As montanhas se separam, de Jia Zhang-ke

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Há bandeiras sendo içadas em nome da Memória, há dentes trincados na luta pela Memória, há resistência em todas as esquinas mal iluminadas dessa Memória. Mas se seu nome é repetidamente conclamado em tantos campos de batalha, é porque o motivo dessa agonia se põe cada vez mais predador em suas intenções. O Apagamento da Memória é uma ameaça que, por exercício do ofício, se faz invisível. O diretor chinês Jia Zhang-ke sabe disso e lida com esse fantasma devorador de espaços e tempos desde que começou a fazer cinema, disparando sua câmera para registrar e preservar as imagens que o inimigo tenta dissipar.

Com seu mais novo filme, As montanhas se separam, o cineasta faz uma nova curva na narrativa dessa batalha épica da Memória Guerreira contra o Dragão da Aniquilação. Com a ironia que lhe é própria, ele nos conta como é possível que a ideológica promessa de um mundo novo, onde “o céu será sempre azul”, é um discurso que facilmente consegue ser domado para que possamos sublimar nossas perdas, o apagamento de nossas lembranças.

“Go west – life is peaceful there. Go west – in the open air. Go west – where the skies are blue. Go west – this is what we’re gonna do.” A música, aqui na releitura que o Pet Shop Boys fez do Village People, abre o filme numa otimista coreografia que descortina uma China de 1999, num momento que o país adotava de uma vez por todas o chamado “socialismo de mercado”, que não apenas mirava o Ocidente, mas se mirava nesse Ocidente para vender um projeto de desenvolvimento acelerado e tecnológico, tratores e vigas passando por cima de construções simbólicas e afetivas.

A convocação do “vá para o ocidente”, que historicamente tem o peso sangrado das colonizações e do desbravamento norte-americano no Meio-Oeste, aqui se desdobra em vários significados: a de uma expectativa coletiva em torno de um Eldorado possível (no caso do Village People/Pet Shop Boys era um Eldorado gay, no caso da China, trata-se de uma utopia neoliberal), a de um desbravamento cínico da China nesse Ocidente onde ela faz alianças predadoras e, claro, a de uma viagem que, uma vez empreendida, pode ter seus rastros culturais facilmente apagados pelos ventos que vêm do Oeste, de onde chegam as melodias de músicas pop cantadas em inglês.

As montanhas das quais Jia Zhang-ke fala no título de seu filme podem ser lidas como as gigantes estruturas simbólicas e afetivas sobre as quais a China se construiu. Do mesmo modo que a separação dessas montanhas pode implicar um afastamento e, consequentemente, uma perda de laços, entre essas estruturas. É, portanto, na narrativa de separações que o filme vai se dar. A separação entre uma mulher e o possível grande amor de sua vida, entre mesma mulher e seu filho, entre esse filho e sua identidade cultural e, por fim, mas certamente não menos importante, entre a China Oriental e Ocidental.

Mas não tomemos esses conflitos como campos bem estabelecidos de atritos com aroma de Guerra Fria (tradição x modernidade, socialismo x capitalismo), o cineasta em questão está disposto a deixar turvos todos os contornos, a começar pela própria mecânica de captura de imagens do filme. O primeiro dos três atos joga diferentes texturas em cena, que vão do HD, mas passam também pela estética VHS e por bitolas que parecem, em vários momentos, terem sido extraídas de documentários. A janela de abertura do filme também muda com a primeira transição da narrativa, se alargando entre a clássica proporção 4/3 dos anos 90 até o hoje padrão 13/7 dos anos 00. São gradações sutis que dão conta também desse fator das mudanças que passam imperceptíveis aos nossos olhos treinados a ver apenas o objeto em foco, quando em tantas vezes é no entorno desse objeto que o verdadeiro drama acontece – da mesma forma como a Floresta é um personagem essencial nas fábulas dos Irmãos Grimm, a cidade de Fenyang, onde Zhang-ke nasceu, jamais poderá ser mera coadjuvante de cena.

E é em Fenyang mais uma vez de onde parte essa história. A sequência musical inicial é protagonizada por Tao (numa interpretação impecável da homônima Zhao Tao, mulher do cineasta), uma jovem professora da supracitada cidade, cuja simpatia e popularidade encanta a todos, particularmente a dois jovens: Liangzi (Liang Jin Dong) e Jinsheng (Zhang Yi). Tao é o eixo entre dois polos magnéticos: de um lado, um homem de sorriso fácil, ambições modestas e uma energia côncava, voltada para dentro, do outro um jovem empresário de planos grandiosos, ímpetos dramáticos e vaidades indisfarçáveis.

Mas nada é simples, e Tao captura bem o conflito dessa personagem (e nação) no pêndulo entre a manutenção das coisas como elas são e a promessa (Go West!) de um futuro promissor. Sua decisão, adiada até o último momento, sobre que caminho tomar, espelha também as resoluções de uma China inteira. Pois, para segurar a mão de um desses homens, isso implica que outra mão ficará solta no ar. Mas ela será esquecida? Até onde é possível apagar a memória de um amor, até onde se consegue apagar as marcas de uma nação? E mais: dá para articular o apagamento como um escudo sentimental com a ideia do apagamento enquanto projeto ideológico? Jia Zhang-ke filma um convite de casamento coberto pelo pó de um espaço abandonado – numa cidade que igualmente parece ter sido deixada para trás – e a gente entende ali que o jogo do privado e público em seus filmes é a única tensão possível.

Mais tarde, no último ato, entra em cena o personagem do filho completamente destituído de identidade (o quão maravilhosamente ridículo é colocar o nome desse menino de Dollar?). Nesse momento, serão nos condomínios estéreis de uma Austrália catalisadora do não-lugar, que as imagens – e a transparência morta dos gadgets de um futuro próximo – se tornam ainda mais definidoras do que o diretor vislumbra nessa sua cinematografia dedicada a falar do mundo a partir de uma China em desmanche. Uma que sequer saberá falar sua própria língua, mas que, em algum registro da combatente memória, se sentirá estranhamente acolhida por uma música melosa em cantonês.

Se em seu potente filme anterior, Um toque de pecado, o cineasta usava de imagens violentas para nos aproximar da sensação de ressaca de uma nação – e particularmente preciso dizer que até o momento não me recuperei da cena em que um jovem trabalhador cruzava a tela e se jogava do alto do prédio onde morava -, em As montanhas se separam, ele fará isso a partir de imagens com as mais variadas forças de impacto. Um avião colide com o chão, um tigre é enjaulado, um caminhão carregado de carvão pende pro lado, um menino é visto em dois diferentes momentos de sua vida, mas em ambas as idades ele persiste segurando os símbolos de sua identidade. As imagens que cruzam essa história são registros paralelos e perpendiculares à trama, que muitas vezes irrompem o quadro sem pedir licença e não prometem qualquer efeito de sentido, pois a experiência estética em Zhang-ke fala às vezes somente através da pele. Assim como nós só conseguimos acessar a memória através da presença de algo que não necessariamente entendemos, mas essencialmente sentimos.

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