiador. Acerta mesmo ao dialogar com um abatimento da humanidade a partir de atores que dão conta desse abatimento. E, claro, é um filme com Charlotte Rampling.

Em tempo: o trailer abaixo entrega mais do que deveria.

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