Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

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“Como eu poderia saber que esta cidade foi feita na medida do amor? Como eu poderia saber que você foi feito na medida do meu corpo?”, Ela pergunta em Hiroshima mon amour. No filme de Alain Resnais, é o amor entre duas pessoas o grande arquiteto da cidade, a régua que irá redesenhar, a partir de corpos que se encontram, um espaço marcado por ruínas. As questões que se colocam para a personagem de Emmanuelle Riva ecoam no tempo e no espaço. Com que régua podemos medir nossas cidades hoje? E de que forma o desejo é capaz de riscar, esboçar e planejar nossos espaços urbanos?

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, é cinema que se move entre essas perguntas e tem a força de fabricar uma possibilidade de resposta: a de que as cidades são feitas na medida da memória que preservamos delas e que, se são as mulheres quem organizam e guardam os álbuns de fotografia da família, se são elas quem ainda procuram pelos ossos perdidos dos filhos mortos pela ditadura no Chile, se são elas as mães da Praça de Maio, se são elas quem não conseguem esquecer, são delas com frequência os corpos mais resistentes à destruição de todo e qualquer espaço erguido pela memória. O que o mais novo filme de KMF faz é ressaltar que esse corpo emocionalmente e fisicamente marcado de uma mulher madura é, ele mesmo, uma frente de combate. Está na mulher a medida de sobrevivência da memória e, portanto, da cidade.

E ainda que o filme transborde para além do contexto histórico em que ele nasce, é preciso frisar que, ao trabalhar muito pontualmente com objetos (um móvel, um prédio, um disco…) que evocam a historicidade das coisas, Aquarius pede que, para além de espectadores, sejamos também pesquisadores da arquitetura de nossas recordações.

Portanto, esclareçamos que a cidade, neste caso, se chama Recife, centro urbano do Nordeste brasileiro que, nos últimos anos, tem sido palco de um movimento por direitos urbanos que se tornou internacionalmente reconhecido, o Ocupe Estelita. A mulher, neste caso, é Clara, uma jornalista aposentada que um dia já foi crítica de música e que enfrenta, praticamente sozinha, a ideia de vender seu apartamento num prédio antigo, talvez o último de sua espécie à beira-mar, para que se possa naquele terreno ser construído um edifício novo, de muitos andares.

A mulher que interpreta Clara se chama Sonia Braga, alguém cuja trajetória no cinema nacional é sublinhada por filmes que marcaram seu corpo como objeto de desejo e que, nos últimos anos, foi buscar em terras estrangeiras um lugar em que sua memória não estivesse sempre enclausurada na imagem da mulher sexy objetificada que a crítica cultural lhe deu. O extra-fílmico se torna, assim, parte da narrativa. Existe uma mensagem forte ao escolher Recife como cenário de uma história sobre um processo de luta pelo direito a morar num prédio antigo do mesmo modo que existe uma posição política muito bem marcada no momento em Sonia Braga aceita o convite para viver a personagem de uma jornalista pouco disposta aos maneirismos de textos óbvios e cuja história, como diz a música de Taiguara que abre e fecha o filme, traz em seu corpo as marcas do seu tempo: “a fossa, a fome, a flor, o fim do mundo” em uma só pessoa. O ser desejante, não mais aquele que é apenas desejado.

É essa a trilha que sublinha as imagens de arquivo que abrem o filme, fotos de quando o bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife, era um lugar de casas de veraneio, sendo aos poucos frequentado mais e mais por uma classe média cujo sonho imobiliário era assistir TV numa sala com vista pro mar. As imagens que surgem são, algumas vezes, de esfera íntima: pessoas posando com sungas, biquinis e maiôs que automaticamente nos levam por caminhos familiares, o desbotamento da foto como um elemento que é universalmente reconhecido como espaço de afeto. De modo que quando surge a primeira cena do filme, situada nos anos 1980, o tom de certa forma nostálgico já está dado. Clara (aqui com a atriz Barbara Colen) é então uma jovem mulher de sorriso largo ao som de “Another one bites the dust”.

Neste momento se dá algo que será repetido mais adiante no filme: uma espécie de transmissão de poder entre as mulheres que aparecem na história. Se trata de um movimento em que se estabelece trocas de códigos silenciosos entre as personagens femininas e que aqui ganha corpo nos olhares de cumplicidade entre Clara e sua Tia Lúcia (Thaia Perez), tendo esta última lembranças que atravessam o apartamento de uma lascívia tão bem disfarçada em discretos brindes de aniversário. Essa conexão invisível que Aquarius nos põe a ver acontecerá novamente quando já mais velha e agora sim interpretada por Sonia Braga, Clara vai conhecer Júlia (Julia Bernat), a namorada de seu sobrinho. Agora como “tia” da menina, ela será a epítome da mulher em que Julia quer um dia se transformar. No chiado do vinil, a jovem estudante toca uma música para sua nova amiga: “Alguém com sua força pra me proteger, alguém com seu carinho pra me confortar, alguém com olhos e coração bem abertos”. Elas se olham ao som de “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil, e entre as duas percorrem as marcas do se tornar mulher. A cena é carregada por uma energia de passagem, legado, continuidade histórica que precisa ser preservada.

Tratam-se de de dois momentos muito pontuais, que a priori não interferem na trama, mas que revelam que personagem é essa de quem Kleber Mendonça Filho quer falar. Não se trata apenas de uma pessoa que, por teimosia, não quer vender um apartamento para uma grande construtora. Essa pessoa é uma mulher com mais de 60 anos, que ocupa e resiste não apenas nos espaços (seu apartamento antigo, o mar de tubarões, o centro da cidade), mas sobretudo nos desejos: de música, de movimento, de sexo. E o corpo de uma mulher com mais de 60 anos de idade que se mostra excitado com a vida é, por excelência do capitalismo, uma afronta. Clara é um desrespeito às instituições patriarcais e fálicas de uma cidade que, como várias outras, vincula a verticalidade de seus edifícios com as ereções de uma juventude gananciosa, aqui corporificada no personagem do jovem Diego (Humberto Carrão), o menino branco herdeiro de uma grande e moderna construtora.

Se em O som ao redor o motor narrativo era a difusão de neuroses de uma classe média urbana inflada em seus pequenos poderes, onde o medo funcionava simultaneamente como divisor e agregador de classes sociais, agora existe um roteiro de pulsão centrípeta, em que uma só personagem converge desejos e frustrações coletivas. O medo e as neuroses urbanas persistem, mas agora em lugar de encontrar personagens prontos para abraçá-los, eles vão achar em Clara uma rival. E quando se tem como inimiga alguém que sabe sorrir com a mesma força de quem sabe chorar, tudo se torna mais difícil para quem, do outro lado, espera que as pessoas se comportem no automático das emoções contidas. Nesse aspecto, é fundamental frisar que Aquarius só consegue criar essas conexões afetivas porque traz no elenco uma Sonia Braga disposta a vestir (e nesse processo se despir de algumas armaduras) uma mulher tão poderosa quanto vulnerável. E para alguém que carrega na mala personagens tão importantes na cinematografia brasileira, é impressionante pensar que Clara pode se tornar, com o tempo, o papel da vida dessa atriz.

Quanto aos demais integrantes do elenco, o filme acerta na escalação de atores profissionais como os já citados Humberto Carrão (um vilão tão familiar), Thaia Perez (o primeiro corpo de resistência do filme), Julia Bernat (a jovem com inclinações feministas), Carla Ribas (uma das melhores amigas de Clara) e ainda os dois outros atores presentes no filme anterior de Kleber: Irandhir Santos, aqui no papel de um bombeiro com uma relação próxima e, por vezes, sexualmente estranha com a nobre proprietária daquele apartamento à beira-mar, e Maeve Jinkings, como a filha de Clara que, em um determinado momento, enfrenta a mãe e nesse embate termina fazendo emergir dores profundas em uma cena cuja carga dramática parece nascer de vivências muito pessoais de todas as pessoas envolvidas nessa sequência.

Ainda de O som ao redor, Aquarius carrega estruturas narrativas que se repetem, quase como se o diretor estivesse ali fixando uma assinatura. A abertura com imagens de arquivo, a canção entoada na sala de estar pela sagrada instituição da família, o personagem do playboy rico meliante (interpretado aqui pelo mesmo ator que faz o mesmo papel em O som ao redor), a divisão do filme em capítulos, a fantasmagoria de movimentos estranhos que se passam no fundo da cena e, particularmente, o desfecho em tom de bomba-relógio prestes a explodir, todos esses traços levam a crer que Kleber pode estar produzindo uma série (haveria uma trilogia em vista?) sobre esse mal-estar de uma classe média intelectualizada diante não apenas de um projeto frustrante de cidade, mas também de um processo autoanalítico de relações de poder que ela estabelece particularmente com as trabalhadoras domésticas. E nesse aspecto é necessário frisar que o olhar de ambos os filmes sobre essas últimas mulheres é um olhar de uma classe média que, mesmo quando critica essas relações, com frequência ainda mantém os rastros da formação Casa Grande que nos ensinaram (mesmo quando elas possuem espaço para a afronta, suas provocações ainda estão presas no campo de uma afetiva subserviência).

Mas Aquarius, a despeito das citadas semelhanças com o longa anterior do mesmo diretor, carrega algo muito próprio que somente um filme guiado por uma personagem única pode ter: a proximidade que criamos com ela ao longo da história. Essa intimidade com Clara faz desse filme algo que se torna muito caro para todos nós que, de alguma forma, somos empáticos às causas que ela carrega. Estamos falando de uma mulher que resiste não apenas a uma empresa, mas a tudo que essa empresa representa. Leia-se, um país em processo de falência moral e espiritual, onde o mau-caratismo vem disfarçado de discurso em nome da ordem e progresso, onde a imprensa é o poder corrompido que legitima esse discurso (há nesse filme uma cena dedicada especialmente a falar disso, a lembrar que Clara é uma jornalista aposentada) e onde as cidades estão se tornando palimpsestos em ruínas. Não se trata, portanto, de algo conjuntural, estamos falando de uma obra que catalisa questões da formação do Brasil desde que os jovens brancos de mais de 500 anos atrás decidiram tomar nosso terreno. A usurpação dos espaços de memória nos é familiar desde então.

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